«É inquestionável que vivemos hoje tempos particularmente difíceis para as mulheres portuguesas. Tempos de acentuação das desigualdades, das injustiças sociais e um aumento galopante da pobreza. Tempos de retrocesso social. As mulheres perdem direitos e qualidade de vida. A sua participação em diversos domínios está cada vez mais distante da igualdade a que têm direito», lamenta Sandra Benfica, coordenadora do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), presente no Algarve desde 1974.
Apesar de todas as mudanças sociais que aconteceram desde o nascimento deste movimento, em 1968, hoje continua a ser urgente intervir no «espaço de opressão» que é a esfera privada de muitas portuguesas. Os casos de violência doméstica têm vindo a aumentar, bem como o número de vítimas mortais no feminino. Um fenómeno «intrinsecamente ligado à condição da mulher na sua globalidade como ser social e o político».
«Devido à grave crise e aos seus efeitos nefastos e desagregadores, é cada vez mais complicado criar um ambiente dinâmico, mobilizador e reivindicativo das mulheres. As consequências agravam-se com os retrocessos no plano económico, social e político», denuncia Benfica.
Em 2015 é visível «a perda da independência económica fundamental para a sua emancipação. Levadas a desinteressar-se da política, muitas mulheres perdem a alavanca fundamental para a alteração de vida que aspiram. Com sérias dificuldades no emprego e na vida, vão reduzindo a sua participação social e política», lamenta.
Na região há dois núcleos, em Faro e Lagos. Ao longo de todo o ano, o MDM organiza exposições, palestras e debates em conjunto com juntas de freguesia, sindicatos, escolas e outras ações de cariz social. No entanto, a celebração do dia da mulher a 8 de março, no Teatro das Figura, em Faro, é sem dúvida «a maior iniciativa do movimento em Portugal», explica Sandra Benfica. A saúde é outra das apostas. Recentemente, lançaram um comunicado que contesta o encerramento de serviços de obstetrícia no Algarve e a falta de ginecologistas no hospital de Portimão.
A ação do MDM baseia-se «na experiência de organizações de mulheres progressistas, democratas, antifascistas, revolucionárias».
Assume-se como uma «rede de solidariedade com as mulheres que sofrem em Portugal e no mundo» que aspira «a justiça social, livre de maus-tratos, humilhações e violências».
Relativamente à atualidade politica conturbada que o país vive, Sandra Benfica deixa um recado. «Depois de tanta luta travada, de tanto caminho andado, não esperem que as mulheres do nosso país permitam que nos façam andar para trás» e garante que a luta pela condição feminina é para continuar.
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Projeto Romper Silêncios
Uma das iniciativas com maior visibilidade do MDM é o «Projeto Romper Silêncios». Aborda a questão do tráfico de mulheres. «Este é ainda um fenómeno oculto na nossa sociedade, que se alimenta do silêncio e da mais profunda clandestinidade. Continua a ser necessário desconstruir estereótipos associados à natureza do crime e às suas vítimas». Este projeto foi «uma pedrada no charco» ao denunciar «um terrível fenómeno que afeta mulheres e meninas vítimas de um hediondo negócio que vive da sua exploração sexual em redes de prostituição».
Durante 27 meses foi criada uma rede de parcerias com o propósito de desenvolver um conjunto de ações de sensibilização, informação e prevenção.
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Próximas iniciativas
No próximo dia 25 de novembro, o MDM está mobilizado para a celebração do Dia Internacional pela Erradicação da Violência contra as Mulheres – com ações de norte a sul do país. A dia 12 de dezembro realizar-se-á o segundo Congresso Maria Lamas, em Almada. Relativamente a um futuro próximo, Sandra Benfica evidencia ainda o empenho «em garantir que no início da nova legislatura seja reposta a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez» em discussão já no dia 19 de novembro.