A solução para um Governo estável poderá estar no novo Presidente da República, defendeu Henrique Neto, candidato nas próximas eleições presidenciais de janeiro, na sua intervenção no painel “Crise Política”, que encerrou o IV Fórum Empresarial do Algarve, em Vilamoura, organizado pelo LIDE Portugal.
A Henrique Neto, empresário e candidato a Presidente da República, juntaram-se António Vitorino, sócio da sociedade de advogados Cautrecasas e analista político, António Ramalho, presidente da Infraestruturas de Portuguesas, e André Gorjão Costa, CFO dos CTT – Correios de Portugal, S.A., com moderação do consultor António Costa.
António Costa deu o pontapé de saída para «um debate que, à partida, e aparentemente, está ultrapassado», e desafiou Henrique Neto a dizer se ainda estamos em crise política ou não.
«A crise política portuguesa é uma crise estrutural, uma crise política nacional, não é pontual», ressalvou Henrique Neto, adiantando que temos, desde logo, uma crise política, porque os portugueses cada vez votam menos; e depois uma crise económica, com a estagnação económica com mais de uma década. «As empresas têm crescido com grande dificuldade, com problemas políticos – de impostos, burocracias, etc. –, e apesar das dificuldades que a política traz à sua atividade diária», referiu, contando que, nas suas viagens pelo País, ouve muito a frase «deixem-nos trabalhar».
Neste contexto, Henrique Neto salientou a necessidade de consensos. A falta de representação política é um problema grave, já que os deputados que temos na Assembleia são escolhidos pelos partidos e não pelos eleitores; também a falta de contratualização democrática e a descontinuidade, referida igualmente por António Ramalho, e provocada pela constante mudança de governo são problemas apontados – apenas com dois dias de governo, o atual executivo fez um conjunto de alterações significativas, sem ter tido tempo sequer de as discutir no Parlamento.
«Ora, isto tem consequências na credibilidade interna e externa, naturalmente», alertou, acrescentando que, embora concordando que o sistema político tem sempre conseguido resolver os problemas, fá-lo sempre fora de tempo, porque não prevê, não antevê, nem previne com as medidas adequadas. A solução poderá estar no Presidente da República, defende Henrique Neto, que deve usar de persuasão, de experiência e «tempo de vida», de clareza na análise e estratégia a médio prazo, que ajudará o Primeiro-Ministro a perceber as implicações a longo prazo das medidas que pretende tomar, prevendo problemas. Depois a pedagogia junto da Assembleia da República, alertando para a negatividade ou positividade de algumas medidas; a valorização das instituições da sociedade, como associações empresariais, universidades, as instituições do próprio Estado, entre outras, que devem ter um papel mais relevante na definição das políticas do país. Não se trata de governar o país, mas de dar um contributo definitivo dentro dos poderes que lhe foram constitucionalmente atribuídos, explica o candidato, e, como Presidente da República, estarei muito atento a qualquer sinal de instabilidade, e não hesitarei em dissolver a Assembleia da República e convocar eleições se for essa a solução», avisou Henrique Neto.
O Presidente da República deve ter um papel moderador, referiu igualmente António Vitorino, apoiando a posição de Henrique Neto. O único fator de continuidade, o fundamental, são os compromissos internacionais, nomeadamente da participação no euro, apontando como questão crucial a compaginação desses compromissos internacionais com as reivindicações da sua base parlamentar de apoio, nomeadamente a estratégia do incremento das exportações, e da atração do investimento externo.
Numa perspetiva empresarial, António Ramalho explicou que as dificuldades na gestão de uma empresa em que o principal e único acionista é o Estado, são as mesmas que numa empresa privada.
«Para um gestor, não houve assim tantas surpresas nesta situação», referiu, mas ressalvou alguns aspetos negativos, como a não continuidade dos processos políticos, ou, mais grave, a perda das pontes que permitem que, em momentos decisivos da história portuguesa, lidar com determinadas situações, mantendo um caminho e uma estratégia económica para o crescimento, exemplificado com as revisões constitucionais, ou o memorando de entendimento.
André Gorjão Costa foi desafiado a explicar como é que os investidores têm olhado para todas estas indefinições e estes momentos da realidade portuguesa. Sendo gestor de uma empresa privada, com capitais 99% estrangeiros, chamou a atenção que a instabilidade política de há dois anos teve mais consequências na imagem do País do que a crise política atual – estamos a lidar com a previsibilidade fiscal, por exemplo, fator determinante para os investidores, entre outros princípios, que devem manter-se apesar das mudanças de governo.
A urgência da situação de Portugal é um problema grave, a dívida e a inevitabilidade da escalada da taxa de juro, e perturba, naturalmente, a criação de um modelo de sustentabilidade, alertou António Ramalho. «É um problema relativamente simples em termos de opções, mas muito complexo em termos de soluções», explica.
Mas a estratégia pode ser a longo prazo, e as medidas de gestão ser adaptadas, criadas e ajustadas regularmente e a curto prazo, o que não deverá implicar na estratégia a longo prazo, defende André Gorjão Costa. «A estratégia é a exportação», salientou igualmente Henrique Neto.
Luís Marques Mendes, membro do Comité de Gestão do LIDE Portugal, deu as boas-vindas aos participantes do Fórum e agradeceu aos oradores do painel manhã, nomeadamente Henrique Neto, candidato a Presidente da República, nas vésperas das eleições de janeiro.
Luís Portela, presidente não executivo da Bial, recebe prémio Lifetime Achievement
Luís Portela, presidente não executivo da farmacêutica Bial, foi o galardoado com o prémio Lifetime Achievement, atribuído pelo LIDE Portugal no Fórum Empresarial do Algarve ao longo das suas quatro edições. O distinguido agradeceu o reconhecimento, e salientou os anteriores galardoados referindo ser uma honra juntar-se a este grupo de notáveis.
Para Luís Portela, a vida tem sido uma sucessão de oportunidades de aprendizagem, que procurou agarrar, nomeadamente na gestão da Bial, apostando na inovação, levando hoje medicamentos portugueses a 56 países. A empresa está hoje na quarta geração de gestores da família, com os filhos de Luís Portela.
O IV Fórum Empresarial do Algarve decorreu nos dias 27, 28 e 29 de novembro em Vilamoura, no Algarve, com várias dezenas de personalidades da economia, da política e das empresas portuguesas, para debater o tema «2020, Portugal e o Mundo».
No encerramento do evento, Carlos Miguel Gonçalves, presidente do executivo do LIDE Portugal, salientou a grande participação de todos, o trabalho da equipa, e o grande significado que este evento tem na discussão dos principais temas da sociedade portuguesa.