Faleceu Fernando Silva Grade, biólogo, artista e defensor do Algarve

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Fernando Silva Grade estudou biologia mas acabou por se dedicar exclusivamente à pintura em Faro, onde vivia e trabalhava. A natureza e o património eram a sua grande paixão. Blogger, escritor, artista e contestatário, dinamizou várias ações de sensibilização contra a descaraterização do Algarve. Faleceu ao início da tarde de hoje, 8 de setembro, vítima de doença oncológica.

Fernando Silva Grade, 64 anos, era colaborador da associação ambientalista Almargem, e há muitos anos que se tinha distinguido enquanto ativista na proteção do património natural e cultural do Algarve.

Já na juventude, Fernando Silva Grade tinha uma intervenção ativa nos anos 1970/80. Pintava mensagens de protesto nos estaleiros das obras, numa altura em «que todos os dias a destruição avançava sem dó nem piedade por esse Algarve fora».

Grade era colaborador assíduo do semanário «barlavento» no qual publicava artigos de opinião criticando muitas vezes o rumo que o Algarve estava a seguir em matéria de urbanismo.

Foi também colaborador do blogue «A Defesa de Faro» e, mais recentemente, autor do livro «O Algarve tal como o destruímos». Além disso, era um profícuo artista.

Em 2018, há precisamente um ano, a Câmara Municipal de Faro distinguiu-o com a Medalha da Cidade – Grau Ouro pela defesa intransigente dos valores que defendia.

O Funeral será na terça-feira, 10 de setembro às 15 horas, a partir da Igreja de São Luís, em Faro.

Em sua homenagem, publicamos uma entrevista inédita que sintetiza o espírito crítico e amor que Fernando Silva Grade tinha pelo Algarve.

Fernando Silva Grade, viu com agrado a chegada das trotinetas elétricas a Faro.

barlavento: Tem sido um crítico do urbanismo que se faz no Algarve e em Portugal. Porquê?
Fernando Silva Grade:
Como artista, também estou atento às produções humanas. A casa é a principal produção humana e daí o meu fascínio. Por outro lado, considerando que a arquitetura também é uma arte, é a única à qual não podemos fugir. Se não gostarmos de um quadro, de uma música, de um livro, podemos facilmente ignorar. Da arquitetura não. Está à nossa volta. Andamos por dentro dela. De certa forma, é a arte que tem mais implicações na vida do ser humano.

Qual a diferença entre hoje e ontem, na sua perspetiva?
Acontece que até recentemente, os elementos que o homem construía tinham uma interação estreita com a natureza. Por exemplo, nos materiais e também nas formas. Antigamente, a arquitetura estava em ligação direta com o pulsar do mundo natural. Se repararmos na arquitetura tradicional portuguesa, toda ela era um reflexo do meio envolvente. Há 40 ou 50 anos atrás, até as grandes cidades tinham um cunho característico que tinha a ver com o clima e com os materiais que havia nas proximidades. Isso ainda é visível, por exemplo, em Lisboa. Antes, replicávamos a natureza nas cidades. A madeira das árvores estava nas janelas. As pedras do solo e o barro estavam nas paredes e nas telhas. Hoje, já não existe esse elo.

Porquê?
Aqui no Algarve ainda conheci a arquitetura que era desenvolvida nesses moldes, que era feita considerando o ecossistema. Repare, se colocarmos o mapa do Algarve na vertical, temos uma espécie de Portugal em miniatura. Curiosamente, ambos têm em comum uma grande diversidade de ambientes. Em Portugal bastam 30 quilómetros para tudo mudar. No Algarve cada sítio tinha um cunho único. Era uma riqueza cultural muito grande. Mas agora está tudo massificado. Parece que houve um cataclismo brutal que aniquilou esse património. Desde há 40 anos para cá houve um fenómeno que se espalhou pelo nosso território e que foi o nosso principal modelo económico – a construção civil e a especulação imobiliária. O lucro teve prioridade absoluta sobre aspectos de planeamento e de estruturação do território. O que aconteceu foi a construção desenfreada, a barbárie.

