Previsões da companhia apontam para um crescimento sustentado de 10 por cento este inverno. Próximo verão deverá manter esta tendência, segundo José Lopes, diretor comercial da easyJet em Portugal, em entrevista exclusiva ao «barlavento».
barlavento – Qual a importância de Faro para a easyJet?
José Lopes – Acabámos de fechar o ano fiscal em setembro e, pela primeira vez, transportámos mais de 1,5 milhões de passageiros em Faro. É um aumento na ordem dos 20 por cento em relação ao ano passado. É um marco que recompensa todo o trabalho que temos vindo a desenvolver para dar a conhecer o destino Portugal e, em particular, o destino Algarve que tem tido um grande acolhimento por parte dos nossos passageiros. Estamos neste momento a operar 17 destinos em Faro. Abrimos Nice e Lille este ano para diversificar e aproveitar a conjuntura internacional, de forma a trazer para o Algarve passageiros que tradicionalmente não vinham com tanto peso para esta região. Claro, que isto é fruto também do que se vai passando no norte de África e no médio oriente, e nós estamos atentos.
O mercado que mais cresceu no Aeroporto de Faro, em 2017, foi o francês. Isso obriga ao reforço de rotas?
O facto de sermos o segundo maior operador em França também nos ajuda a ter uma melhor percepção de como é que se comporta esse mercado e daí estarmos a dar passos, não só para reforçar as rotas existentes, como para abrir novos destinos. Aliás, foi esse o caso este ano, em que das quatro rotas que abrimos para Portugal, duas foram para o Algarve, a partir de França. É algo que vai continuar a consolidar-se e fortalecer-se nos próximos anos.
Isso significa que no próximo verão IATA vai haver novidades?
Ainda não temos notícias. Temos fechado o próximo inverno que passará pelo reforço operacional das rotas existentes. Estimamos que neste primeiro semestre do novo ano fiscal, que começou agora em outubro, crescer uma vez mais em dois dígitos. Esperamos crescer mais 10 por cento aqui em Faro, comparativamente ao inverno passado. É uma prova que a easyJet aposta no Algarve não só como um destino de pico de verão, mas como um destino anual. Somos, provavelmente, a companhia que mais tem vindo a esforçar-se para esbater a questão da sazonalidade na região.
Neste momento, há quem questione o modelo de negócio da aviação low cost, muito devido ao fecho da Monarch. Qual é a vossa resposta aos mais críticos?
É uma pergunta pertinente. Tem havido alguma confusão entre modelos de negócio e a sustentabilidade económica de algumas empresas. É verdade que tivemos o fecho da Monarch e da Air Berlim. Mas convém lembrar, que nenhuma delas é, na sua génese, uma companhia low cost. Eram companhias charter que começaram a praticar tarifas baixas (low fares). Isso não é ter no ADN um modelo low cost, que é um modelo de simplicidade na operação, de custos altamente controlados de forma eficiente e de volume, para depois, como resultado desse trabalho, se poder oferecer aos passageiros preços baixos. Eu recordo-me que quando a easyJet começou a voar há 20 anos atrás, o preço que oferecíamos no voo Londres-Glasgow, é exatamente o preço que ainda hoje continuamos a oferecer. Isso é possível com uma operação atenta aos custos e ao volume. Neste momento, transportamos cerca de 70 milhões de passageiros ao ano. O volume é um fator-chave no nosso modelo de negócio, além da eficiência e de manter as coisas simples. Ou seja, vendemos aquilo que o passageiro precisa e não o que é supérfluo. Com isso, o cliente pode construir os pacotes de serviços que quer adquirir a preços acessíveis, o que por outro lado, mantém o nosso trabalho simples, eficiente, barato e sustentável. Uma das coisas que as pessoas se têm esquecido de referir é que esta onda de falências inclui a Alitalia que é uma companhia legacy, e um dos grandes estandartes da aviação à moda antiga antiga. É importante fazer é uma análise aos relatórios de contas das companhias e ver quais são sólidas. A easyJet apresenta aos seus acionistas balanços extremamente sólidos e consolidados. Somos um vencedor no mercado da aviação por inerência. Somos uma das cinco maiores companhias de aviação da Europa, a maior companhia individual de aviação no Reino Unido, a segunda maior em França e somos uma companhia pan-europeia que vai continuar a crescer com um modelo que é, sem dúvida, um modelo vencedor, porque associa simplicidade, tarifas acessíveis e qualidade de produto para os clientes.
Como encara as recentes obras de remodelação do Aeroporto Internacional de Faro?
A easyJet encara a remodelação como algo que era necessário. Só pecou por tardio. Aliás, aproveito esta entrevista para deixar um louvor a todos os nossos funcionários, pois foi difícil viver num ambiente de obra constantes. E também aos nossos passageiros que durante esse período não desfrutaram das condições ideias. É claro que hoje o Aeroporto de Faro apresenta melhores condições para o nosso passageiro e isso é de grande importância. Ainda faltam pequenos detalhes, que vão permitir aumentar um pouco o espaço destinado aos passageiros não-Schengen. Isso muito importante porque se trata do último cartão de visita da região. Mais de 90 por cento dos passageiros que chegam a Faro são visitantes exteriores que vêm visitar e conhecer o Algarve. O último cartão de visita no seu regresso a casa é a área de embarque não-Scheguen, por onde passa a maior parte do tráfego em Faro.
