A história tem um princípio simples. Quando a filha Vitória nasceu, Nuno Campos Inácio decidiu fazer uma árvore genealógica da sua própria família. Uma investigação privada que acabou por se tornar numa tarefa hercúlea que já soma vários anos e mais 200 mil entradas sobre os antepassados dos algarvios.
O projeto «Genealogia do Algarve» foi apresentado no dia 12 de setembro de 2009, apenas com dados da freguesia de Portimão. Hoje «tem uma série de funcionalidades possíveis. O primeiro tem a ver com a curiosidade, pois permite às pessoas conhecerem as suas raízes, de onde vieram. Depois, serve para todo o tipo de investigação científica. Possibilita o cálculo de taxas de natalidade, de mortalidade, ou médias de idade ao casamento. Permite ver, por exemplo, a evolução da população dos municípios. Pode ser útil para resolver problemas de partilha de heranças, ou em situações de cidadãos estrangeiros que se candidatam à nacionalidade portuguesa», explica Nuno Campos Inácio.
Só para se ter uma ideia, fazer o levantamento de uma freguesia, «demora entre 18 meses a três ou quatro anos». É preciso analisar documentos como registos paroquiais (que, por exemplo, no caso de Portimão, começam em 1575) – onde estão anotados os casamentos, batizados e óbitos – e introduzir essas informações, uma a uma, num programa informático.
A base de dados de livre acesso contém informação relativa aos municípios de Albufeira (35 370 indivíduos), Lagoa (41 550 indivíduos), Monchique (22 710 indivíduos), Portimão (58 890 indivíduos) e Silves (36 090 indivíduos).
Monchique, destino de transmontanos
Mas a genealogia é muito mais que um inventário de nomes de antepassados. Cada registo implica o redescobrir de biografias anónimas, de história de vidas que fazem a nossa memória coletiva, de onde vimos e para onde fomos.
«Descobri com curiosidade que Monchique, no século XVI, foi uma terra povoada por gente vinda do Porto e de Trás-os-Montes. É curioso pensar o que é que terá motivado estas pessoas a virem para cá?»
«Outro dado curioso é que Portimão é a freguesia com mais abertura ao exterior, que tem mais ligações familiares com outras localidades do resto do mundo. Já desde o século XVI temos alemães, italianos, franceses que para cá vieram e ficaram e ainda hoje têm descendentes. Na atualidade, muitos perderam os apelidos, mas em todo o caso, esses vínculos mantêm-se».
«Albufeira era uma freguesia estranhamente fechada. É verdade que só temos registos a partir de 1833. No entanto, percebe-se que era uma terra muito bairrista. Por exemplo, as mulheres do Sítio das Terras Novas, na esmagadora maioria dos casos, só se casavam com homens conterrâneos. Provavelmente havia uma rivalidade muito forte entre as pequenas terras ao redor de Albufeira. E eram extremamente fechados ao exterior. Isto é mais estranho ainda, porque estamos a falar já do século XIX. E hoje, veja-se a cidade turística que se tornou. Conseguimos ver de forma clara, a capacidade dos homens em fazerem mudanças, inclusive de mentalidades», considera Nuno Campos Inácio.
«Outra coisa que que se nota, e que ao contrário do que se diz, que antigamente não existia mobilidade, isso é falso. Por exemplo, Portimão tem no século XIV uma grande população vinda de Setúbal. Muita gente de Sesimbra e de Cascais. Depois, enquanto cidade portuária, tem gente vinda de Tanger», por exemplo.
Escravos negros adotavam apelido dos donos
A implantação da inquisição teve um impacto profundo na antiga sociedade portuguesa. «Provocou um grande êxodo de pessoas. Portimão tinha uma grande comunidade judaica no século XVI. Existem muitas descendências, mas muitos foram-se embora e não tenho nenhuma informação sobre eles».
O mesmo terá acontecido aos árabes que ainda por cá viviam no Algarve.
Para o bem ou para o mal, a genealogia também revela quem somos, quer individual, quer coletivamente. «Se pegarmos numa determinada família de proprietários do século XIX, naturalmente que os seus descendentes hoje têm um estatuto diferente daqueles de descendem de lavradores desse período», compara.
