De um dia para o outro, a rotina de uma família algarvia, igual a tantas outras, muda de forma radical, quando a pandemia lhe entra pela porta. Vanessa Santos, de Portimão, mãe de uma jovem, aluna da professora infetada com a COVID-19, conta, na primeira pessoa, o pesadelo que tem vivido com a filha.
A notícia foi alarmante, mas ainda assim, nada fazia prever a cambalhota que a vida de Vanessa Santos viria a dar. Tudo começou no final de fevereiro, quando «soube que a filha da professora de Geografia da minha filha, docente na Escola Professor José Buísel, tinha dado entrada no Hospital de Portimão, por suspeita de ser portadora do novo Coronavírus. Tinha sido encaminhada para o Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, para fazer testes», recorda Vanessa Santos. Na manhã de segunda-feira, dia 9 de março, no entanto, saiu a confirmação de que a professora tinha sido testada positiva.
«Admito que na altura não estava assim muito preocupada, mas assim que soube que a minha filha tinha estado em contacto com a professora, o meu coração disparou e entrei em modo de alerta».
Aconselhada pelos colegas de trabalho e até pela entidade patronal, por precaução, decidiu ir ao hospital, até porque, coincidência ou não, estava com alguns sintomas e não se sentia bem.

Pânico e espera
«Durante toda a manhã liguei para a linha SNS24 e ninguém atendia». Com os cuidados possíveis na altura, decidiu levar a jovem à unidade de Portimão do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA).
Eram 12h15. «Assim que cheguei à receção pedi uma máscara e expliquei porque motivo estava ali. A pessoa entrou em pânico. Parecia que estava a ver um bicho e atirou as máscaras para cima do balcão. Penso que naquela altura, já deveria ter sido dada formação de como lidar com estes casos, para garantir que as pessoas, portadoras ou não do Coronavírus, são tratadas como seres humanos. A minha filha já não é um bebé, mas ficou assustada. Entretanto, facultei os dados e saí. Pensei que se estivéssemos infetadas, não íamos querer passar isto aos outros», recorda.
«Fomos à triagem e a enfermeira estava devidamente equipada. Mediu a febre à minha filha, perguntou os sintomas. Ela não tinha, mas eu sim. Nisto, pediu-me para aguardar que alguém viria falar comigo», lembra.
Uma enfermeira informou-a que a Proteção Civil estava a contactar todos os pais dos alunos da dita professora, que tinha quatro ou cinco turmas, e sugeriu-lhe que fosse para casa, até se perceber qual o procedimento. «Vá para casa porque não está aqui a fazer nada. Se estiver infetada, já pensou quantos está aqui a infetar?», terá perguntado.
Vanessa Santos recusou a sugestão e exigiu uma consulta médica para a adolescente. «Depois, como se apercebeu que eu estava com tosse, sugeriu que fosse à urgência». A jovem ficou então sozinha numa sala isolada à espera da médica.
Na urgência, repetiu-se a história. «Entraram todos em pânico. Ao fim de 15 minutos, enfiaram-me dentro de um gabinete médico com uma mesa e uma cadeira. Pelo facto de estarem a enfrentar uma situação nova, estavam ansiosos. A enfermeira estava a tremer e pediu-me desculpa». Eram 13h35.
«Veio o médico da infectologia». Pediu-lhe para se manter calma e esperar. Eram 18h30, não havia ninguém.
«A sala tinha um telefone e disseram-me que se tocasse, poderia atender e facultaram o número da enfermaria. Liguei para saber da minha filha, pois tudo o que sabia dela era através do telemóvel», enquanto a bateria durou.
A espera demorou 12 horas e meia. Para ambas. Nenhuma sabia o que ia acontecer. Comida? «Até às 19h30 não me deram nada. Isolaram uma casa de banho que poderia usar. Mas valeu-lhe um enfermeiro conhecido, que perguntou se tinha fome. «Uma auxiliar veio trazer-me dois pacotes de bolachas. Aqui fiquei chocada. Ela abriu a porta, atirou-as lá para dentro e fechou-a de imediato. Como se fosse alimentar um bicho, uma fera. Como quem diz: olhe, está aí isso, coma! Foi desumano».

Mais tarde, com tanto protocolo a ser alterado, o médico foi-se embora às 20h00. «Acordou comigo que me diria alguma coisa até às 20h30. Nunca mais o vi. Passaram-me para outra médica, Dr.ª Dília, que foi incansável. Informou que iríamos eu, o meu companheiro (Rogério) e a Érica (nome fictício) para Lisboa» fazer os testes à COVID-19.
