Referência no mundo dos vinhos e grande impulsionador da nova geração de néctares algarvios, Hermínio Rebelo deixou-nos aos 86 anos.
Provador, confrade, professor, júri, palestrante, certificador de qualidade e autor do «Guia de Vinhos do Algarve», foram algumas das muitas funções que Hermínio Fernandes Rebelo exerceu com dedicação ao longo da sua carreira.
Já nos tínhamos cruzado em vários eventos, mas foi no início de junho de 2009, aquando do lançamento do «Guia de Vinhos do Algarve» editado pela Região de Turismo do Algarve (RTA) que finalmente nos conhecemos.
Mais tarde, surgiu a oportunidade de realizarmos uma entrevista em ambiente descontraído, no Porta Velha, em Portimão, no final de março de 2013. Trouxe consigo uma caixa com alguns dos melhores vinhos algarvios para provar e regar a conversa, e o dono da casa presenteou-nos com petiscos, queijos e enchidos.
Acabou por ser tarde memorável, que aqui recordo com carinho, em sua homenagem e profundo agradecimento pela amizade que desde sempre manteve comigo e também com o jornal barlavento.
No início, o «Guia» da RTA tinha apenas 16 produtores e 75 vinhos, num total de 130 páginas. Uma edição atualizada já estava no prelo e somava então 140 rótulos, todos provados e descritos por Hermínio Rebelo, que via com naturalidade a crescente qualidade da vitivinicultura algarvia.
E explicou porquê. «Há três aspetos fundamentais: o solo, o clima e o meio ambiente. O Algarve tem uma vantagem, com cerca de 120 quilómetros de barrocal, solos de milenares de grés, calcários, graníticos e até de xistos. A vinha precisa de solos pobres que obrigam a videira a ir a profundidade buscar os minerais que são fundamentais no vinho. Temos hoje cerca de 5000 hectares para a produção de vinho. Tavira é uma região cheia de potencialidades», sublinhou, numa altura que só ali existia registo de um produtor.
Portanto, Hermínio Rebelo não se admirava de ver «cada vez mais produtores ainda desconhecidos» a surgir um pouco por toda a região.
«Temos estrangeiros residentes que estão a investir e a certificar as suas produções. O Algarve tem grandes tradições vitivinícolas, mas com vinhos, digamos, um pouco incorretos. Este renascer justifica-se porque esta região tem tudo o que é necessário para produzir vinhos de qualidade. Temos ventos mediterrânicos sem estarmos no Mediterrâneo. Temos um clima equilibrado, nem muito frio nem muito quente. Temos a serra, e uma grande diferença de solos, os quais podem facilmente corresponder ao padrão que a vinha quer. Temos também o plantio, com muito mais tecnologia e novas castas certificadas. Depois há a questão técnica. Já passámos do tempo em que se fazia o vinho dentro de uma cuba de cimento exposta ao ar. Hoje quem entra em qualquer adega algarvia vê presentes novos equipamentos, cubas de inox e desengaçadores, com as suas várias funções. Ou seja, houve um grande investimento de modernização em tecnologia para se produzir um vinho dos novos tempos. Os produtores atualizaram-se e perceberam que este é um sector importante. Se não tivessem dado estes passos, e não tivessem tentado seduzir o mercado, porque a concorrência é muito forte, teriam ficado pelo caminho. Indiscutivelmente, ganhou o produtor e o consumidor», disse, numa explicação que 10 anos mais tarde, continua atual.
Tal como os desafios. «São produções pequenas. É difícil competir apenas com base no fator preço. Há uma questão de mentalidades, com a restauração ainda a resistir a tê-los na carta. Penso que o problema é não saberem vender. Vamos ser claros, alguns hoteleiros estão interessados em vinhos que custam 1 euro para poderem ser vendidos a 10 euros. Claro, salvo exceções, nenhum vinho algarvio custa isso. Infelizmente, para muitos, o que interessa é o lucro. Não é servir qualidade», criticou.
