A Sopromar prepara-se para consolidar a liderança na náutica de recreio com a instalação de um travelift de 160 toneladas, de características únicas em Portugal e na Europa, e a digitalização total do fluxo de trabalho do estaleiro.
Resumindo uma história de sucesso que já soma 40 anos, a Sopromar é uma empresa com sede em Lagos, que possui também instalações em Portimão, Vilamoura e Algés (Lisboa), especializada na manutenção e reparação de embarcações. Soma mais de 80 colaboradores especializados e 80% da clientela é estrangeira.
Hugo Henriques, administrador, recorda que tudo começou com uma ligação direta ao setor da pesca, que aliás se mantém, e elogia o trabalho da sogra, «que foi quem manteve a chama viva da empresa durante tempos complicados» após o falecimento do fundador. A nova geração diversificou o negócio, focando a operação na náutica de recreio. A construção da Marina de Lagos também foi importante «e criou uma dinâmica que faz com que as coisas caminhem» rumo ao futuro.
Esse futuro já está em marcha com a instalação de um equipamento de elevação e movimentação (travelift) de barcos, dentro e fora de água, no interior do Centro Náutico de Lagos. O modelo a implementar terá capacidade para embarcações mono e multicasco de grande porte, até 160 toneladas, 40 metros de comprimento e 11,5 metros de boca.
«É uma grande máquina que, pelas suas características técnicas, é diferenciadora. Não existe nenhuma com esta dimensão em Portugal. A mais semelhante e mais próxima está em Palma de Maiorca. Portanto, irá marcar uma diferença na capacidade que nós, em Portugal, podemos receber. Creio que irá criar uma dinâmica diferente para continuarmos a crescer, a empregar mais pessoas e a criar valor», descreve o administrador.
No terreno, a execução já avançou com a instalação da plataforma onde o travelift vai operar, o chamado caminho de rolamento. Trata-se de uma estrutura parcialmente instalada dentro de água, capaz de suportar cargas combinadas e esforços assimétricos durante subidas e descidas. O traçado e a fundação pedem engenharia geotécnica e marítima na fase de projeto e uma execução milimétrica na obra, para garantir estabilidade, planicidade e segurança de circulação entre a lâmina de água e a marina seca.
Este é o investimento-âncora do projeto a que a Sopromar denomina Centro Náutico 4.0, mas não se limita à infraestrutura física.
Gestão, método e software próprio
A Sopromar foi pioneira na introdução de inteligência operacional através do desenvolvimento de um software próprio que acompanha todos os serviços prestados no estaleiro (Yard Management System) — da carpintaria e pintura à eletricidade, eletrónica e motores. Desenvolvido com uma empresa portuguesa, permite, por exemplo, localizar qualquer embarcação no parque, saber como evolui a obra, identificar o material necessário, com rastreabilidade de consumos, equipas, tarefas e prazos até ao terminus.
Agora, a intenção é ir mais longe na parte informática. Um dos objetivos é instalar um datacenter com servidores (para armazenamento, processamento e backup), redes de comunicação, estações de trabalho e dispositivos móveis para os utilizadores, para que tenham acesso a tudo através de telemóvel ou tablet. O investimento justifica-se para garantir que o software funcione de forma ininterrupta, segura e com alto desempenho.
Também o sistema de Planeamento dos Recursos da Empresa (ERP – Enterprise Resource Planning) integrado deverá acompanhar as melhorias no hardware, com acesso em dispositivos móveis, dashboards de performance, alertas de atrasos e Indicadores-Chave de Desempenho (Key Performance Indicators), isto é, medidas objetivas que mostram se uma organização cumpre os seus objetivos, incluindo eficiência por especialidade.
«Há quem venha aqui tirar ideias para levar para outros países, o que acaba por ser bom. Mesmo até os nossos fornecedores e os distribuidores de marcas mundiais que correm a Europa toda, quando chegam aqui e veem o que construímos ficam realmente admirados, porque é uma realidade», completa o administrador.
O projeto fica completo com a instalação de novos berços de suporte utilizados para acomodar embarcações na marina seca, durante o parqueamento ou nas operações de manutenção e reparação, facilitando o acesso dos técnicos às áreas que necessitam de intervenção. Apesar da simplicidade, são compostos por uma base robusta e ajustável que sustenta o casco da embarcação de forma estável e segura, o que é particularmente importante no caso de embarcações de grande porte. Além disso, complementam o trabalho do travelift.
Com estes investimentos, a Sopromar projeta alcançar um volume de negócios superior a 9 milhões de euros até 2029, dos quais uma parte relevante deverá provir do novo segmento de embarcações de grande porte. Em paralelo, a empresa pretende consolidar a sua faturação internacional, que deverá representar cerca de 52% do total no mesmo horizonte temporal.
Serviço «chave na mão» e cadeia de valor
Hugo Henriques diz que a abordagem comercial da empresa passa por considerar «o negócio como um todo, e não apenas uma determinada área». Além disso, «prestamos um serviço chave na mão, que não existe em mais lado nenhum. Queremos que o cliente não tenha preocupações com a sua embarcação. Nós podemos ir buscar o barco e, mais tarde, devolvê-lo à sua amarração. Assumimos a gestão das obras, das especialidades, as entradas e saídas a bordo e toda a parte logística».
A loja náutica de Lagos acrescenta escala à operação. Henriques descreve-a como «uma das maiores da Europa dedicada ao mundo náutico», com resposta rápida por via de um stock alargado.
