Segundo um estudo do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), a produção em aquacultura atinge recordes históricos, mas bem-estar animal ainda não é prioridade.
Um estudo inovador monitorizou os batimentos cardíacos dos peixes durante longos períodos e comprova que é possível reduzir o stress e aumentar o bem-estar com pequenas alterações nas rotinas.
A aquacultura fornece já mais de 50 por cento dos alimentos marinhos a nível mundial revelou a FAO, que alerta, no entanto, para importância do bem-estar animal na prevenção e controle de doenças.
O relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), lançado este mês, destaca o crescimento impressionante da aquacultura e a sua contribuição para a produção mundial de alimento marinhos. No entanto, o documento aponta que o bem-estar dos peixes ainda não recebe a atenção necessária e que a adoção de boas práticas melhora o bem-estar, previne doenças, reduz as perdas causadas por doenças e aumenta a rentabilidade das empresas de aquacultura.
Em linha com estas recomendações da FAO, um novo estudo inovador sobre douradas realizado por investigadores do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) da Universidade do Algarve (UAlg) revelou em detalhe não só o stress que os procedimentos de cultivo podem causar, mas também como é que o Enriquecimento Ambiental (EA) pode contribuir para reduzir esse stress e aumentar o bem-estar nos peixes.
Os especialistas do grupo de Etologia e Bem-Estar de Peixes no CCMAR usaram uma inovadora tecnologia de precisão que permite medir os batimentos cardíacos dos peixes durante meses e comprovar como o EA pode reduzir o stress provocado pelas tarefas de manutenção, no estudo submetido para publicação.
«Com os bio-loggers, colocados cirurgicamente dentro do animal, conseguimos ver como varia o seu batimento cardíaco quando se fazem as rotinas de limpeza, colocação das redes ou se alimenta e quanto tempo os peixes levam a recuperar», revela uma das investigadoras do grupo.
Segundo María Cabrera-Álvarez, os resultados relevam «uma vez mais» a diferença provocada pelo EA, que procura dar aos peixes «o tipo de desafios» que encontrariam no meio natural sem criaram, ao mesmo tempo, «problemas» aos produtores.
Neste estudo, foram usadas «cordas penduradas na coluna de água», mas a solução pode ser diferente de espécies para espécie, já que o «comportamento da dourada é diferente da do robalo ou do linguado», notou.
Estruturas flutuantes, refúgios colocados no fundo ou alimento com diversos sabores ou texturas, podem ser usados para «aumentar a complexidade» do meio e colocar os animais num ambiente «mais parecido» com o que encontram no seu estado natural.
A bióloga, especializada em comportamento e neurociência de peixes, realçou a dificuldade em avaliar o bem-estar dos peixes, comparativamente a outros animais, até porque é uma área que «só ganhou dimensão há pouco mais de uma década» e precisa de «mais estudos».
Ainda assim, os investigadores vão reunindo informação sobre o comportamento no meio natural (mudança de cor, movimento de barbatanas ou uso do espaço) e fazem «uma análise com outros parâmetros», como a chamada hormona de stress (cortisol), permitindo aferir o estado do seu bem-estar.
O grupo está a desenvolver também um método que possibilite detetar o nível de stress crónico do peixe, através da acumulação de cortisol em alguns dos seus tecidos, proporcionando uma informação importante e detalhada sobre o bem-estar do animal ao longo do tempo.
O Fish Etho Group é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão estudar e melhorar o bem-estar de animais aquáticos. Faz a ponte entre a ciência e o sector da aquacultura, aplicando o conhecimento científico de ponta nas melhores práticas tanto na aquacultura como nas pescas. Trabalha diretamente com órgãos da União Europeia, autoridades competentes nacionais de vários Estados-membros da UE, empresas de grande dimensão internacional e instituições de investigação de topo.
O estudo está disponível aqui.
A aquacultura tem estado a crescer no Algarve e, no final de 2022, a produção representou 10.792 toneladas, 57 por cento da produção da fileira a nível nacional, tal como o barlavento noticiou.
Pedro Pousão, responsável da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) tem vindo a defender o cultivo do mar para colmatar a seca e os problemas da agricultura convencional.
Fundado em Olhão, em 2021, o S2AQUAcoLAB, um laboratório colaborativo que junta instituições de investigação e desenvolvimento experimental, várias empresas, um município e uma cooperativa do sector da aquacultura, pretende apoiar as empresas do sector, numa altura em que Portugal quer aumentar a produção aquática em 25 mil toneladas até 2030.