Isso nota-se sobretudo no espaço urbano, certo?
Antigamente tínhamos localidades tipicamente mediterrânicas, onde a rua era o ponto central de convívio e de encontro das pessoas. Era um prolongamento das próprias casas. Entretanto, o que se construiu em Portugal é o conceito americano de cidade. Toda a dinâmica é feita em função da viatura privada. O que se fez foi chutar as pessoas para a periferia para abrir espaço para o automóvel. O subúrbio é o grande paradigma habitacional português. A esmagadora maioria dos portugueses vive nos chamados dormitórios. Hoje em dia estamos a construir espaços de horror, físicos e espirituais, onde vamos morar.

Acredita que ainda é possível inverter este panorama?
O problema é que não há volta a dar. Aquilo que construímos não tem solução. Hoje os portugueses vivem em zonas horrendas, onde não há condições para o convívio. As pessoas acabam por viver entrincheiradas nesses sítios e votadas a um modo de vida horrível. A solidão é um problema a partir de certa idade. Em 40 anos criámos um ambiente anti-natural, anti-humano, anti-social. Vejam-se as dentadas do cimento, pela introdução de prédios. Isso é uma realidade em Portimão, Albufeira, Quarteira, Armação de Pêra. Conheci esses sítios quando toda a sua beleza estava intacta. É demolidor confrontar-me com o caos tremendo que hoje em dia aí impera. O meu pai é de Portimão e passei muito tempo na Praia da Rocha, que hoje é o símbolo máximo da barbaridade, da ignorância da estupidez humana. Já foi a praia mais bonita da Europa. Mas conseguiram aniquilar tudo isso, não só com a construção de prédios medonhos, mas também com a injeção de areia na praia.

Acha que a paisagem atual pode ter um efeito negativo no futuro?
A construção que se fez não tem volta a dar. Seria preciso um terramoto daqueles de escala nove para alterar a paisagem. Ninguém deseja isso. Pondo de parte essa hipótese, e porque também não se pode implodir tudo, estamos condenados a séculos de sofrimento pelo ambiente betonizado e artificial que criámos. Em termos económicos isto vai ter consequências tremendas no futuro. O turismo de massas está em vias de extinção. O contexto internacional mudou. O desenvolvimento sustentado impõe-se como nunca. E, portanto, esta sociedade da desbunda e do desperdício está a chegar a um fim. O que no futuro se perspectiva é um modo de vida diferente. Cada vez mais o turismo cultural e de natureza é o que terá futuro. Ora como é que nós vamos implantar o turismo de qualidade num país em que se destruiu o meio natural e em que se destruiu o património, a paisagem e as raízes culturais?

Por outro lado, muitas vezes, a paisagem no interior rural de muitos concelhos do Algarve também não é bonita…
O campo está ao abandono… O problema é que não é apenas o litoral que está destruído. Devido à quebra de raízes culturais, o povo está sem referências. E está sujeito a uma manipulação que o envolve em valores que têm a ver com o consumismo e com o novo-riquismo. Assim, o povo é também ele próprio um agente de destruição da sua própria cultura e do seu próprio ambiente. Dou um exemplo típico que acontece todos os dias: as casas de campo que estão em ruínas e que as pessoas querem recuperar. Rapidamente se transformam em abortos. Dão lugar ao PVC, ao alumínio, à tinta plástica, ao azulejo piroso. Vemos constantemente pedaços do que existiu ao lado dos elementos deste novo Portugal modernista, deste Portugal novo-rico.

Há culpados neste cenário?
Até há muito pouco tempo a maior parte dos autarcas foram os principais elementos que contribuíram para o rumo que o Algarve tomou nos últimos 40 anos. As entidades oficiais têm as maiores responsabilidades. Se houvesse um mínimo de sensibilidade teriam tomado medidas para proteger a nossa arquitetura popular. Isso não aconteceu, antes pelo contrário. Toda a legislação foi feita para facilitar a betonização. São culpados os que mandam e os que obedecem. Quando é assim, não há nada a fazer.

Tem tentado passar toda essa mensagem. Com que resultados?
Aquilo que me admiro é que sendo um processo tão violento, tão agressivo, tão penalizador do nosso ambiente, tão destrutivo da nossa cultura, da nossa identidade, como é possível que as pessoas não se revoltem contra isto? Felizmente, cada vez mais pessoas são confrontadas com todos os aspectos negativos que este novo urbanismo criou. Já começam a sair da indiferença e a perceber que algo não está bem. Nas minhas iniciativas tenho encontrado retorno em quem começa a acordar para esta situação que nos penaliza a todos. Mas durante muitos anos foi muito difícil conseguir eco nas pessoas à minha volta…