2015, ano de viragem para o futuro
A ambição atual assenta num ciclo de investimento anterior. Em maio de 2015, a Sopromar inaugurou o Centro Náutico de Lagos após um investimento de 2,4 milhões de euros, apresentado publicamente como salto para a vanguarda da economia do mar no Algarve, com cofinanciamento do programa operacional PO Algarve 21 (2007–2013).
A aposta consolidou um ecossistema de serviços e uma capacidade de resposta que hoje suporta a entrada num segmento de multicascos de grande porte e o salto digital proposto pelo projeto Centro Náutico 4.0.
«A náutica de recreio emprega muitas pessoas. Segundo um estudo recente, para cada posto de trabalho que existe numa marina, à volta são criados mais sete. Portanto, é uma dinâmica muito grande que se cria. E nós, muitas vezes, não temos a percepção de que tem de haver alguma dimensão para começar» a desenvolver este nicho, considera Hugo Henriques.
A Sopromar dá o exemplo. «Se tivéssemos feito um estaleiro pequeno, ao segundo dia de atividade estaríamos cheios e não conseguiríamos fazer mais nada. Optámos por uma infraestrutura com dimensão que nos permite crescer.» E, neste caso, «a Docapesca também teve visão em nos dar uma concessão com tempo para a empresa se desenvolver. Hoje, esse também é um problema: as concessões são muito curtas e estas empresas não têm espaço para a sua atividade. Este tipo de negócio precisa de tempo para criar um nome no mercado e atrair clientes».
Virar o país e o Algarve para o mar
Hugo Henriques rejeita a ideia de que a náutica de recreio seja um luxo dispensável ou uma modalidade para elites e lamenta o preconceito social. «Tem muito a ver com a nossa mentalidade. Vivemos muito de costas viradas para o mar. Ao lidarmos com uma maioria de clientes estrangeiros, apercebemo-nos da diferença. Para muitos, é uma opção de vida. São pessoas que chegaram a uma fase da vida em que os filhos cresceram e saíram de casa. Então, fazem uma reestruturação nos seus bens e acabam por comprar uma casa pequena e um barquinho para passear, conhecer a Europa e gozarem um pouco a vida», descreve.
Por outro lado, o gestor identifica bloqueios estruturais fora da esfera das empresas que condicionam o desenvolvimento da náutica de recreio, por exemplo, a lotação limitada das poucas marinas que existem no país. «Isso é um problema que tem de ser corrigido rapidamente. Muitas vezes fazem-se os projetos com uma dimensão que, quando estão inaugurados, já estão ultrapassados. Até podem estar bem dimensionados na altura em que são desenhados, mas, como o licenciamento demora 10 ou 15 anos a ser aprovado, na realidade, quando se abre ao público, já está tudo subdimensionado porque, entretanto, o mercado mudou.»
A geografia favorece o país. «Portugal tem uma posição geográfica muito boa. Estamos num sítio onde todos os nautas, de uma maneira ou de outra, têm de passar. E não tiramos muito proveito disso», lamenta.
Em termos competitivos, os investimentos previstos colocarão a Sopromar num patamar de superioridade em relação à generalidade da concorrência em Portugal e na Europa, posicionando a empresa para a captação de um segmento de mercado de alto valor acrescentado (embarcações de grande porte), com elevado poder aquisitivo e beneficiando do crescimento internacional na procura por embarcações maiores e mais sofisticadas.
O administrador reconhece que «somos caso único na dimensão que conseguimos atingir. Mas não a nível de aportar valor para a economia. Há uma série de operadores com muita qualidade e que conseguem atrair pessoas para cá. Agora, acho que tem de haver um pouco mais de visão estratégica. O mar não pode ser só contentores. O mar é um conjunto de atividades que têm de ser acarinhadas e desenvolvidas, muito em conjunto com os operadores económicos que fazem parte desta equação e que têm de ser ouvidos na tomada de decisão. Mas isso é uma coisa que em Portugal não é feita».
Defesa e sinergias com a Nautiber
Questionado sobre uma eventual parceria com o estaleiro de Vila Real de Santo António (VRSA) na área da defesa, o administrador mostra-se otimista. «O desenvolvimento de um catamarã ligado à defesa faz parte de projetos em comum com a Nautiber para criar sinergias entre as empresas. Além de termos atividades complementares, há um bom entendimento pessoal e profissional. Isso é algo que nos atrai também. Tentaremos, no fundo, criar um segmento dentro da nossa atividade normal», diz Hugo Henriques.
Também a Sopromar tem um histórico de colaboração com forças de segurança como a GNR. «Durante muitos anos trabalhámos bastante com a Autoridade Marítima Nacional. Fazíamos todas as reparações de fundo em embarcações que eram apreendidas durante o combate ao narcotráfico e convertidas para o serviço. Muitas ainda hoje estão operacionais», resume o gestor.
Alinhamento com as estratégias regional e nacional
A operação Centro Náutico 4.0 alinha-se com o ALGARVE 2030 – RIS3 Algarve nos domínios Turismo (Atenuar a Sazonalidade) e Digitalização e TIC, e com o PMETA 2.0 ao reforçar o Turismo Náutico e mitigar a escassez de postos de amarração para embarcações de 15 a 35 metros, além de posicionar o Algarve como destino náutico de eleição.
Em termos nacionais, articula-se com a Estratégia Turismo 2027 no eixo «Afirmar o turismo na economia do mar» e com a Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030, designadamente as medidas 30 e 31 para valorização da oferta náutica e melhor aproveitamento da zona costeira associada à náutica de recreio e ao desporto náutico.
Para concretizar alguns destes objetivos, a Sopromar avançou com uma candidatura a fundos europeus geridos na região, através do Programa Regional ALGARVE 2030. A operação está submetida e aguarda decisão.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», editado em outubro de 2025 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.
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