Na Ervideira, Duarte Leal da Costa e os seus filhos estão a perpetuar uma tradição de vinificação inovadora. Concluída a primeira metade de 2024, atingiu 1,37 milhões de euros de faturação.
O Alentejo. Uma região onde perduram as tradições, onde os vinhos são feitos em ânforas de barro como faziam os romanos há dois mil anos, e onde o tempo passa mais devagar do que em qualquer outro lugar. Este é o Alentejo que todos conhecemos e adoramos. Mas há um outro lado da região. Uma terra de homens visionários que desenvolveram tradições e transmitiram essa mentalidade pioneira às gerações que se seguiram.
Duarte Leal da Costa, tal como os seus antepassados, é um desses homens. O produtor pode ser um alentejano tradicional, mas não é de se conformar com as normas. Neste paradoxo, encontramos uma personalidade única que contribuiu para o sucesso da Ervideira, uma adega moderna situada na tranquilidade das vastas planícies ondulantes da região.
A história da Ervideira data de 1880, quando o ilustre Conde da Ervideira, um homem altamente respeitado na região, organizou o que se chamava a Casa da Malta, numa época de grande fome.
«Era aqui que os agricultores recebiam três refeições por dia: almoço às 5h00 da manhã, jantar às 11 e ceia às 17 horas. Desta forma, podiam trabalhar de barriga cheia e comiam antes de ir para casa», explica Duarte Leal da Costa, bisneto do Conde e pertencente à 4.ª geração desta família vitivinícola. «A Casa da Malta estava aberta todos os dias do ano, e o vinho [produzido na propriedade] estava incluído nas três refeições».
Ao longo dos tempos, o Conde reduziu os pagamentos em espécie e aumentou os salários dos trabalhadores. Até aos dias de hoje, os trabalhadores da Ervideira ainda recebem uma parte do seu salário em vinho.
«Sempre houve uma cultura de grande proximidade com o staff», diz o produtor. Primeiro com o seu bisavô, depois com o seu avô, uma tia, e agora com Duarte, que assumiu o cargo após o 25 de Abril. O produtor recorda que a família foi «convidada» a deixar a propriedade em 1974. Tendo-se mudado para Lisboa, Duarte regressou em 1988, com apenas 21 anos, e descobriu que não restava nada.
«Não tínhamos vinhas, adega, nada», exclama. Tinha sido tudo destruído e o projeto do seu bisavô teve de recomeçar do zero.
Foram plantadas novas vinhas, incluindo as primeiras de Touriga Nacional na região e, em 1991, as uvas da primeira colheita foram vendidas à Adega Cooperativa de Vidigueira.
«A cooperativa queria quilos, mas nós tínhamos investido em uvas de qualidade. Tínhamos Touriga Nacional, Tinta Caiada, e Alfrocheiro, castas de maior qualidade embora produzissem menos» e, uma vez que a Touriga Nacional não era uma casta autóctone do Alentejo, só podia ser classificada como uma variedade regional ou de mesa.
«Fui penalizado em termos de valor e quantidade. Por isso, decidi produzir o meu próprio vinho, alugando espaços em caves privadas», até que construiu uma adega moderna na Ervideira, em 2002. «Não parámos de crescer desde então».
Inovação é o nome do meio de Duarte. Além de ter sido o primeiro a plantar Touriga Nacional na região e a fazer colheitas à noite, também produziu o primeiro espumante certificado do Alentejo e, juntamente com a Amorim, criou a Helix, uma rolha de fácil abertura. Depois, em 2009, surgiu a sua inovação mais significativa, o famoso vinho «Invisível» da Ervideira – um vinho branco feito a partir de uvas tintas Aragonez. E, em 2015, lança o «vinho de água», cuja produção implica submergir garrafas de vinho na barragem do Alqueva.
Hoje, o portefólio da Ervideira inclui 30 referências divididas em cinco famílias: Conde d’Ervideira, Vinhas d’Ervideira, Terras d’Ervideira, Lusitano e Flor de Sal.
«A família Conde d’Ervideira representa mais de 50 por cento da nossa faturação. Ou seja, a empresa tem uma pirâmide completamente invertida. Vendemos mais vinhos topo de gama», sublinha Duarte.
O dois Barricas Magnum, uma mistura de campo feita com uvas autóctones, tem o preço de 500 euros. No entanto, o Invisível, com os seus aromas subtis de chá Earl Grey, menta, casca de lima e salva, é a joia da coroa da Ervideira. Duarte explica que a ideia surgiu porque queria criar «um bom Blanc de Noir» com uvas Aragonez. Quando o vinho foi lançado, há 14 anos, foram produzidas nove mil garrafas. No ano passado, chegaram às 136 mil garrafas.
