Bubba Brothers, DJ set algarvio formado por Eliseu Correia e Justino Santos, entram no catálogo da gigante da música eletrónica Spinnin’ Records, com o EP «Euphoria».
barlavento: Já se previa esta entrada no catálogo da talvez maior editora de música eletrónica do mundo?
Eliseu Correia: Não. Aliás, vou contar a história que até tem uma parte quase de comédia. Recebi um email e, honestamente, pensei que fosse spam. Imagine que eu sou um jogador do Clube Desportivo de Montenegro e alguém me dizia que o Ancelotti estava ao telefone para eu ir jogar no Real Madrid. Sem desprimor para o meu clube, pensaria que alguém estava a gozar comigo. Foi isso que aconteceu. Deixei marinar por algumas horas e decidi investigar. Afinal, era mesmo legítimo. Acho que sou o indivíduo que eu conheço com mais liberdade de sonho, mas desta vez, confesso que nem eu seria capaz de sonhar com a Spinnin’ Records.
Qual o real impacte?
Bem, hoje saiu radio show da Spinnin’ no YouTube, em que o «Euphoria» dos BB é logo a primeira música e estamos a falar de um canal que tem 30 milhões de subscritores, para termos uma noção da ordem de grandeza. Neste momento fazemos parte de um grupo muito restrito de DJs nacionais, na história, que alguma vez passaram por aquela porta. É um momento único e é ainda estou um pouco sem palavras.
Quando teve a notícia?
Há cerca de 15 dias, mas só posso divulgar agora, pois precisei de aguardar até ter o contrato assinado. Já está tudo tratado e tanto assim é que já estamos na página oficial em belíssima companhia, ao lado de Tiësto com um mix de David Guetta. Acho que por aqui se vê o tamanho da instituição, do parecer, e do alcance disto. Realmente, é muita fruta.
E como é que isto aconteceu?
Este EP é constituído por três músicas que passam a ser da Spinnin’ Records. Ou seja, são deles. Não quer dizer que venhamos a ter mais músicas com esta editora. Poderá acontecer, ou não, Veremos. Eles ouviram o EP e quiseram adquirir os direitos à Mossdeb Records. Isto ainda é mais espantoso porque recebem milhares de demos e há quem sonhe todos os dias em receber uma chamada. Connosco foi ao contrário. Ouviram a nossa música e quiseram comprá-la. Agora, será distribuída por esse planeta fora, sobre a égide e chancela da Spinnin’ Records. Diria que terá um alcance quase infinito e irá levar a música e a marca Bubba Brothers para uma dimensão completamente diferente.

Não. Ninguém vai acreditar, porque tenho a certeza e sei que há centenas de DJs a fazer pitching, que vão enviando os seus trabalhos (demos) e 99 por cento desse material nem chega à pessoa certa. O nosso caso é espantoso e sinto um orgulho tremendo porque a Mossdeb é uma editora algarvia genuína e pequenina. Mas conseguiu que a sua música tivesse tal alcance que um tubarão desta envergadura disse: queremos isto! Não consigo pôr em palavras o meu orgulho. Acho que é um grande momento, não só para os Bubba Brothers, mas para a região, porque mais uma vez, levo nome do nosso Algarve muito além e ao mais altíssimo nível. Ou seja, não há nada acima disto. Claro, respeito todas as outras editoras congéneres e oxalá que consiga um dia, se calhar, editar músicas nas que fazem parte do TOP10 mundial, mas esta, na verdade, é a líder da indústria. Para a semana, temos algumas músicas novas prontas e remasterizadas que considero muito boas. A Spinnin’ Records tem direito de opção (first pitch), sobre o próximo lançamento. Se gostarem, ficam com elas e isso seria o superlativo do sonho. Se não gostarem, é assim a vida. Costumo dizer que só se consegue marcar se estivermos em campo. E agora, tudo é possível!

Mesmo que quisesse dizer, não poderia, nem posso falar sobre os detalhes da divisão dos direitos. É confidencial. Vamos ser pragmáticos, 100 sobre 10 é infinitamente menos do que 50 por cento sobre 50 milhões.