Em relação ao enoturismo no Algarve, «a rota dos vinhos ainda não está consubstanciada, mas há muitas adegas que já são visitáveis e organizam provas. Isso é importante, porque há pessoas que nos visitam que têm interesse em levar vinho para os seus países de origem. Há, aliás, vários produtores algarvios que têm a sua defesa na exportação» para o mercado internacional.
Um amor de sempre
A paixão pelo vinho foi um amor à primeira vista, que começou «logo muito novo», ainda na década de 1970. Hermínio Rebelo orgulhava-se sobretudo da formação profissional. Ensinou na Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão e no Polo da Universidade do Algarve, onde formou muitos dos responsáveis que estão hoje à frente de hotéis da região, no país e no estrangeiro. Desempenhou, também, a função de chefe provador e certificador de vinhos na Câmara de Provadores da Comissão Vitivinícola Regional do Algarve, à data, o órgão que dava luz verde aos vinhos para poderem ser comercializados. Foi escanção-mor e provador da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos do Algarve, coletivo que considerava desempenhar «um importante papel» na divulgação da produção regional, através da presença em eventos.
Ao longo do seu percurso, Rebelo conheceu alguns enólogos de grande classe, como o professor Francisco Colaço do Rosário, da Fundação Eugénio de Almeida, e catedrático da Universidade de Évora. «Em casa tenho milhares de informações que me foram passadas, por ele em vida. Tenho uma grande experiência acumulada, e matéria-prima suficiente para lançar um novo livro sobre o vinho. Oxalá o criador me deixe lá chegar», brincou.
O nariz é que manda!
Falar sobre vinhos algarvios sem os provar seria o mesmo que ir à praia num dia de chuva. Reunidos na Tasca Porta Nova, em Portimão, numa tarde sem compromissos, o mestre Hermínio Rebelo trouxe consigo algumas garrafas para demonstrar a sua peritagem. E tudo começa no olfato, explicou. «Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a principal prova do vinho está no nariz. Porque se o vinho não for bom no nariz, não será na boca, ainda que independentemente nas papilas gustativas se possam encontrar outras nuances». Assim, só depois de identificar os aromas, e depois de bem observada a «lágrima do vinho» (isto é, os açucares redutores), a cor e a tonalidade, é que o copo vai à boca. Segue-se um ritual que implica «envolver» o vinho e «assobiar» ar para dentro da boca. Para a prova ficar completa, é preciso analisar se o final é «curto» ou «longo». Mas essa é uma sensação que fica ao critério do provador…
«Que sua memória seja uma fonte de inspiração»
Muitos foram os amigos e conhecidos que ao longo dos últimos dias manifestaram pesar pelo falecimento de Hermínio Fernandes Rebelo. Em nota pública, a Escola de Hotelaria e Turismo (EHT) de Portimão, recorda-o como «um homem notável cujo impacto no campo da educação hoteleira e turística jamais será esquecido. Enquanto lamentamos a sua partida, é imperativo reconhecer e celebrar a sua indelével contribuição para esta escola. Foi um dos primeiros formadores desta escola, tendo ingressado nos quadros em 1971 como formador coordenador de restaurante e prestado serviço até 2010», data em que se reformou.
«Foi um visionário, um educador abnegado e apaixonado que dedicou a sua vida ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento dos recursos humanos para o sector hoteleiro e turístico, sobretudo na enologia e na enogastronomia. A sua liderança inspiradora e o seu compromisso inabalável com a excelência deixaram uma marca indelével naqueles que tiveram a sorte de conhecê-lo e aprender com ele. Através da sua iniciativa empreendedora desempenhou um papel fundamental na promoção da gastronomia local e regional, tendo sido o mentor, através de vários festivais e o impulsionador e principal responsável pelo início dos cursos de formação de escanção. Foi um dos principais impulsionadores e dinamizadores do renascimento dos vinhos do Algarve, nos anos 1990. Será lembrado como um educador excecional e o seu legado viverá através das inúmeras vidas que ele tocou e inspirou ao longo dos anos. Que sua memória seja uma fonte de inspiração e motivação para todos nós, continuando a lembrar-nos da importância do compromisso, da excelência e do amor pelo conhecimento».
