Em Albufeira, a Coudelaria Mascarenhas Cardoso cria e treina cavalos Lusitanos para se tornarem campeões de dressage.
Poderosos, inteligentes e colaboradores, os Lusitanos são uma nobre raça portuguesa. Inicialmente criados para a guerra, para a tauromaquia e para a disciplina de equitação dressage, atualmente estes magníficos cavalos continuam a ser utilizados para as duas últimas, e garanhões como o Rubi AR – «o melhor Lusitano de dressage do mundo», que ganhou fama nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012 – provam, sem sombra de dúvida, que estes gigantes gentis foram concebidos para estas artes magistrais.
Em Albufeira, com incríveis vistas para o mar e para a serra, a Coudelaria Mascarenhas Cardoso cria e treina Lusitanos para competição há mais de 40 anos. Situada numa vasta propriedade de 50 hectares, adquirida pela família Mascarenhas Cardoso em 1905, esta coudelaria tradicional está agora nas mãos da quarta geração da família.
Um entusiasta da criação destes belos animais, José Mascarenhas Cardoso explica como a sua família começou a criar cavalos em Portalegre, no Alto Alentejo, onde o seu avô comprou terreno na década de 60.
«Ele tinha gado e cultivos e começou a criar cavalos por gosto; chegou a ter 60 éguas.» Foi aqui que José e o pai nasceram e cresceram até regressarem ao sul, em 1998, para se dedicarem à produção de alfarroba e figo e à criação de gado.
«Nessa altura, os vitelos ainda eram criados no Alentejo e trazidos de Portalegre de comboio para serem engordados e vendidos nos mercados locais», no Algarve, recorda José.
A produção de gado terminou nos anos 1980 e acabou por ser substituída por cavalos. Há dez anos, o jovem criador trouxe cinco cavalos de Portalegre, construiu um picadeiro e remodelou os estábulos para criar uma coudelaria rentável onde pudesse criar potros de qualidade e contratar cavaleiros qualificados para os treinar.
Tendo em conta que a maioria dos cavalos que competem a nível olímpico ou em competições mundiais têm entre 12 e 14 anos de idade e provavelmente começaram a ser montados por volta dos três anos, isto significa que são necessários cerca de 10 anos para treinar um cavalo de dressage para os níveis mais elevados.
Para treinar os seus cavalos, José contratou o jovem prodígio de dressage, João Pinto. Com apenas 22 anos, o jovem profissional nasceu no seio de uma família de cavaleiros olímpicos e tem formação em equitação de trabalho e dressage. Na coudelaria, treina quatro cavalos, incluindo o seu – Honório, um belo Lusitano branco que treina há dois anos – e dá aulas de dressage. Ao mesmo tempo que se concentra na sua carreira, competindo em campeonatos, está ansioso por atrair novos clientes e ensinar-lhes a incrível arte desta disciplina.
A coudelaria «aposta na qualidade e não na quantidade, criando três ou quatro potros por ano para o desporto». Para elevar continuamente a qualidade dos cavalos, José começou a testar éguas há dois anos «para ver quais davam o melhor produto».
Mas admite que este é um processo moroso. «Só ao fim de quatro anos é que vemos o resultado. O cavalo pode ser bonito, mas pode não ser bom quando montado, ou vice-versa».
Embora tenha nascido no meio, não gosta de competir. O que gosta mesmo é de «fazer criação, escolher o garanhão e as éguas e falar com os cavaleiros».
Isto porque, como José explica, o feedback destes é importante. «Posso apreciar a beleza exterior do cavalo, mas os cavaleiros são como os pilotos de rali, que dizem ao mecânico o que deve ser mudado. Aqui é a mesma coisa. O cavaleiro tem de me dizer se estes potros têm falta de força, por exemplo. Assim eu saberei que, para essas éguas, vou precisar de um garanhão que consiga transmitir a força ao potro de forma a corrigir esse aspeto.» Mas, na verdade, «a culpa é sempre das mães», diz em tom de brincadeira.
«Elas transmitem 65 por cento do código genético do cavalo. Podemos ter o melhor garanhão do mundo, mas se a égua não for boa, o potro não vai ser grande coisa».
Para garantir potros de qualidade, José compra o sémen de garanhões de topo e faz inseminações artificiais, «porque, a um certo nível, os donos dos garanhões não permitem a cobertura natural, há demasiados riscos. Pode haver infeções, e as éguas podem rejeitá-los e dar-lhes um coice, podendo até partir-lhes uma perna. E estes cavalos costumam valer muito dinheiro», explica.
Apontando para o cavalo cinzento que João está a montar no picadeiro, avalia «um cavalo destes vale cerca de 80 mil euros».
Treinar e cuidar de um cavalo destes representa para o responsável um investimento considerável. «Os cavalos são vistos pelo veterinário de dois em dois ou de três em três meses, são calçados todos os meses, vacinados, tomam suplementos. Além disso, temos os custos de participação em competições e muito mais».
A escola de dressage é um bónus, além da atividade principal da coudelaria e para os seus clientes, que podem aqui alojar confortavelmente os seus cavalos. O espaço dispõe de grandes estábulos num celeiro convertido, um picadeiro coberto, um grande picadeiro ao ar livre com uma vista fabulosa para a serra e um exercitador circular para os equinos.
Além de tudo isto, José planeia criar um outro picadeiro coberto para receber competições.
Aberto ao público, este Centro Equestre Federado disponibiliza aulas de dressage e está a estudar outras modalidades, como a hipoterapia, uma terapia que utiliza a marcha e o movimento natural do cavalo para proporcionar estímulos motores e sensoriais.
«Todas as segundas-feiras, terapeutas de uma clínica em Albufeira trazem crianças com dificuldades de aprendizagem, como défice de atenção, para terem aulas de equitação».
E, apesar de ser ideal para passeios, apenas os proprietários de cavalos ou cavaleiros qualificados estão autorizados a circular pela propriedade. «Estamos a apostar em cavaleiros que venham para trabalhar e treinar os seus cavalos», diz José, que em breve irá oferecer aos cavaleiros a oportunidade de ficarem alojados na quinta, vendendo pacotes de equitação, com alojamento e aulas incluídas.