Pelas 22h30, «a médica disse-me que iríamos sair de Portimão, caso tudo corresse como era esperado, à 1 hora» da madrugada. Entretanto, Vanessa foi informada, via telemóvel, que a Direção-Geral de Saúde (DGS) comunicara que o Hospital de Faro já estaria a fazer testes. Então, qual o motivo da ida para Lisboa?
«O comunicado saiu, mas as ordens não», foi a resposta. Mais espera. Às 23h30, veio a confirmação. O destino seria mesmo Faro. «À última da hora, tive de reagendar toda a minha vida».
Apenas um dado insólito: «o meu marido também estava sinalizado como potencial suspeito e, como tal, teria de nos acompanhar a Lisboa para fazer os testes, visto que também teve contacto direto com a enteada. Mas como os protocolos estavam sempre a ser alterados, quando tomaram a decisão de irmos para Faro, acabou por ser excluído, deixando assim de poder fazer o teste para perceber se era portador do Coronavírus».
Chegada a Faro
«Chegámos a Faro às 0h25. Tivemos que esperar na ambulância cerca de 40 minutos, pois ainda não estavam prontos para nos receberem». Primeiro saiu a filha. A jovem Érica foi para a ala Pediátrica. Um pouco mais tarde Vanessa Santos foi levada para o edifício do heliporto/ consultas externas.
«Naquele instante, percebi que estava com auxiliares de saúde que não sabiam o que fazer. Não sabiam se tiravam as luvas dentro ou fora do quarto. Ou seja, o processo de higienização, não sabiam», recorda.
Entretanto, «ninguém me dizia nada sobre como estava a minha filha. Tive o acompanhamento da enfermeira Marlene Silvestre, que foi incansável, o ser mais humano que tive oportunidade de lidar durante todo este processo. Graças a ela consegui ter informações. Numa hora dei 10 mil passos dentro do quarto. Esta enfermeira acompanhou tudo e conseguiu saber o resultado do meu teste às 22h30» de dia 10 de março.
«Era negativo. Mas o da minha filha, não me disse, apesar de ter sido feito ao mesmo tempo e de ter ido para o mesmo laboratório. Uma hora mais tarde, a médica que estava de serviço, disse-me que a Érica era positiva» para a doença COVID-19.

Desespero
A palavra «desespero» não chega para o que Vanessa Santos sentiu naquele momento. «Foi a primeira vez na minha vida que senti que o meu mundo estava a acabar. Foi uma dor no peito tão grande, tão grande. Estava dentro de quatro paredes e nada podia fazer. Como é que pelo telefone alguém consegue dar essa informação a um filho? Eu já estava a viver este pesadelo desde o dia anterior, já estava em desespero desde o dia 9 e quando soube que a minha filha era positiva, o meu mundo desabou. Caiu ali», descreve.
«Não tinha ninguém para abraçar, para me explicar o que poderia acontecer. Foi assim: ela é positiva e agora tens de esperar. Foi a pior sensação de toda a minha vida».
«Eu não consegui dizer à Érica, porque estava desfeita. Se fosse eu a dizer-lhe, iria pô-la em pânico. Não era essa a minha intenção. Não conseguia parar de chorar. Pedi ao Rogério (padrasto) para lhe ligar, e com a maior das calmas, falou com ela. Obviamente, ela teve um pico de raiva e frustração. Porquê eu? Ele conseguiu acalmá-la e explicar que vamos ficar todos bem».
De novo, valeu uma enfermeira, mais uma vez, que foi a única que conseguiu manter-se mais tempo dentro do quarto. «Estamos a falar de uma jovem, que de repente ficou em estado de pânico, sozinha dentro de um quarto de hospital. Não há acompanhamento psicológico, não há nada. Nada».
Estamos a falar de uma adolescente que de repente leva um choque, que tem de ficar 14 dias em isolamento, sem ninguém que se sente ao lado para ter um diálogo. É muito complicado».
Abandono e frustração
O teste da Érica deu positivo e foi enviado a outro laboratório para fazer o contra-teste. Na manhã de dia 11 de março, Vanessa teve alta. Perguntou pela situação da filha, porque uma menor não pode ficar sozinha no hospital. «Então e a minha filha, vai ficar aqui com quem?». Ninguém soube responder.
«A única indicação foi que eu teria de fazer o isolamento profilático em casa» em Portimão, deixando a filha no Hospital de Faro.
«Onde diz na lei que se pode deixar um menor à sua sorte, num hospital? A menos que tenha de ficar internado e os pais tenham que pernoitar fora. Mas eu, não podia ficar, nem fora, nem dentro».
