Na sede da Charola Ossónoba de Estoi, o saxofone dá o tom e o apito marca o início ao ensaio. Luís José Isidoro, 65 anos, exímio tocador de pandeireta e «charoleiro» desde a infância, é o líder deste grupo com cerca de 30 elementos de todas as idades. O coletivo soma 13 anos e é o mais jovem desta freguesia.
O ensaiador traz consigo pautas e versos cujos autores já se perderam no tempo, o chamado «canto velho». Rimas simples de tradição popular. «No meu tempo de menino e moço, quando chegava ao mês de setembro, já andava com as castanholas e fazia a música na minha cabeça». «Antigamente o menino era levado num balaio, ou numa alcofa em empreita. No tempo do meu pai, levava-se o menino em andores. Ia cheio de ouro que as pessoas abastadas emprestavam» para as tournées das charolas peças vilas e aldeias do barrocal. Hoje é uma caixinha mais modesta, onde se recolhem os donativos que ajudam a pagar as despesas da charola.
«Isto tem sempre com um cunho dedicado ao Natal, ao nascimento do menino Jesus, às festas natalícias e dos Reis», diz Vitorino Inácio, 68 anos, da Charola da Casa do Povo da Conceição de Faro. A preparação começa com dois meses de antecedência, duas vezes por semana, até ao grupo constituído por 30 elementos, «ficar operacional». «É gente de todas as idades. Tem havido continuidade e temos cá muita juventude, uns artistas a tocar». O grupo soma 35 anos de atuações ininterruptas, mas a origem é centenária. «As charolas eram grupos de malta que na última noite de dezembro iam cantando e batendo de porta em porta pelas ruas para anunciar o ano novo. Ao mesmo tempo pediam enchidos, vinho e dinheiro. Fazia-se mais nas zonas interiores do Algarve», acrescenta Álvaro Vale.
E na tradição há espaço para inovar? Responde Sílvia Navio, da Charola Aldeia Branca de Estoi, fundada em 2005 e com 26 elementos exclusivamente do sexo feminino. «A tradição é tocarmos em vários sítios, festivais, cafés e casas particulares. Quando tocamos a valsa das vivas tentamos fazer versos de improviso, o que se torna muito engraçado», na interação com o público.
Regra geral, há cinco momentos em cada atuação das charolas. Marcha de entrada, estilo, valsa das vivas, marcha de saída e o hino da charola. Ensaiam desde outubro. O professor Nelson Conceição escreve as novas músicas e as letras são criação coletiva. Começam a tocar a 1 de janeiro e durante o mês, «há dias em que é de manhã até à noite».
Ao contrário do folclore, as charolas não usam trajes. Apenas fitas coloridas a decorar os instrumentos e estandartes com o nome do grupo ou da associação. E nem todas cantam ao menino. Segundo Sérgio Martins da Charola Flor de Liz, fundada em 1962, esta é, aliás, uma particularidade das charolas da freguesia de Santa Barbara de Nexe (concelho de Faro). «Cantamos à fraternidade, união, amizade. Somos uma charola laica impulsionada pelo espírito republicano». Ainda têm alguns dos elementos que a fundaram em 1962, «um património vivo». Hoje são cerca de 20 elementos dos 7 aos 70 anos. Nos improvisos, os versos admitem uma forte componente de crítica social e sátira política.
A Sociedade Recreativa Bordeirense começa a tocar dia 1 de janeiro e dia 6 de Janeiro apresenta na sua sede o encontro anual de Charolas. Serão um total de 18 Charolas a desfilar nos dois dias que começam pelas 16h00 e terminam pelas 20h00 horas. Por outro lado, o Encontro de Charolas de Faro, está marcado para dia 10 de janeiro, no Teatro das Figuras. A 35ª edição promete juntar cerca de uma dezena de grupos.
Edição partilhada especial de Natal
O «barlavento» aceitou o desafio que Marsílio Aguiar, diretor do «JM – Jornal da Madeira» lançou a um conjunto de títulos publicados de norte a sul de Portugal, Açores inclusive. Um projeto pioneiro e independente de partilha de histórias com objetivo de, em cada jornal regional, celebrar o Natal de todo o país. Participam na iniciativa os jornais «Aurora do Lima»; «Diário do Alentejo»; «Diário do Minho»; «Diário Insular»; «JM – Jornal da Madeira»; «MAIS/Semanário»; «Notícias da Covilhã»; «O Almonda»; «Região de Leiria».