O Algarve é uma região de contrastes. É um destino de excelência, mas enfrenta uma realidade de saúde cada vez mais frágil.
Acolhe milhões de visitantes, mas tem dificuldade em responder às necessidades de quem cá vive todo o ano. Conta com profissionais dedicados, mas continua preso a um sistema que os mantém sob pressão permanente.
Os resultados do último Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS) confirmam o que muitos já conhecem pela experiência quotidiana: o modelo de saúde no Algarve não está apenas cansado. Está desajustado da realidade atual.
Durante demasiado tempo, a saúde foi tratada como um conjunto de departamentos isolados: o hospital de um lado, o centro de saúde de outro, o apoio social à margem, as autarquias noutro plano. A doença não funciona assim, e a vida das pessoas muito menos. O RADIS mostra que esta fragmentação tem custos elevados: atrasos no diagnóstico, duplicação de esforços, desperdício de recursos e, acima de tudo, sofrimento evitável.
No Algarve, envelhece-se depressa e, muitas vezes, sem rede. Uma parte significativa da população vive com várias doenças crónicas, que exigem acompanhamento contínuo, proximidade e equipas multidisciplinares. Em vez disso, muitas pessoas perdem-se numa teia de filas de espera, encaminhamentos fora de tempo e respostas que chegam tarde. O hospital mantém-se como centro de gravidade do sistema, mas já não consegue responder a tudo, nem deve. A visão hospitalocêntrica está esgotada.
Os dados do RADIS são claros. O Algarve precisa de uma integração real de cuidados, não apenas no discurso, mas na prática. Isso implica quebrar muros institucionais e criar pontes entre saúde, ação social, autarquias, farmácias, Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e comunidade. Implica reconhecer que o médico de família não pode ser o único ponto de entrada, que a saúde pública tem de recuperar protagonismo, que o apoio domiciliário deve ser reforçado e que a reabilitação não pode ser um privilégio dependente do código postal.
O sistema atual não está preparado para lidar com a complexidade da vida real. Uma pessoa com doença crónica, a viver sozinha num concelho do interior, pode esperar meses por uma consulta de especialidade, enfrentar dificuldades de transporte e regressar a casa sem acompanhamento continuado.
O RADIS identifica estes ciclos de vulnerabilidade que se perpetuam por falta de coordenação. Essa descoordenação tem custos elevados, em vidas, em sofrimento e em recursos.
Transformar o sistema exige uma mudança de lógica: sair do modelo da doença e entrar no modelo do cuidado. Cuidar é acompanhar antes da crise, chegar cedo, prevenir, orientar, estar próximo. E cuidar não é apenas responsabilidade dos profissionais de saúde. É uma tarefa coletiva. O Algarve tem condições para ser pioneiro nesta mudança, pela sua escala, identidade territorial, autarquias ativas e uma rede social e comunitária significativa.
O RADIS sublinha também o impacto das desigualdades territoriais. Enquanto no litoral se concentram serviços e profissionais, no interior cresce a sensação de abandono. Não se trata apenas de um problema logístico, mas de uma questão de justiça social. A saúde não pode depender do concelho onde se vive.
A resposta não passa apenas por abrir mais extensões de saúde. Exige equipas móveis, soluções de telemedicina robustas, redes comunitárias de apoio e uma articulação estreita entre a Unidade Local de Saúde do Algarve, os serviços de saúde privados e sociais e os municípios do interior algarvio.
Outra conclusão relevante do RADIS é a necessidade de reabilitação contínua. Em doenças crónicas e neurodegenerativas, como a esclerose múltipla, a reabilitação é tão essencial quanto a medicação. No Algarve, porém, muitas pessoas esperam meses, por vezes anos, para iniciar fisioterapia, terapia ocupacional ou acompanhamento psicológico. Durante esse período, perdem autonomia, qualidade de vida e oportunidades de recuperação. O custo humano e económico destas falhas é elevado.
Transformar o SNS no Algarve exige coragem política e capacidade de inovação. Passa por criar modelos-piloto regionais de integração de cuidados, financiar serviços com base em resultados e não apenas em volume, reforçar a saúde pública, aproximar os cuidados das pessoas e envolver a comunidade na construção das soluções. A saúde do futuro será comunitária ou não será sustentável.
O RADIS lembra uma verdade simples: o sistema atual é demasiado complexo para funcionar bem e demasiado lento para responder às necessidades reais. O Algarve precisa de um SNS que pense menos em estruturas e mais em vidas, menos em procedimentos e mais em resultados, menos em doença e mais em cuidado.
A questão já não é se é preciso mudar, mas quando. A resposta é clara: agora. Nenhuma política de saúde transforma um território sem a força da comunidade, e nenhuma comunidade prospera sem um sistema de saúde que cuide verdadeiramente das pessoas.
O RADIS traçou o retrato e deixou o aviso. Cabe agora ao Algarve transformar esse aviso em compromisso e esse compromisso em mudança concreta. A nossa saúde não pode esperar mais.
Alexandre Guedes da Silva | Voluntário e presidente da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM)