No tempo, por exemplo, dos romanos, cujo modelo económico assentava na escravatura pura e dura, presume-se que as denominadas «elites» de então – a não ser algum «excêntrico» ou «populista» – não admitissem a existência de qualquer outro modelo alternativo ao dito. A verdade, porém, é que o mesmo se acabaria, nomeadamente, com os escravos a revoltarem-se, por esboroar, dando lugar ao que ficaria conhecido por sistema feudal.
Também aqui, as «elites» terão partido do pressuposto que alternativas ao feudalismo não existiriam. Mas tal como as romanas acabaram por se mostrar equivocadas, um novo sistema, com a ascensão da burguesia, se lhe sobrepôs, o capitalista, em que temos vindo a viver.
Ora, a questão que se coloca, é a de se saber se este sistema, cada vez mais cheio de contradições – de que a «crise» que já vem de 2008 sem fim à vista, os cada vez mais refugiados de fomes e conflitos ou a eleição de Trump serão os sintomas mais recentes -, não estará, também, ele em acelerada decomposição, embora não saibamos, exatamente, que novo sistema virá a sobrepor-se-lhe, se é que, entretanto, uma potencial guerra nuclear ou as acentuadas alterações climáticas darão, ainda, alguma oportunidade a que tal aconteça.
Por exemplo, com a queda do «Muro de Berlim», novos mundos, esses sim, «cantariam» sob a égide do capitalismo sem fronteiras. Bom, mas quantos «muros da vergonha» nasceram depois desse, de que Trump se propõe construir mais um? Por sua vez, para combater a «crise», apela-se, não ao desenvolvimento económico e a outros padrões de bem-estar, mas ao crescimento e ao investimento-produção – consumismo, porque, no fundo, sem tal, o sistema vigente esvai-se, por fazer parte do seu «ADN». Só que num planeta Terra cada vez mais exaurido e onde a população mundial terá, nos últimos cem anos, quadruplicado, continuando a aumentar, aonde se irão buscar as matérias-primas necessárias a esse consumismo crescente? A Marte? Hum…
Em suma: e se em vez de questionarmos Trump, questionássemos o sistema que o gerou?
Nota: Eduardo Paz Ferreira esteve em Faro enquanto conferencista sob o tema do seu último livro, «Por uma sociedade decente», dando uma aula repleta de vida e humanismo. Todavia, quantas pessoas assistiram à sua conferência? Pouco mais de uma dúzia e imprensa, se bem observamos, nem vê-la. Em contrapartida, logo no dia a seguir, com diretos sucessivos dos mais diversos órgãos de comunicação social, famílias inteiras encheram o Estádio Algarve para admirarem e sonharem com «craques» que, numa só hora, são capazes de ganhar aquilo que muitos não ganharão durante um ano inteiro de árduo trabalho! Bem, talvez nos digam que as pessoas do árduo trabalho precisem de se «distrair».