«É o nosso vinho com maior crescimento e o mais emblemático da Ervideira. O problema é que esgota todos os anos.» Mas é um problema bom para se ter e para o qual já encontraram solução; plantando mais seis hectares de vinhas Aragonez.
A Ervideira tem 116 hectares de vinhas espalhadas entre Reguengos de Monsaraz e Vidigueira. Em 2022, produziram 800 toneladas de uvas, o que equivale a um volume potencial de 800 mil garrafas. Mas há regras na Ervideira. Só fazem vinho com as suas próprias uvas e só engarrafam 80 por cento da produção. Os melhores vinhos são engarrafados, e os que não têm o potencial que se pretende de um Ervideira são vendidos a granel.
Quanto ao Vinho d’Água, Duarte admite que estava curioso. «Sempre fui assim. Lia muito sobre vinhos encontrados em naufrágios e como acabam por ser completamente diferentes», devido à pressão e temperatura constante da água.
«Por isso, decidi colocar uma caixa de 12 garrafas no Alqueva.» Após três meses, ficou chocado ao descobrir as garrafas vazias. Pensando inicialmente que alguém lhe tinha pregado uma partida, apercebeu-se que a pressão tinha aberto as rolhas.
Voltou a submergir outras 12 garrafas, desta vez com uma rolha mais forte selada com cera. Após três meses, provou os vinhos com o seu enólogo, Nelson.
«Estavam totalmente diferentes.» Seis meses mais tarde, o resultado foi ainda mais surpreendente. Entusiasmado, Duarte pediu a Nelson que submergisse 30 mil garrafas. Um risco significativo, que se revelou uma grande história de sucesso.
O vinho é uma mistura complexa de Touriga Nacional, Aragonez, Trincadeira, Tinta Caiada, Alicante Bouschet e Cabernet Sauvignon. Envelhecido em barris de carvalho francês, é engarrafado e envelhecido durante mais oito meses a uma profundidade de 30 metros nas águas calmas do Alqueva.
A Ervideira é também pioneira no enoturismo. Há 15 anos, Duarte decidiu investir no enoturismo em vez de publicidade. As visitas começaram na adega; depois abriu lojas em Monsaraz, Évora e Lisboa. Além das tradicionais visitas e provas na adega, a Ervideira oferece as experiências «Enólogo por Um Dia» e «100 Pés», durante as quais os visitantes descalçam-se para pisar as uvas e fazer o seu próprio vinho.
Para o futuro da Ervideira, prevêem-se mais investimentos, como a construção de uma nova adega para vinhos premium e super-premium, aliada ao enoturismo. Um novo projeto que será supervisionado pelos dois filhos de Duarte, Duarte e Bernardo, a 5.ª geração desta família vitivinícola pioneira.
Ervideira fecha o primeiro semestre do ano com 1,37 milhões de euros de faturação
Concluída a primeira metade de 2024, a Ervideira atingiu 1,37 milhões de euros de faturação, um crescimento de 13,2 por cento nestes primeiros seis meses do ano, face ao período homólogo de 2023, e em contraciclo com o sector dos vinhos.
Este crescimento deve-se, em especial, aos resultados alcançados pelas marcas Conde D’Ervideira, Vinho da Água e Invisível, que apostam no fator inovação a cada ano que passa.
A Ervideira apresenta assim um crescimento de 12,4 por cento no canal Horeca e 15,5 por cento no Enoturismo, “percentagens que nos deixam muito orgulhosos e nos fazem acreditar que 2024 será um ano muito positivo, ao contrário do que o panorama mundial nos fazia acredita”, afirma Duarte Leal da Costa, diretor executivo da Ervideira.
Perante os resultados alcançados até ao momento, o diretor executivo acrescenta «que nem tudo é um mar de rosas, e há exigência que o mercado traz consigo que temos de enfrentar e ver a melhor forma de as combater. No entanto, o primeiro semestre terminou e os objetivos foram atingidos, algo que nos deixa, enquanto equipa, muito satisfeitos. Num mercado que mundialmente se tornou excedentário, desde França até à Austrália, por diversas razões, por um lado, melhores técnicas vitícolas aumentaram a produção unitária, por outro, foram plantados muitos milhares de hectares de vinhas novas. Apenas a título de exemplo, a área de vinha no Alentejo de 1980 até aos dias de hoje aumentou seis vezes, com uma produção em excesso de cerca de 20 por cento ao ano, fator que é preciso ter em atenção».
O ano passado foi marcado por um crescimento acentuado da Ervideira, em particular, no segmento do Enoturismo, que se destacou e atingiu um crescimento ímpar de mais de 20 por cento, face aos anos anteriores. Entrando em 2024, e após os primeiros seis meses, a tendência de crescimento mantém-se, deixando a marca muito otimista face aos resultados anuais.





