No largo da praia dos pescadores, João Torgal, 49 anos, gerente do «Big John Bar» faz contas à vida. «O mar engoliu a esplanada nova. Tinha sido comprada há três meses, 10 mesas e 40 cadeiras, 2100 euros. Desapareceu tudo. Só em máquinas, o prejuízo ascende aos 54 mil euros», contabiliza.
Torgal viveu um momento dramático, em plena enxurrada, que foi captado pelas câmaras de televisão. «Quando vim aqui para tentar salvar alguma coisa, gritaram-me que estava uma pessoa muito aflita presa numa cave. Fui socorrê-la de imediato, juntamente com um bombeiro e um militar da GNR. Salvámos-lhe a vida. A partir daí, já não quis saber de mais nada. Não me preocupei mais com os bens materiais», conta com modéstia. Era um conhecido seu «que tinha ido buscar o carro» à garagem.
O dia para abrir, de novo, as portas ainda é uma incógnita. «Tenho seguro contra todos os riscos, mas não sei se cobre os danos da natureza. A apólice e o número da seguradora estavam na caixa e também foram com a enxurrada», lamenta.
O seu bar foi o primeiro estabelecimento a ser visitado pelo ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, na tarde da passada segunda-feira, 2 de novembro, no rescaldo da tragédia. «Penso que é importante que tenha cá vindo. Ele estava bem informado. Sabia qual a origem do caudal, e o problema que causou esta situação. Disse-me que o ideal seria fazer uma pequena barragem. Se avançar, ali para o lado de Paderne, será uma ajuda à agricultura».
Apesar da dimensão do desastre, o empresário não se mostra surpreendido. «Isto vem no seguimento de coisas que estão há muito identificadas. A água vem de Paderne para as Ferreiras, passa por Vale Paraíso, vai ter ao Parque de Campismo, e desce na zona do Centro de Saúde. Foi-se construir em cima do próprio caudal da ribeira», lamenta.
Na baixa há lama e caos, há recheios completos de lojas, irrecuperáveis. Computadores enlameados, stocks inteiros de bebidas e equipamento hoteleiro pesado. Tudo arrastado centenas de metros pelas águas. António Penisga, gerente da pizzeria «La Barca» conta com a solidariedade dos amigos. Voluntariaram-se para limpar o restaurante. Admite que a calamidade o apanhou de surpresa, tal como a muitos colegas comerciantes.
«Foi tudo de repente. Nunca tinha acontecido uma coisa destas». O máximo que viu foi, há quatro anos, uma cheia com a água a chegar ao meio metro. Avalia os prejuízos em mais de 250 mil euros. «Foi-se tudo. O trabalho de sete anos e ainda não está pago». Seguro? «Já falei com o meu banco, mas penso que não cobre nada. O empréstimo não abrange» intempéries e desastres naturais. Regressar à normalidade «vai levar muito tempo. Veja lá fora, tudo destruído».
«Os senhores da POLIS é que deviam vir cá ver isto», diz indignada Sílvia Brites, residente de longa data, de esfregona na mão a limpar a loja «Sacola». À sua porta, a estrada desapareceu. A força da água arrancou o asfalto, abriu novas valas, destruiu carros, passeios, nem a sinalética escapou.
«Não tive muitos prejuízos, mas falo pelos outros. Isto há 60 anos era uma ribeira que ia desaguar ao mar. Com o tempo quiseram tapá–la para fazer prédios. Nunca devia ter sido fechada. E quem pagou tudo foi o cidadão», diz, evocando as dezenas de «engenheiros» que viu passar por ali. «Hoje ninguém sabe onde estão» as redes de «água e eletricidade», tantas foram as obras que viu cavarem à sua porta.
«Já viu? No largo dos pescadores puseram um chão, onde os estrangeiros escorregam, seja de verão ou de inverno. E onde é que estão os pescadores? Onde é que estão os barcos? Quiseram fazer de Albufeira uma cidade. Nunca foi uma cidade, foi sempre uma aldeia turística. Os turistas hoje vêm aqui e até jogam as mãos à cabeça».
«Falei para o ministro, mas ele nem olhou para mim. Acha que isto não é uma calamidade? Eles têm de ouvir as pessoas de Albufeira!»
Carlos Silva e Sousa, presidente da Câmara de Albufeira, pediu ao final de segunda-feira que fosse decretado o estado de calamidade pública para o concelho, devido aos danos de «milhões de euros» provocados pelas inundações de domingo no concelho. O levantamento dos estragos está, contudo, longe de concluído.
