Há alguns anos começou, lentamente, a ser introduzido nas nossas vidas pequenos formulários. Que foram pouco a pouco tomando conta de tudo e, de repente, vimo-nos encurralados e obrigados a perder parte significativa da nossa vida útil a preencher inúteis formulários. Pode parecer uma questão menor, mas garanto que não é: os formulários, e tudo aquilo que subjaz a esta ideia, obedecem a uma lógica de controlo neoliberal e pseudocientífico que torna tudo, aparentemente, transparente, outra falácia dos tempos que correm, a tal da transparência.
Que fique muito claro que nada tenho contra avaliações e que os professores universitários, ou outros quaisquer, podem e devem ser avaliados, porque somos responsáveis pela formação de gerações e temos de fazer bem o nosso trabalho. Mas sou contra o método escolhido, que complica tudo com perguntas infinitas, como se a ideia fosse vencer a todos pelo cansaço. Recentemente foi publicado o resultado de uma investigação que provava que os alunos avaliam mal aos professores, porque só avaliam bem aqueles que lhes dão boas notas, e não aos que realmente lhes ensinam e que, eventualmente, dão notas menos inflacionadas.
E isto é grave porque a avaliação feita pelos alunos faz parte do nosso processo de avaliação, bem como o preenchimento constante e insano de plataformas, oficiais e extraoficiais, como o Academi.edu, o Kudos ou o Research Gate e tantas outras que mostram ao mundo que produzimos e o que produzimos. Por que não tornar o processo mais sensato? Termos o CV numa única plataforma e sermos avaliados por ele, que representa o nosso trabalho, aquilo que fazemos e o que devemos fazer. E também aquilo que não fazemos.
Mas talvez achem que isto não é científico, porque não envolve tabelas excel nem contas feitas a partir de variáveis e de algoritmos complexos. Estando dentro do sistema e conhecendo o seu funcionamento, posso dizer que não são os melhores que apresentam melhores currículos ou que obtêm mais pontos nas suas avaliações.
São os que obedecem a forma de produção contemporânea, que escrevem os textos com as palavras de ordem e que estão envolvidos, de alguma forma, num lobby que lhes permite acesso a bolsas e a fundos europeus. Há certamente os que ganham projetos por mérito. Mas a maior parte responde apenas a demanda atual da produção de um tipo de conhecimento esvaziado de sentido e que ninguém, efetivamente, lê.
Reencontrei na semana passada um velho amigo, ilustre professor emérito de uma universidade italiana, um dos maiores intelectuais da sua área. Ele dizia, com muita graça, que hoje, quando vemos uma publicação, aparece sempre a indicação do projeto que a financiou, com números e códigos, como se fosse isto que desse o lastro ao texto.
Ele disse que agora, quando publicar algo, vai dizer que foi produzido com o apoio dele mesmo, e escreve lá o seu número do BI/CC, prova incontestável da validade do conhecimento ali partilhado. São tempos obscuros estes da dita transparência. Porque os formulários são o resultado de uma ideologia que obriga todos a perderem tempo, fingindo que produzem e o que realmente interessa, produzir cultura, conhecimento, arte e ciência, fica esquecido. Porque não há tempo para tudo.
Opinião de Mirian Tavares | Professora da Universidade do Algarve | [email protected]