Na poeira dos escombros, no meio da destruição, o ar é seco e duro. Respiramos mal, mas respiramos mais um dia em que não morremos ou ficamos feridos. Não resta casa para habitar, mas a casa somos nós.
- Faixa de Gaza
Abandona a tua terra – ordena o senhor todo poderoso.
Mas como se essa é a terra dos meus antepassados e acredito num Deus mais poderoso do que a humana ameaça. Na poeira dos escombros, no meio da destruição, o ar é seco e duro. Respiramos mal, mas respiramos mais um dia em que não morremos ou ficamos feridos. Não resta casa para habitar, mas a casa somos nós, a comunidade. O povo palestiniano.
Foi breve a alegria do cessar-fogo. As nuvens de fumo das explosões sobem em espiral, cor de ferrugem, cinza e negro. O sol estranhamente encoberto perde fulgor. O céu escurece sobre as nossas cabeças até ao mar. Somos lambidos por um vento de fogo, quente e irrespirável. Sobrevoam-nos aviões e mísseis, mães e filhos uivando aflição.
Mas Deus é grande e na terra mártir havemos de renascer. De teimosamente regressar ao lugar a que pertencemos.
- A estreita faixa da cultura
Entre a alta e a baixa cultura. A alta cultura pergunta sempre por si própria quando fala aos outros. É educada, estende a mão e cumprimenta. Mas apenas está interessada em anunciar o que vai fazer: a exposição seguinte, a apresentação da revista, o livro a sair, a próxima peça. Vê no outro o interesse que se segue, a influência, o poder estar presente.
Torna-se engraçada de observar, mas pouca piada tem. Leva-se demasiado a sério. Vive frenética e chega a ser esquizofrénica na ânsia de se publicitar. Sobejamente vaidosa fala muito de si. Reconheça-se a criatividade e a inteligência, mas também a insuficiência. Do funcionamento em circuito fechado, não alargado. A sobrevivência institucionalizada e pouco esforçada.
- Enfaixado no tempo
Enfaixado no tempo, Felizberto Nefasto sentia-se medianamente útil em casa e no emprego. Reformado dos outros continuava a sentir um prazer jovem na vida. Longe estava de imaginar que súbitas alterações atmosféricas viessem interferir na sua rotina diária. O céu escureceu e a chuva inesperada e soprada por um vento forte começou a cair. As primeiras gotas no rosto abriram a boca a um íntimo sorriso, frescos beijos em catadupa caídos do céu. Desde sempre, a chuva despertava nele um sentimento poético.
Absurdos passos no encalço de imagens. Fugaz tempo mordido no vento.
Paulo Penisga | Professor