Escavações arqueológicas realizadas em Loulé revelaram vestígios romanos inéditos, enterramentos e vários novos dados sobre a história e evolução da cidade.
A Câmara Municipal de Loulé promoveu uma sessão pública de esclarecimento, conduzida pelos arqueólogos municipais Alexandra Pires e Rui Almeida, dedicada aos trabalhos arqueológicos integrados nas obras de reabilitação dos arruamentos (Fase 2) do Centro Histórico de Loulé.
A palestra «A Arqueologia no Centro Histórico de Loulé», teve lugar na Alcaidaria do Castelo, na terça-feira, dia 12 de maio, e teve por objetivo aproximar os munícipes da realidade científica do subsolo, e explicar «o impacto inevitável» que estas intervenções têm na vida quotidiana, assim como a necessidade de proteger o património e aprofundar o conhecimento da evolução da cidade ao longo do tempo.
«Nos últimos anos, as ruas do Centro Histórico de Loulé têm sofrido obras, com os inevitáveis constrangimentos. Pó e barulho à porta das casas ou dos estabelecimentos comerciais, ruas cortadas ao acesso pedonal – nem sempre são bem compreendidos pela população, mesmo quando o fim é a melhoria da qualidade do espaço público», explica hoje a autarquia em nota enviada às redações.
Muitas vezes é imputada aos trabalhos arqueológicos a culpa dos atrasos das empreitadas. Mas em Loulé, graças à equipa da Arqueologia do município, foi possível «devolver a qualidade de vida a estas pessoas de forma mais rápida», como sublinhou a diretora municipal, Dália Paulo, durante o evento.
«A Arqueologia, por vezes, não só atrasa obras, mas também resolve situações. Os nossos arqueólogos fizeram com que a obra tivesse menos impacto pois poderia ter tido um impacto muito grande para os moradores. Se não fosse a sua dedicação provavelmente teríamos mais seis meses de obra», notou.
Em nome de uma equipa que integra mais três elementos – Daniela Grelha, Margarida Marques e Soraia Martins -, Alexandra Pires e Rui Almeida apresentaram os resultados das escavações, revelando, entre outros, achados inéditos do período romano e enterramentos no Largo da Matriz.
O encontro serviu não só para partilhar as descobertas, mas também explicar o enquadramento legal que protege este território. O Centro Histórico está integrado numa Zona Especial de Proteção (ZEP) aos Monumentos Classificados, ferramenta legal que funciona como «uma célula autónoma no urbanismo de Loulé».
Tal condição obriga a pareceres da tutela do património e determina a obrigatoriedade de acompanhamento arqueológico em todas as obras públicas ou privadas, e garante cuidados redobrados não só com os elementos arquitetónicos, mas também com o património do subsolo, como notou Alexandra Pires.
Em relação às descobertas da Fase 1 (realizada entre 2013 e 2014), a intervenção focou-se na envolvente do Castelo e no Largo Afonso III, trazendo à luz, sistemas de canalização, estruturas antigas e desativadas de gestão de águas, em excelente estado de conservação ou antigo pavimento da Rua D. Paio Peres Correia.
No Largo D. Pedro I os resultados foram «transformadores para o conhecimento que tínhamos do urbanismo do Centro Histórico», notou Alexandra Pires. A descoberta provou que este largo é recente, e revelou que o urbanismo medieval da zona era muito mais fechado e denso.
Mas a «descoberta mais estimulante e mais importante para o conhecimento da cidade» incluiu o vestíbulo do edifício dos Hammam (Banhos Islâmicos), canalizações cerâmicas embutidas nas paredes para transporte de água, uma latrina e sistemas de escoamento das águas sujas.
Foram também encontrados os restos da antiga fonte da vila, mencionada desde o século XIV e que terá sido a principal fonte a servir Loulé até um período recente, tendo sido substituída apenas no século XIX pelo chafariz das Bicas Velhas, o mais emblemático da cidade.
Na intervenção mais recente (2024-2025), na Calçada dos Sapateiros confirmou-se um troço da muralha islâmica (atravessada por tubagens da década de 1950). «São vários momentos que aquele lugar viveu, sofreu e que chegaram até nós», referiu Rui Almeida.
Pela primeira vez, foram identificados também algumas estruturas do período romano (dos séculos II a IV) no espaço urbano consolidado, mas, como sublinhou o arqueólogo, esta presença romana inédita não altera a origem da cidade; prova a existência de uma pequena comunidade agrícola (quinta ou casal), cerca de 600 anos antes da fundação do núcleo urbano atual.
A zona da Igreja Matriz concentrou a maioria dos achados arqueológicos, com a identificação de vários enterramentos.
Os defuntos foram sepultados apenas envolvidos em mortalhas (sem caixão), como era habitual nestas épocas, deitados de costas e orientados com as cabeças a oeste e os pés a este, seguindo a ideia de estarem voltados de frente para o altar da igreja quando ressuscitassem.
A equipa técnica sublinha que os trabalhos de campo foram executados com a máxima rapidez possível para mitigar as dificuldades de acessibilidade. O trabalho arqueológico prossegue agora em fase de gabinete.
Os materiais recolhidos no campo serão submetidos a estudos antropológicos detalhados nos próximos meses para determinar o perfil demográfico daquela população que habitou Loulé.