Mas o vosso objetivo nunca foi o lucro, certo?
Se calhar, tudo isto acontece com um karma positivo e de forma natural porque estamos aqui pelo dinheiro, mas pelo prazer de fazer boa música. Aprendi a fazer, porque não sabia e todos os dias tento evoluir um bocadinho mais. Estou ainda muito longe daquilo que será exigível para um bom nível, mas vou fazendo e lutando. O objetivo sempre foi divertir-me e divertir os outros. Tanto a nível da qualidade de música, que online, nas várias plataformas é ouvida em mais de 163 países e depois, divertir as pessoas quando toca ao vivo. A maior alegria que tenho é quando as pessoas saem de um concerto e durante horas não se lembram da hipoteca nem de nada. É a parte que amo. Nunca imaginei isto que aconteceu. É fantástico e agora vamos trabalhar para melhorar mais porque a superação diária faz parte daquilo que é a exigência para qualquer ser humano.
Este reconhecimento vai influenciar a agenda dos Bubba Brothers?
Já começou a influenciar. Posso dizer que nós vamos ficar em três grandes festivais internacionais na Europa em 2024. Está confirmadíssimo.
E o cachet, também irá aumentar?
Não pensei em nada disso. O que espero que aconteça é que surjam mais oportunidades para tocar nos melhores sítios por esse mundo fora. Uma coisa é clara aconteça o que acontecer, aqueles parceiros que nos apoiaram desde o primeiro momento, nunca vão sentir nenhum aumento de cachet, porque a cobrança será exatamente igual, quer tenhamos 70 mil ouvintes mensais no Spotify, quer que nós tenhamos 7 milhões. Esses parceiros pagarão sempre o preço que nós acordamos na altura em que arrancámos, porque essa é a forma que nós temos de agradecer por nos terem dado uma oportunidade. Na vida, devemos ter sempre memória de quem nos fez e faz bem. Nem era preciso eu dizer isto publicamente, porque eles sabem. Nem mais nem menos um euro. Não interessa a inflação nem nada. É aquilo que se combinou na altura e a minha forma de dizer obrigado por a coisa que a coisa que mais detesto são pessoas ingratas e que têm falta de memória logo. Portanto, não me posso revoltar quando isso me acontece e depois fazer igual.
Fazem falta no Algarve mais grandes eventos de música eletrónica?
Há uma iniciativa gira que vou ter no Ameixial e que as pessoas gozam por ser na serra, no dia 13 de julho, vai ter um alinhamento digno dos melhores festivais de música eletrónica. Se as pessoas quiserem e se correr bem, daqui a cinco anos, será um dos festivais mais desejados e badalados para qualquer DJ tocar. E não estou a falar só em Portugal, mas lá fora também. Quem não conhece que vá ver o spot. À noite, o espelho de água do Ameixial tem um ambiente absolutamente único para se fazer um evento. Será uma estreia em que faço a parte da curadoria artística. Vai dar muito que falar, garanto. Vou trazer DJs de toda a parte da Europa, incluindo uma das maiores referências de sempre do panorama mundial. Infelizmente, sinto que as mentes ainda são um bocadinho retrógradas. Há dois ou três anos ofereci uma oportunidade a um presidente de Câmara para se fazer aqui uma coisa em grande e estava tudo devidamente alinhado, e o autarca preferiu investir numa telenovela novela portuguesa. Penso que já ficou provado com o BPM e com o Secret Spot que a música eletrónica traz milhões de euros a esta terra. Essa mentalidade faz-me lembrar as pessoas que achavam que as low cost só traziam pé descalço, ou seja, a ignorância, infelizmente, continua a ser o maior obstáculo para que se façam com coisas nesta região. A ignorância, infelizmente, abunda e muito, especialmente naqueles órgãos que são públicos e que tomam decisões quando não percebem nada do estão a fazer. Festivais de música eletrónica no Algarve? Condições únicas. Temos os espaços, as pessoas, o know-how, temos a reputação de ser um destino seguro, muito importante, temos tudo. O que é preciso são mentes abertas, pessoas que olhem para o negócio pelo negócio e que não confundam o seu umbigo com aquilo que é o mundo…

