São seniores, na sua maioria. Juntam-se para caminhar às quintas-feiras, desde novembro de 2011. Andam por vales, falésias e picos do Algarve. São ex-empresários, hoteleiros, gente reformada e ainda no ativo, das mais variadas profissões. Às vezes convidam amigos estrangeiros e expatriados residentes. Depois de uma pausa de verão, setembro marca o regresso aos trilhos. O «barlavento» acompanhou-os num percurso à volta de Paderne.
Começam a chegar manhã cedo. Vêm equipados para a missão: botas, bastões de caminhada e farnel na mochila. Otelo Cabrita, 60 anos, é supervisor de bares no Casino de Vilamoura. No seu dia de folga não se compromete com mais nada a não ser a caminhada.
«Diria que 80 por cento do grupo são pessoas de Albufeira. Mas há gente vinda de São Brás, Portimão e Tavira. Às vezes consegue-se ter o Algarve todo a caminhar connosco. Já juntamos mais de 30 pessoas numa quinta-feira», descreve.
Muitos vêm pelo exercício, outros pela confraternização. Hoje em dia, «as pessoas já nem contactam umas com as outras. Há quem interrompa a caminhada para atender o telemóvel, mas ainda assim é diferente. Temos um contacto fraterno entre nós. Isso é meio caminho andado para que se dinamizem as amizades», diz.
Desde cedo ligado ao desporto e ao futebol regional, Otelo Cabrita está praticamente em casa.
Durante o percurso, passamos pela casa onde nasceu, no Cerro de São Vicente. Mesmo aqui há sempre algo novo para descobrir. «Passar pelo meio de rebanhos, lidar com o inesperado é algo que se aprende nestas caminhadas. A pessoa que está habituada a ter tudo à mão, aqui, tem mesmo que que se desenrascar…»
Vitílio Cabrita, ex-sindicalista do setor ferroviário, é um dos principais dinamizadores das Camikintas, que nasce da união de dois grupos diferentes, sendo que o mais antigo remonta a 2005.
«Não fui dos primeiros elementos, mas depois de tomar o comboio, acabei por torná-lo coeso», conta.
Isto «é malta mais madura, a partir dos 60 anos, que se quer manter ativa, dinâmica, que tiveram uma vida inteira de trabalho e que agora querem usufruir da reforma. A melhor forma é praticar exercício físico, no contacto com a natureza, conhecer a gastronomia e o Algarve interior», diz.
Grande conhecedor do genuíno e dos tesouros escondidos gastronómicos escondidos, Vitílio Cabrita, encarrega-se de organizar muitos dos almoços dos caminhantes.
«Há sempre um lauto almoço, com pratos típicos regionais, em tascas do interior que só a malta que anda pelo mato conhece», diz Jack Soifer, o consultor internacional radicado em Albufeira.
«A gastronomia é altamente cultural, não abdicamos dela», confirma Marcos Bila, 60 anos, ex-diretor hoteleiro, um dos três percursores que alargaram o grupo, em novembro de 2011. «Não é um clube privado», mas prezam bastante o espírito de grupo e portanto, mantêm algum resguardo na admissão, segundo conta ao «barlavento».
«As pessoas, quando se reformam, vão-se sentar, não vão caminhar. Mas quem vem connosco fica contagiado», brinca. Bila confirma que «temos encontrado surpresas ao nível de paisagens, situações que não imaginaríamos». Velhos moinhos, trilhos pouco explorados e até um pouco de exploração urbana por fábricas abandonadas fazem parte da aventura.
«Verificamos a desertificação, mas vemos que nas zonas de passagem dos caminhantes já aparece o pequeno comércio, o artesanato. É um segmento de mercado com potencial», conclui Marcos Bila.
Segundo Otelo Cabrita, «visto que trabalhamos no turismo», é frequente convidarem amigos belgas, alemães, finlandeses, norte-americanos e franceses a caminharem. A cada duas semanas há um elemento que toca guitarra à mesa, e até há grito de guerra para brindar com um bom tinto.
Os percursos são escolhidos tendo em conta a época do ano e o número de participantes. Percorrem uma média de cinco quilómetros por hora. Duração até três horas, com dificuldade média.
Às vezes aproveitam a Via Algarviana, outras vezes aventuram-se por novos troços «através do reconhecimento que fazemos no terreno», diz Vitílio Cabrita. Duas vezes por ano vão até ao Alentejo. A Costa Vicentina e a Ria Formosa também são destinos frequentes.
Na nossa reportagem fizemos uma caminhada pelo barrocal algarvio, em direção a Tunes e regresso, uma manhã de 12 quilómetros, que nos tirou o fôlego.
«Uns andam mais que os outros, mas o trajeto está definido e acompanhamo-nos todos. Nunca ninguém fica isolado sem saber onde está», conclui Otelo Cabrita.
Petiscos Secretos
Desafiado pelo «barlavento», Vitílio Cabrita confidencia que «O Jacaré», em Vale Longo, entre Messines e São Marcos, o «Portela do Barranco», na freguesia de Salir, a «Maria Odília», na foz do Ribeiro e o «Café Coelho» em Vale Figueira, são alguns dos locais prediletos. Destaca ainda as ostras na sede dos Leões da Porta Nova, obrigatórias quando o grupo passeia à beira da Ria Formosa, entre Cabanas e Cacela Velha.
Caminhada à volta do Castelo de Paderne
Um dos percursos preferidos do grupo é a rota do Castelo de Paderne. «Partindo de Mem Moniz, apanhamos a ribeira na Amoreira, fazendo sempre o caminho à sua beira. Contornamos o castelo passando a ponte romana, que é desconhecida da maioria das pessoas. A ponte está num local onde a estrada não lhe dá acesso. Daí vamos até ao sítio do Cotovio (antes da Patã). O regresso é feito de novo à beira da ribeira do Algibre, que em Paderne junta-se à ribeira de Alte, dando origem à ribeira de Quarteira que vai desaguar à Marina de Vilamoura. É uma maravilha. Não pode é haver cheias. Há momentos em que é perigoso, quando chove demasiado. Houve uma vez em que não conseguimos passar do moinho da Cabana, para o Moinho da Alfarrobeira, que fica logo a seguir ao castelo. Tivemos de voltar para trás. Andamos no meio do mato, arranhamo-nos todos», recorda Otelo Cabrita.