O litoral algarvio tem sido palco de um fenómeno que preocupa cientistas, autarcas, pescadores e empresários turísticos: a invasão da macroalga Rugulopteryx okamurae, uma espécie exótica oriunda do Pacífico.
À primeira vista, este manto castanho que cobre as rochas e se acumula nas praias parece um símbolo do desequilíbrio ambiental que as alterações climáticas e a globalização acelerada têm alimentado. No entanto, com uma abordagem enraizada nos valores da Democracia Cristã, que une responsabilidade ambiental, solidariedade comunitária e valorização da dignidade humana, podemos e devemos transformar esta crise numa oportunidade.
O problema: uma ameaça silenciosa mas profunda
A expansão desta alga tem sido descrita como «explosiva». Desde a sua chegada ao Estreito de Gibraltar em 2015, a Rugulopteryx okamurae percorreu rapidamente o Atlântico oriental, instalando-se em zonas-chave do Algarve como Lagos e, mais recentemente, estendendo-se até à costa de Cascais.
A sua presença afeta negativamente a biodiversidade costeira, os ecossistemas marinhos, a pesca artesanal e a imagem de excelência balnear do nosso turismo. Além disso, os custos operacionais para remover milhares de toneladas de biomassa têm recaído, muitas vezes, sobre os orçamentos limitados dos municípios. Mas o Algarve não pode ser apenas vítima. Deve ser protagonista da solução.
É aqui que os valores democrata-cristãos oferecem uma bússola moral e política: a alga invasora é, sim, um desafio ambiental. Mas é também um apelo à inovação solidária, ao reforço da subsidiariedade local e à coesão territorial. Trata-se de assumir que os recursos naturais – mesmo os problemáticos – podem ser integrados numa lógica de bem comum, desde que geridos com sabedoria, justiça e visão de futuro.
Estratégia nacional, impulso regional
A recente aprovação da Estratégia Nacional para a Gestão da Macroalga Invasora é um passo na direção certa. Com base numa governação colaborativa, a estratégia aposta na valorização da biomassa da alga, em vez do mero combate passivo. O Algarve, enquanto zona-piloto, pode liderar essa transição, alicerçando-se nas suas infraestruturas costeiras, centros de investigação como a Universidade do Algarve, e na criatividade das suas comunidades.
De resíduo a recurso: as soluções estão à vista
A conversão da biomassa em produtos úteis é uma realidade científica e técnica já testada. Destacam-se quatro caminhos de valorização com impacto direto no tecido económico regional:
Produção de bioenergia e fertilizantes através da digestão anaeróbia da alga misturada com outros resíduos orgânicos. Esta solução permitiria às autarquias reduzirem a fatura energética, reforçando a autonomia local com energia limpa;
Compostagem inteligente com recurso a espécies adequadas– um processo que transforma a alga em fertilizante orgânico e, simultaneamente, gera proteína para rações animais. Isto cria emprego verde e economia circular com forte potencial de replicação pelas autarquias;
Bioplásticos e biomateriais: a presença de alginatos na alga permite produzir embalagens biodegradáveis. Uma fileira de produtos «made in Algarve» pode nascer, com selo ecológico, agregando valor à imagem da região como destino sustentável;
Cosméticos e nutracêuticos: compostos bioativos da alga demonstram efeitos anti-inflamatórios e antidiabéticos. Aqui reside uma oportunidade para atrair investimento em biotecnologia marinha, com aplicações na saúde, estética e bem-estar.
Oportunidade para os pequenos, não apenas para os grandes
Um princípio essencial da Democracia Cristã é o da subsidiariedade: as respostas devem nascer a partir do nível mais próximo da realidade. Nesse sentido, é crucial garantir que cooperativas de pescadores, associações de moradores e pequenas empresas agrícolas tenham acesso a apoios específicos – desde microcrédito até subvenções públicas – para participarem ativamente na recolha, transformação e comercialização da alga.
Mais do que criar um novo «cluster verde» entregue apenas a grandes grupos empresariais, trata-se de democratizar a economia azul e fazer da biomassa invasora um bem comunitário, que gera rendimento digno para quem mais sente o impacto da sua presença.
Educar, capacitar, incluir
Esta transformação requer também uma mudança cultural. O envolvimento das escolas, das paróquias, das IPSS e das associações juvenis é essencial. Campanhas de sensibilização ambiental nas praias, ações de formação técnica para pescadores e técnicos municipais, ou dias comunitários de limpeza e compostagem educativa podem ser catalisadores de mudança. Como afirmou o Papa Francisco na Laudato Si’, «não haverá uma nova relação com a natureza sem um novo ser humano».
Liderança local com visão nacional
As Câmaras Municipais do Algarve, em articulação com a AMAL e os grupos de trabalho regionais previstos na Estratégia, devem liderar com ambição. É o momento de planear unidades intermunicipais de compostagem ou biorrefinarias-piloto, aproveitando estruturas já existentes (como salinas desativadas ou antigos armazéns desativados), em parceria com universidades e investidores privados. O Estado central, por sua vez, deve cumprir o seu papel, financiando, regulando e desburocratizando o caminho para que estas iniciativas prosperem.
De drama ecológico e económico a fator de identidade regional
No Algarve antigo, dizia-se que «quem planta tâmaras, não colhe tâmaras». Mas quem lança soluções enraizadas nos valores do bem comum, da solidariedade intergeracional e da ecologia integral, colhe futuro.
A alga Rugulopteryx okamurae não será erradicada da noite para o dia. Mas pode deixar de ser vista como um corpo estranho ameaçador e passar a ser encarada como um recurso a integrar, a transformar e a valorizar. Como ensinava Adriano Moreira, o verdadeiro desenvolvimento é aquele que «melhora as condições do homem sem destruir o seu meio». Esta é a hora de o Algarve mostrar ao país como isso se faz.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio e democrata cristão