Entretanto, «consegui espreitar por uma porta de vidro, porque uma enfermeira viu a minha agonia e o meu desespero e deixou-me ir vê-la. Ela estava bem. Tinha passado bem as duas noites anteriores, sem febre. Depois, tive oportunidade de falar com o médico e perguntei como seria o processo da Érica. Quantos dias no hospital? Que medicação? Que procedimento? Visitas? Resposta: «eu não sei, eu não sei, eu não sei».
Vanessa acabou por regressar a Portimão. «Tive de esperar duas horas e meia por uma ambulância».
No dia 12 de março, ao final da tarde, «ligam-me do hospital de Faro a informar que a Érica tinha alta», apesar de ser positiva. Uma médica confirmou e disse que «não tinham espaço» para manter a jovem internada, até porque estava assintomática.
«Tem de ficar fechada no quarto dela. A mãe vai ter que agilizar as coisas», disseram-lhe.
Nisto, Vanessa Santos liga à delegada de Saúde Marta Lemos «em pânico» que aconselhou-a a ter calma até perceber o que fazer.
«Ou seja, houve falta de comunicação. A médica (Filipa Dias) disse-me que tinha sido acordado que os assintomáticos iriam ter alta e que a decisão seria comunicada à imprensa no dia seguinte», neste caso, dia 13 de março.
«Não saiu nada». Vanessa informou que iria buscar a filha no dia 13, já depois de o comunicado sair, e de a medida entrar em vigor. Em resposta recebeu uma ameaça: «se você não vem buscar a sua filha hoje, vou dá-la como menor abandonada, porque informei a mãe e a mãe não quis vir buscá-la. É o que vou escrever no relatório».
Coronavírus em casa
Estupefacta, Vanessa questionou o que deveria fazer em casa, em termos de higiene. Foi-lhe dito para ir ler as páginas do sítio da DGS.
«Eu não faço ideia do que é ter uma pessoa infetada em casa e vocês pura e simplesmente estão a dar alta à minha filha e está tudo bem», retorquiu. «Palhaçada!», considera. Só quando a delegada de Saúde de Portimão confirmou a veracidade da medida é que Vanessa rumou à capital algarvia. Foi também esta responsável (a única) que se preocupou em dar-lhe uma formação adequada, no Centro de Saúde de Portimão, para lidar com a situação.
«Como é óbvio, eu não tinha quaisquer condições. Não tinha um plástico, uma bata, nada. Por esta altura já não havia máscaras à venda, portanto, eu não tinha onde comprar. Disseram-me apenas que tinha de desinfetar os espaços com água e lixívia. E até sempre».
Na família, «mudou a alegria de uma casa. A rotina foi toda alterada». Um lugar vazio à mesa, apesar da pessoa estar dentro de casa. Vanessa tem problemas cardíacos e anemia, e por isso é considerada de risco.

«Isto nunca teria acontecido», diz. Valeu o companheiro que tratou de tudo. O vírus permanece vivo durante 48 horas, tem de haver um saco à parte para roupa suja, um sítio para separar o lixo e as refeições eram servidas em pratos de plástico descartável.
«Como não tinha tosse, consegui ter a Érica de porta aberta. No início, aceitou bem, mas ao terceiro dia em casa, começou a cair-lhe a ficha. Acordava a chorar porque estava farta de estar fechada».
Afligia-a o porquê de ser a única na turma com este drama. «Eu pedi ajuda para ver se havia algum apoio psicológico que pudessem dar. Não tinham nada», em meados de março.
Em termos físicos, calhou ter no quarto uma passadeira de exercício e, pouco a pouco, entrou na rotina dos estudos. «Nem a escola sabe lidar com isto. Não há aulas online. Da escola, apenas a diretora de turma e o professor de matemática que ligavam todos os dias, preocupados. Foram os únicos que mantiveram o contacto», diz.
Esperança
Na terça-feira, dia 24 de março, Érica fez novo teste e deu negativo. A 8 de abril terá que repetir, de novo, o teste, tal como a mãe. «Só assim vamos perceber». «A Érica teve em contacto com a professora e sempre esteve assintomática. Eu tinha sintomas e o teste sempre deu negativo. O Rogério, não faço a mínima ideia», porque até hoje não foi testado. Vanessa está com medo. «Sinto que o meu pesadelo ainda não acabou».
Durante todo este tempo tem-se mantido ativa em teletrabalho, «foi a forma que arranjei de me afastar da minha realidade». Nos primeiros dias «eu não comia. Só bebia água e café. Estava a viver isto intensamente. Chorava de manhã à noite. A minha vida estava a entrar num precipício. A minha filha tem o vírus e agora? Tudo o que lemos, já há casos que dão negativo e à terceira ou quarta vez dão positivo. O que eu sinto é que isto não vai ficar por aqui. E Portugal não está preparado. Não está», considera.
«Quando comecei este filme de terror, acreditei que o nosso Sistema Nacional de Saúde já estava pronto. Pensei que já estávamos prontos para o que vinha aí. Depois, vi que não».
Agora, a filha está tranquila. «Diz que tem medo de voltar a ser positiva. Que não quer ir para o hospital, porque não consegue falar com ninguém, que era muito triste. Agora, dentro do normal possível dela, está bem. Sinto que isto afetou-a. Amadureceu um pouco», diz.
Érica fez 15 anos no dia 20 de fevereiro. «Viver com isto todos os dias não é fácil».
Epílogo
Érica é aluna numa turma normal de 19 jovens. Que Vanessa Santos saiba, apenas a filha foi infetada pela professora de Geografia. Pelo que diz ao barlavento, «os outros pais foram contactados pela delegada de saúde, Marta Lemos, que apenas aconselhou que fizessem o período de isolamento de 14 dias. Mas como é que em 19 estudantes, apenas há uma aluna infetada e assintomática?», questiona.
«Podem ser todos assintomáticos como a Érica e neste momento já saíram da quarentena. Espero bem que permaneçam em casa», até porque pelo que sabe, nenhum terá feito o teste à COVID-19.
Apesar de não ter prova clínica, Vanessa Santos acredita que «durante todo este tempo em que a minha filha esteve assintomática, foi o seu próprio sistema imunitário, sem o auxílio de quaisquer fármacos, que combateu sozinho, o Coronavírus».
Cronologia COVID-19
9 de março | 12h15 – Entrada no Hospital de Portimão/ Triagem na Pediatria de Érica (filha)
9 de março | 12h50 – Hospital de Portimão. Triagem na Urgência de Vanessa Santos (mãe)
9 de março | 13h35 – Hospital de Portimão. Vanessa é vista por um médico
9 de março | 18h30 – Hospital de Portimão. Vanessa tenta contacto com o médico e obter respostas
9 de março | 20h30 – Hospital de Portimão. Vanessa tenta contacto com o médico. O mesmo terá terminado o turno às 20h00, sem dizer nada
9 de março | 22h30 – Hospital de Portimão. Médica informa transferência da família (Vanessa, Érica e Rogério) para Lisboa, onde seriam testados à COVID-19
9 de março | 23h30 – Transferência de Vanessa e Érica para o Hospital de Faro
10 de março | 0h25
Chegada ao Hospital de Faro. Ambas aguardam 40 minutos na ambulância. Érica é internada na Pediatria pouco depois
10 de março | 1h50
Hospital de Faro. Vanessa é internada no edifício da consulta externa/ heliporto
10 de março | 22h30
Vanessa é informada que o seu teste deu negativo
10 de março | 23h30
Vanessa é informada que a filha Érica é positiva ao Coronavírus/ COVID-19
11 de março | 11h30
Vanessa tem alta e regressa a Portimão de ambulância às 14h40
12 de março | 17h10
Érica, apesar de positiva ao COVID-19, teve alta e é enviada para casa. Vanessa sai de Portimão para ir buscar a filha a Faro
15 de março | 20h00
Vanessa é contactada para no dia seguinte se dirigir à urgência pediátrica no Hospital de Portimão para ambas repetir o teste para ambas
16 de março | 7h30
Hospital de Portimão. Depois de uma hora de espera o teste é cancelado
18 de março | 23h30
Vanessa é contactada por uma equipa médica que iria fazer novo teste em casa apenas para si (mãe)
19 de março | 00h30
Vanessa faz o teste em casa. Érica não. A hora tardia é justificada pelo excesso de trabalho da equipa clínica
23 de março | 22h15
Hospital de Portimão liga para Vanessa a marca nova análise a Érica
24 de março | 7h30
Hospital de Portimão. Érica faz novo teste
25 de março | 20h45
Hospital de Portimão informa que Érica tem resultado negativo
26 de março | 8h45
Hospital de Portimão. Érica repete o teste
27 de março
10h00 – Hospital de Faro informa que o teste de Érica deu negativo
27 de março | 20h00
Médica Maria Pereira do Hospital de Portimão confirma teste negativo de Érica à COVID-19
8 de abril
Estão marcados novos testes para mãe e filha