Discurso bíblico
Depois de distribuir palavras de conforto a comerciantes e empresários na fustigada baixa de Albufeira, o ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva, reuniu os jornalistas. «Isto é uma lição de vida para todos nós», disse, elogiando quem se preveniu com uma apólice. «Eu tenho um negócio, vou fazer o meu seguro para que se o infortúnio me bater à porta tenha valido a pena pagar o prémio», exemplificou. Quem não o fez, «aprende, em primeiro lugar, que é bom reservar sempre um bocadinho» para este fim. «As pessoas estão conscientes que há outros mecanismos para além dos auxílios estatais. Cada um tem um pequeno pé-de-meia. Em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro». Calvão da Silva garantiu que viria na mesma a Albufeira, «mesmo que, à noite, já não fosse ministro». Num discurso marcado por referências bíblicas, o ministro lamentou a morte do idoso em Boliqueime, que «entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado». Já sobre a intempérie, «embora os ingleses digam que é um act of God, há que traduzir de outra maneira», explicou o governante, evocando uma «fúria demoníaca» da natureza e que «Deus nem sempre é amigo»…
Prevenção não funcionou
Ouvido pelo «barlavento», o consultor de meteorologia Mário Marques, considerou que «se atempadamente tivessem avisado, as pessoas iriam salvaguardar bens, tal como fizeram os comerciantes da Ribeira do Porto perante o meu aviso em 2006, dado com três dias de antecedência». «Não serve colocar um Alerta Vermelho seis horas antes do pico do evento, mas compreendo que a história do lobo já esteja gasta por parte do IPMA». «O desordenamento territorial no Algarve é de tal ordem, que até nas cartas topográficas de PDM’s já não surgem muitos dos pequenos cursos de água por onde a água costumava afluir», criticou.
Manhã difícil no Aeroporto de Faro
A manhã de domingo, dia 1 de novembro foi difícil no Aeroporto de Faro devido aos ventos inconstantes. O Airbus A320 da Monarch, voo ZB1242, vindo de Leeds, Inglaterra, deparou-se com um windshear a 500 pés de altitude, cerca das 11h50, já no final da pista 28. O fenómeno é um velho inimigo da aviação que já causou muitos acidentes. Depois duas tentativas falhadas para aterrar, divergiu para Sevilha. Antes, já um voo da easyjet tinha ido para Lisboa e vários outros tiveram de esperar pela melhoria das condições. Em terra, os ventos obrigaram a manobras pouco frequentes, com o runway backtracking ou backtaxi, na qual a tripulação decide trocar o sentido da descolagem e usa a própria pista para se posicionar, ao invés dos corredores próprios para o efeito.
Relâmpagos em Portimão
A situação mais grave registada no concelho de Portimão foi a queda de um raio numa habitação, que provocou um pequeno incêndio. O relâmpago caiu pouco depois das 9 horas, numa casa no Monte Canelas, na Urbanização «Serra e Mar», situada na zona rural do município. Cedo foi extinto, sem feridos, nem outros danos de maior. Ao «barlavento» chegou também o relato de uma inundação no pavilhão da escola EB1 Major David Neto, o que obrigou a que alguns pais tivessem de ir buscar os seus filhos. Registaram-se inundações, sem danos de maior, e quedas de árvores no Barlavento.
Armação de Pêra precaveu-se
Ricardo Pinto, presidente da Junta de Freguesia de Armação de Pêra, afirmou ao «barlavento» que se registaram «cheias na zona baixa, mas os moradores e proprietários de estabelecimentos agiram por antecipação». Também todas as «medidas preventivas foram tomadas» e tendo a situação mais grave foi a inundação de uma garagem, evacuada a tempo.
Inundações em Algoz e Silves
Foram diversos os registos de inundações em Algoz e nas zonas agrícolas de Silves, com campos e ruas submersas pela água. Os bombeiros acorreram a diversos pedidos de ajuda. Em Algoz, as ruas inundaram por completo. Segundo o relato de um leitor, a força da água partiu a parede da garagem, ainda que não se tenham registado outros danos de maior.
Ferragudo sem consequências negativas
Ferragudo também sentiu o efeito da chuva, no passado domingo, ainda que sem consequências negativas. A zona ribeirinha inundou até ao regato, mas houve intervenção permanente todo o dia, afirmou Luís Alberto, presidente da Junta de Freguesia de Ferragudo. Os efeitos não foram maiores, pois a chuva coincidiu com a baixa-mar.
O rescaldo
João Calvão da Silva, recebeu em audiência o presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil, Major-General Francisco Grave Pereira, na quarta-feira, 4 de novembro. O encontro, que decorreu à porta fechada, teve o intuito de elaborar o ponto de situação dos factos ocorridos em Albufeira. O Ministério da Administração Interna reitera que, «dentro das suas competências, continuará a apoiar os serviços sempre com o objetivo final de apresentar soluções para os problemas resultantes das cheias de domingo, dia 1 de novembro».