O fascínio do Cinema. Potência maior de vida concentrada. Aprofundada. Ampliada nos dias de hoje com muitos filmes baseados em histórias verídicas. Narrativas de vida dramatizadas/intensificadas pela ficção. Vem isto a propósito do filme Ainda estou aqui de Walter Salles.
Aqui a amarga realidade da ditadura militar no Brasil (1964-1985) adquire corpo e rosto na história de uma família que vê a alegria de vida desmoronar-se com o desaparecimento do pai. E a corajosa luta da mãe, em busca da verdade e pilar da família, numa desassombrada e admirável interpretação da atriz Fernanda Torres. Assim abordada, a ferocidade opressiva da ditadura não é uma abstração noticiosa ou explicação científica de um passado ausente, encarna no presente emocional dos espectadores.
No fim, ouviram-se palmas, o que é estranho numa sessão comercial, apenas costuma acontecer nos festivais de cinema. A sala envolta num silêncio de contidas emoções, com as pessoas ainda sentadas, sem pressa de sair no decorrer do genérico final.
- Tudo isto acontece, a identificação sensível da nossa humanidade projetada no ecrã, porque o filme é muito bom na mestria da realização, filmado com naturalismo, contando com um extraordinário elenco de atores que tornam real e comovente o seu desempenho. Gostaria de salientar também a banda sonora de Warren Elis (Bad Seeds, irmão criativo de Nick Cave).
- Este é um filme muito oportuno e atual, político, um alerta ao nosso tempo. Somos percorridos por um arrepio de consciência que nos leva a pensar – Como foi possível Bolsonaro, defensor da ditadura, ter sido eleito presidente do Brasil?!… em eleições livres e com milhões de apoiantes. Ele, um dos convidados de Trump para a cerimónia de tomada de posse, na qual não esteve presente por estar impedido de sair do país. Mas esteve em Washington, Meloni, primeira-ministra italiana, líder de um partido neofascista. E os líderes da extrema direita europeia no poder ou prestes a lá chegar rejubilam com todo o apoio financeiro e ideológico que terão da nova administração norte-americana. Com Putin, a Leste, esfregando as mãos de contentamento com o novo camarada da Casa Branca. E a pragmática e capitalista China comunista desejosa de fazer negócios espaciais com Elon Musk.
- Talvez uma longa noite caia sobre uma abandonada Europa. As estrelas, obscurecidas pelo clarão explosivo dos mísseis, poderão até voltar a brilhar no céu noturno e frio da Ucrânia, mas então de novo a afirmação violenta do mais forte triunfará sobre a lei internacional, os direitos humanos e de autonomia dos povos.
Ainda estamos aqui. Inquietos ou tranquilos. Mais ou menos pessimistas. Mas este sombrio e nada admirável novo mundo que se desenha no horizonte, poderá também ter implicações neste recanto solar do extremo sudoeste do continente europeu. A História sempre nos bate à porta e insiste em entrar.
Paulo Penisga | Professor