Interrogo-me e fico desatinado com este nível de paranoia coletiva que num ápice provoca esta correria aos supermercados. Como se o mundo estivesse prestes a colapsar.
Olhão. Segunda, 28/04/2025
Até por volta da hora do almoço o dia decorria normal, quando uma estranha agitação tomou conta das pessoas.
No Ria, o centro comercial do centro da cidade de Olhão, ao querer levantar dinheiro, o Multibanco ligado e aparentemente funcional, não dava para fazer nada. Mas também não sinalizava o motivo.
Foi quando uma mulher, saída da máquina ao lado, me falou do que estava a acontecer, da falta de eletricidade em todo o lado.
– Em Olhão?… – Em todo o Portugal, Espanha e Marrocos… que era muito estranho o que estava a acontecer.
Concordei, ainda sem estar inteirado da situação. É estranho… e Marrocos porquê… ligações a Espanha…
As lojas escurecidas, sem luz, algumas já barradas à entrada. O KFC a funcionar aglomerava muita gente, a esmagadora maioria estudantes.
Alguns mais comunicativos e informados já rejubilavam, alegres, com a possibilidade das 72 horas sem aulas.
Havia quem falasse em kits de sobrevivência, que era preciso estar prevenido, e quem dissesse que era coisa dos russos.
Acabei por também comer por ali. Um hambúrguer com um pedaço de frango frito à escala da agitação juvenil que me rodeava.
Já sem aulas à tarde, aproveito para fazer umas compras no supermercado. Andava tranquilamente, a escolher umas bananas, quando me apercebo de um inusitado movimento à minha volta para aquela hora do dia.
Quando me dirijo às caixas para pagar, as filas ocupavam os corredores entre prateleiras em todo o seu comprimento.
Que é isto?!… pensei – está tudo louco. Recuei e desisti. Tendo voltado a depositar as compras, meia dúzia de coisas, nas bancas.
Já na rua, uma família, um jovem casal e os filhos empurravam um bem fornecido carrinho de compras, onde pontificava uma volumosa embalagem de papel higiénico.
O que me trouxe à memória esse tempo remoto da COVID-19 e a inesquecível cena que então presenciei, igualmente num supermercado.
Quando uma mulher, vendo tanto açambarcamento de papel higiénico, comentou, alto e bom som:
– Má atão, ná me digam que o biche tamem dá caganeira!?…
Na voz do povo a verdade corre muitas vezes assim, alegre e escancarada.
Interrogo-me e fico desatinado com este nível de paranoia coletiva que num ápice provoca esta correria aos supermercados. Como se o mundo estivesse prestes a colapsar.
Pergunto-me sobre a nossa capacidade de resiliência?… Como seria numa situação real de risco extremo?… de guerra ou catástrofe natural?…
Ou será que no nosso apagado e vil ram-ram diário precisamos destes momentos de adrenalina, de aceleração compulsiva?…
Se já somos um povo dado a passear nos supermercados, então sob pressão há que acelerar!?…
Na manhã de hoje, já havia quem exaltado, se virasse a um segurança. E lembram-se de algumas tristes cenas de desacato, de multidão enlouquecida, quando o Grupo Jerónimo Martins, anos atrás, decidiu abrir o Pingo Doce com promoções no feriado do 1.º de Maio?…
Esfregam as mãos de contentamento as grandes cadeias de hipermercados, (os grandes beneficiados da baixa de IRC deste governo), que têm lucros fabulosos com a população aprisionada em hábitos de consumo descontrolados.
A guerra ainda não começou, pois não?…
Post Scriptum
Por volta das 21h. São Brás de Alportel. Regressa a luz elétrica. Lá se vai o ambiente romântico… há muito que não jantávamos à luz das velas. As minhas filhas insistem: Não se vê a comida!… Ainda resisto um bocado. Mas lá se vai a expectativa de uma noite diferente. Pouco depois ligo a televisão.


