O reitor trouxe a escola para o mundo exterior. Numa viagem, que o levou a percorrer os dezasseis concelhos algarvios onde, em todos eles, plantou uma mensagem de grande abertura, criando parcerias entre os municípios e a Academia, trazendo para a vivência da Universidade as empresas.
Pela primeira vez, um ser humano percebeu que era preciso passar à geração seguinte a experiência e o saber que «o labor, o trabalho e a ação», como diria Hannah Arendt, lhe tinham proporcionado. Nesse dia longínquo, há dezenas de milhares de anos, esse ser humano deu início a uma das atividades mais belas e mais nobres da Humanidade: a Educação», disse.
António Branco mostrou ser mais que um professor da Academia, assumindo-se como algarvio, sentindo os problemas desta terra e das suas gentes. Com a humildade que se lhe tem que reconhecer, declarou: «não havendo ainda, na dinâmica da sociedade em que vivemos e nos movimentos sociais que ela é capaz de gerar, mecanismos políticos de resposta eficaz à demanda de uma democracia em que todos reconheçamos os ideais fundadores ‘do governo do povo, pelo povo e para o povo’, a outra possibilidade que vislumbro para alguma saúde democrática no exercício do poder que este cargo me trouxe é a da ativação permanente de instrumentos de vigilância ética, demasiado dependentes de mim e das minhas predisposições, é certo, mas, ainda assim, ao alcance de qualquer ser pensante e sensível».
António Branco é um cuidador. Com simplicidade reconhece o amor que tem à Universidade e o muito que deve a esta instituição. A sua formação humanista dá-lhe uma visão da Vida e da Escola numa grandeza que consideramos pouco vulgar a este nível: «aqui conheci homens e mulheres sábios e comprometidos, verdadeiros exemplos da ética académica que me formou, homens e mulheres que se dedicam à instituição como se estivessem a cuidar da própria casa.
Os cuidadores, como gosto de lhes chamar. Desculpar-me-ão que comece hoje pelos menos visíveis: homens e mulheres que mudam uma lâmpada fundida, reparam uma torneira que pinga, limpam gabinetes depois de todos sairmos ou antes de todos chegarmos, imprimem uma brochura, preparam refeições nas cozinhas das cantinas, organizam, carimbam e arquivam documentos, agendam reuniões ou fazem uma ligação telefónica, preparam dados, verificam faturas e recibos, inventariam equipamentos, fotocopiam ou digitalizam, enviam convocatórias, preparam e mantêm os computadores, atendem pessoas e resolvem-lhes os problemas, conduzem e cuidam de viaturas; mulheres e homens que compaginam o seu horário de trabalho com as necessidades da instituição, muitas vezes sacrificando a sua vida pessoal».
A coragem de ter sido um interventor ao longo do ano, tudo fazendo para expulsar de dentro dos muros da Academia a alienação, simboliza
essa luta citando o poeta Antero de Quental:
É imensa a vida,
Homens! não disputeis um raio escasso
Que vem daquele sol; a ténue nota,
Que vos chega daquelas harmonias;
a penumbra, que escapa àquelas sombras;
O tremor, que vos vem desses horrores.
Sol e sombras, horror e harmonias
De quem é isto, se não é do homem?!
Não disputeis, curvado o corpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar à mesa…
Que há lugar no banquete para todos:
Que a vida não é átomo tenuíssimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Deserdados, invejam – é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma – a terra firma.
Onde pomos os pés, e o céu profundo
Aonde o olhar erguemos – é o imenso,
Que se infiltra do átomo ao colosso;
Que se ocultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva às paixões, e unge os seios
Com o bálsamo do amor; que ao vício, ao crime,
Agita, impele, anima, e que à virtude
Lá dá consolações – que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lágrimas,
E está na bacanal como na prece!…