O «brexit» preocupa a vossa companhia?
Nas operações entre o Reino Unido, a Europa e Portugal, o impacto que poderia ter tido, já aconteceu, que foi a desvalorização da libra. Acreditamos e temos abordado o tema com proximidade junto de vários governos de países onde operamos, e também na Comissão Europeia. Acreditamos que em relação aos direitos de tráfego entre o Reino Unido e os países comunitários se chegará a uma solução. O mercado de aviação com origem no Reino Unido representa 25 por cento do total europeu. Há uma coisa que o «brexit» não mudou que é o clima no Reino Unido. Vai continuar a chover e as pessoas vão continuar a querer procurar destinos de sol para ir de férias, entre eles, o Algarve. Isso é algo que qualquer decisão política não muda. Vai continuar a haver necessidade de fluxos de turismo. Também os fluxos de negócio vão continuar a existir. Todas as partes teriam demasiado a perder. Terá que se encontrar uma solução para que o mercado aeronáutico continue a funcionar como até agora.
Há quem tema quebras no mercado britânico, desde sempre o mais fiel cliente da região algarvia. Qual a sua opinião?
Um alerta que nunca me canso de fazer, é que os passageiros britânicos estão neste momento a sofrer o impacto de uma libra desvalorizada. Ouvi comentários ao longo deste ano, do sector turístico do Algarve, a queixar-se que o número de passageiros britânicos estava a diminuir. Bem, isso não é devido a operadores como a easyJet, porque como disse, estamos a crescer 20 por cento no nosso tráfego. É importante que os hoteleiros algarvios tenham consciência que uma fatia importante dos seus clientes têm agora menos poder de compra, porque a libra está a desvalorizar pós-votação do «brexit». Se calhar, para que este destino continue a trabalhar e a crescer no futuro, rever a política de preços. Ou seja, é necessário tentar ganhar dinheiro, mas não ganhar tudo hoje. Todos nós somos empresas privadas, temos de ganhar dinheiro para os nossos acionistas, mas é vital que o preço que nós praticamos seja um preço justo e que se enquadre à procura e à capacidade da procura. E aqui, também, uma vez mais, a política da ANA – Aeroportos de Portugal, de continuamente aumentar as taxas aeroportuárias também não ajuda, uma vez que as companhias de aviação estão a fazer um esforço por manter os tráfegos a fluir e a crescer, numa altura que em que já vamos em quatro anos de quebras na tarifa média no mercado internacional. Não devem ser apenas as companhias aéreas a fazer um esforço. Deve ser toda a rede de suporte, todas as empresas a jusante que devem partilhar esse esforço. Sei que a ANA tem um modelo que lhe permite aumentar preços quando o tráfego aumenta, mas deveria ter atenção e partilhar o risco associado ao crescimento.
Companhia enche 174 aviões para Faro em 24 horas
Na quarta-feira, 27 de setembro, a easyJet organizou mais um Innovation Day no Aeroporto de Gatwick, em Londres. Nesta data que foram colocados à venda os primeiros bilhetes para o verão de de 2018. «Batemos um recorde. Dos cinco destinos TOP vendidos nesse dia, dois foram nas rotas Bristol – Faro e Gatwick – Faro. Mais curioso ainda foi que em número de passageiros, nesse primeiro dia, vendemos o correspondente a 174 aviões cheios para Faro, ou seja, 27 mil lugares para o próximo ano», revelou José Lopes, diretor comercial para Portugal da easyJet, em entrevista ao «barlavento». Apesar de a oferta total rondar 1,7 milhões de lugares, «é uma procura muito significativa. Estamos a falar de um destino muito popular e queremos continuar a trabalhar com todos os players para que as pessoas continuem a querer voltar e a descobrir o destino Algarve. E todos os que aqui venham pela primeira vez se tornem passageiros cativos, que possam ter aqui segunda habitação, porque o destino é fabuloso».
Residentes não-habituais: falta a profissão de comandante na lista
A atual falta de comandantes é um problema que está a condicionar o crescimento da easyJet em Portugal. Não os há no país. E importar no estrangeiro é difícil. Isto porque a companhia diz não usar subterfúgios legais para a contratação de pessoal, e cumpre todas as obrigações fiscais e legais em vigor no país. O problema é que o atual regime fiscal para residentes não-habituais exclui a profissão de comandante. Ou seja, não podemos oferecer no nosso país condições atrativas para contratar pessoas com o cargo mais elevado na profissão de piloto», lamenta José Lopes, diretor comercial da easyJet em Portugal. «Há regimes na Europa que são mais favoráveis. Por exemplo, em Espanha, os comandantes levam mais 30 por cento do salário líquido. É lamentável porque se trata de uma profissão de alto valor acrescentado, que se enquadra perfeitamente neste quadro jurídico. Em Portugal, a easyJet paga mais de 5 milhões de euros em impostos relacionados com o trabalho. Poderíamos, a médio prazo duplicar esta verba.
