O 25 de Novembro de 1975 em Portugal é um marco histórico fundamental e não deve ser reduzido a um instrumento de polarização política entre a esquerda e a direita.
Este dia representa um momento crucial na consolidação da democracia portuguesa, quando diferentes correntes políticas se confrontaram sobre o rumo do país, após a Revolução dos Cravos. Durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso), Portugal viveu um período de grande instabilidade, com uma luta ideológica intensa, especialmente entre os sectores mais radicais e aqueles que defendiam uma transição democrática equilibrada.
O 25 de Novembro simboliza um ponto de viragem, onde forças moderadas intervieram para evitar um rumo autoritário e garantir a estabilidade política, sem comprometer os princípios democráticos conquistados pela Revolução.
No entanto, ao longo dos anos, esta data foi frequentemente tratada de forma polarizada, com interpretações ideológicas que alimentaram divisões entre as forças políticas. Hoje assistimos a uma escalada de narrativas retóricas que se sobrepõem à objetividade dos factos.
O 25 de Novembro não deve ser visto como uma batalha ideológica, mas como o momento em que se assegurou o futuro democrático de Portugal, consolidado com a Constituição de 1976, evitando que o país caísse em extremismos. Reduzir este evento a uma disputa entre a esquerda e a direita é ignorar a sua verdadeira importância: a preservação da liberdade, da democracia e do Estado de Direito.
É cada vez mais evidente que os espectros político-ideológicos tradicionais já não refletem com precisão as complexas questões que enfrentamos. A sociedade contemporânea está a atravessar uma fase de grande diversidade de opiniões e movimentos, nos quais as fronteiras ideológicas se tornam muito mais fluídas.
A ascensão de novos partidos e movimentos, que transitam entre as diferentes ideologias ou apresentam propostas híbridas, demonstra que as divisões ideológicas históricas estão a perder relevância.
A política convencional tem revelado imensas limitações em enfrentar os grandes desafios globais que nos afligem. Problemas como as alterações climáticas, a preservação da natureza, da biodiversidade, dos nossos recursos, as desigualdades sociais, a pobreza e a globalização exigem uma mudança de abordagem. Estes problemas, que afetam a nossa própria sobrevivência e o futuro do planeta, não podem ser resolvidos com soluções desatualizadas que não dão conta da urgência e complexidade dos tempos atuais.
Também por isso, o 25 de Novembro não deve ser visto apenas como uma data para refletir sobre as divisões ideológicas, mas como um lembrete de que a política deve ser adaptada aos novos tempos.
A principal lição que retiro é que, em momentos de grande transformação, valores como a liberdade, os direitos humanos e a preservação da vida no planeta devem estar acima de qualquer interesse partidário e que, em vez de usar o 25 de Novembro como símbolo de confronto político, devemos lembrá-lo como um momento de aprendizagem sobre a importância de defender valores imperativos que devem prevalecer acima de disputas ideológicas estéreis.
Sobretudo, a política tem que responder às urgências do nosso tempo e adaptar-se aos desafios sociais, ambientais e globais de hoje. É a única forma de garantirmos o amanhã.
Quanto a nós, cidadãos, só poderemos fazer parte da solução se o nosso legado for construído sobre um compromisso consciente, crítico e ativo. Vamos a isso! Viva a Democracia!
Paulo Baptista | Deputado independente na Assembleia Municipal de Faro