«Ana daCosta é uma artista criadora, que acredita na transformação e na reutilização da matéria e do mundo. É também uma espalha amor, pois sente que hoje em dia é uma raridade quem o faça, e dedica o seu tempo aos mais pequenos, pois o seu futuro em harmonia é precioso e eles precisam daquele professor/amigo divertido que lhes vai falando de tudo um pouco, ao mesmo tempo que os faz falar pela dança ou expressão corporal».
Assim se definiu. O seu corpo exprime toda a gama de emoções, sem ter de dizer palavra. O seu riso (porque ela ri, não sorri) é contagiante. A sua expressão facial é uma montra do que lhe vai na alma, cambiando ao ritmo da conversa. É uma comunicadora nata.
Este espírito de adolescente num corpo de meia-idade nasceu em Lisboa, mas vive no barrocal algarvio, há cerca de dez anos. E contou-nos que gostava mais de ficar a cantar do que ir para as aulas. O canto era a sua paixão. No décimo ano, descobriu um curso profissional de música, numa academia, e embarcou na aventura.
Ana daCosta – Aquilo era mesmo bom, do tipo Fame que se vê na televisão. Fiz o curso de três anos e fiquei lá mais um. Aprendi canto, solfejo, educação musical, análise, composição, combo. Saí dali já com repertório para fazer recitais. Cheguei a entrar no Conservatório, mas dei barraca com a professora (risos) e nem acabei o primeiro ano.
Estudou com a professora Isabel Bíu?
Sim. Na academia e, depois, tive aulas na casa dela, durante mais cinco anos.
Mas acabou por não seguir a carreira de cantora clássica?
Fui-me complementar para o Chapitô, porque temos de saber um bocadinho de tudo. Aprendi swings com as fitas e as maças, para fazer com fogo. Assim, podemos cantar, dançar e fazer malabarismo ao mesmo tempo. Depois, andei à procura de uma escolinha de dança e encontrei o Centro em Movimento (CeM), um centro experimental, onde durante o dia temos formação em iniciação ao ballet, movimento contemporâneo, etc. e, à noite, tínhamos JAMS, para experimentar e realizar o que tínhamos aprendido. Também aprendi a trabalhar com marionetas e, depois, estive sempre em formação, até aos 33 anos (nova gargalhada).
Teve uma vasta e variada educação artística?
E o engraçado é que fiz de tudo. Agora, coreografei e estou a ensaiar uma marcha popular, na freguesia de São Clemente, Loulé, para apresentar no dia 12 de junho. São meninos entre os 40 e os 80 anos de idade.
Como é que a Ana aparece no Algarve?
Fui trabalhar na Suíça e, quando voltei, não conseguia estar em Lisboa. Há dez anos, decidi vir para o Algarve, ali para Esteira Montões…
Para onde?!
(risos) Esteira Montões, ali ao pé de Moncarapacho. Era próximo de Faro, onde rapidamente fiz amigos na ARCA, a quem me liguei. E também entrei logo num projeto em São Brás e comecei a dar aulas. E nunca mais parei; dou aulas a bebés, ao primeiro ciclo, a adolescentes.
De quê?
De dança e de teatro, porque também tive formação nesta arte. Neste momento, estou com a Academia de Música de Tavira e dou aulas de dança nos infantários. É mais o conhecimento do corpo, movimentação, a consciência do outro…
Consciência do outro. Acha que as crianças são solitárias e não têm consciência dos outros?
Como professora, sei que as crianças andam muito desacompanhadas, o que é uma coisa gravíssima e de ir às lágrimas. Os miúdos andam a ficar muito agressivos. Os pais dizem:« ele é muito hiperativo, ele é mal comportado, ele é…». Eles são crianças que chegam a casa e não têm atenção, que são despejados e as auxiliares e as educadoras é que são as mães das crianças.
Está a dizer-me que a agressividade vem de uma carência afetiva?
Sim. As crianças estão a precisar dos avós e eu digo isto às mães, mas se calhar ainda estão a trabalhar, porque agora têm de trabalhar até mais tarde.
Ou não estão, mas não têm disponibilidade emocional para tomar conta dos netos?
Eu acho que isso é gravíssimo. Estamos a criar uma geração egoísta, insegura, essencialmente dependente de matéria para se sentir viva. Necessitam de ter qualquer coisa, para poderem dizer: «É meu! Não mexe! É meu!».
Mas os adultos já padecem desse mal, não padecem?
Pois. E os pais são os primeiros professores.
Mas, paralelamente, a Ana faz espetáculos para crianças?
Sim, a Roberta Esperta. A história foi dialogada com a minha filha, tinha ela 3 ou 4 anos. Era um desenho de uma batata que tinha muitas pintas. Perguntei-lhe o que era e ela respondeu-me que era uma batata. Quando mencionei as pintas, respondeu-me que tinha varicela e que a batata só saía à rua quando chovia, para lavar as pintas. Achei imensa piada e dei continuidade à história, porque não há batatas sem pintas. Ela queria apagar algo que fazia parte de si. Como nunca saía à rua, desconhecia o que existia à sua volta. É uma daquelas pessoas que se fecham dentro de si próprias, mas não posso dizer muito, porque a história é muito gira e merece ser vista.
E usa fantoches na representação?
Sim. Faço a história sozinha, a música e as personagens. Levo material diverso e, no final, eles criam os seus próprios fantoches. Aparece de tudo, porque não os condiciono, deixando-os usar toda a sua criatividade.
Surpreenda-me. O que é que faz mais?
Sou cantora a sério. E tenho um projeto que vai sair agora, que se chama «Aueike», com músicas para despertar. São músicas de coração e de reflexão, de minha autoria. Vou apresentá-lo dia 19 de junho, em Tavira. Não é música de CD; é música de concerto. Irei fazendo pequenos vídeos durante as apresentações e colocando no Youtube.
Com esta tirada, partiu Ana daCosta, o seu corpo rindo e saltando de alegria, rua fora.