Já que se fala em mobilidade social (ou na falta desta), a base de dados tem registadas centenas de escravos negros que passaram pelo Algarve.
«Os mais antigos que tenho registo, vieram da Guiné e os mais recentes de Angola». As referências datam do século XVI, e incluem outras populações ditas marginais, como os ciganos. «A partir do momento em que se estabeleceu a inquisição, todos eles tinham que ser baptizados».
Então, recebiam nomes portugueses. «Alguns, mais tarde, adotavam o apelido do dono. É por isso que hoje encontramos pessoas de cor com certos apelidos que ficamos a pensar qual terá sido a origem», considera.
«O nome próprio do escravo era escolhido pelos seus padrinhos de batismo. Normalmente eram familiares do dono. Na maior parte dos casos, temos essas referências».
O próprio Nuno Inácio descobriu que descende de uma das últimas escravas de Monchique – uma mulher chamada Joana Maria. «Ela seria trisavó do meu avô».
«Foi escrava do Tenente André Metelo. O filho dela ainda era escravo e teria nascido por volta de 1750. Depois, deve ter casado com uma mulher livre, porque os filhos, em 1800 já não eram escravos. Ou então terão conhecido a libertação», revela.
Saber tudo isto «permite-nos olhar para as pessoas de uma outra forma. Existem questões de racismo, aliás, acho que é próprio de cada raça achar que é melhor que a outra. Mas isso é uma falsa questão. Não existem raças, apenas uma grande mistura. Apesar de alguém como eu ser muito branquinho, a verdade, é que tem genes que não têm nada a ver» com a aparente cor da pele.
Algarvios tinham «uma cadeira e um burro»
Ainda recuando ao Algarve do século XIX, o analfabetismo «era gritante. Numa localidade pequena, por exemplo, como a Guia, que teria cerca de 1000 pessoas, só 20 ou 30 saberiam ler e escrever». Era uma sociedade muito hierarquizada.
Portanto, «tivemos uma evolução brutal no último século, em termos humanos. Quando vemos um inventário orfanológico» – a lista obrigatória de bens de alguém que morria tendo um filho menor – «percebemos isso. As pessoas tinham uma mala, lençóis, uma cadeira, havia quem tivesse um burro, e mais nada».
«E até ao século XIX, todo o Algarve tinha mais ou menos a população que hoje Portimão tem, cerca de 50 mil pessoas. Era praticamente um deserto».
Perguntamos a Nuno Campos Inácio que mais tem aprendido com este estudo dos ancestrais?
«Somos todos primos. Estou a falar em algarvios primitivos, que tem pelo menos cinco gerações de pessoas do Algarve. Só para ter uma ideia da dimensão disto, eu fiz o levantamento de Portimão e descobri 10 mil pessoas de Lagoa. Ou seja, as pessoas que são hoje de Portimão, os seus ascendentes já eram de Lagoa. Existe uma grande ligação familiar entre as pessoas destes dois concelhos. Pegamos na listagem para ver a descendência e vemos que somos mesmo todos primos», garante.
O mito do terramoto de 1755
Uma das ideias comuns associadas ao estudo da genealogia em Portugal, é que apenas se pode recuar até ao tempo do Marquês de Pombal. Isto porque o grande terramoto de 1 de Novembro de 1755 e os incêndios que se seguiram, terão destruído muitos registos nas igrejas. O investigador algarvio desfaz esse mito.
«Há algumas freguesias onde isso aconteceu, mas foram muito poucas. O que acontece é que às vezes nalguma freguesia desapareceu um livro, e fica ali um espaço de 20 ou 30 anos sem registos. Às vezes perdem-se coisas, mas não nessa dimensão. Por exemplo, em Portimão, existem registos desde 1575. Em Faro, também. Em Loulé há livros desde 1560».
Noutras freguesias, praticamente desde o século XVII todas têm. Uma exceção é Albufeira, porque muitos livros foram destruídos pelas guerrilhas do Remexido já no século XIX.
«Normalmente, existem registos a partir do século XVI e é possível recuar 25 gerações a partir da atualidade», diz.
E na genealogia de certas famílias nobres, é possível recuar até ao tempo de Ramsés I. «Sim, entramos no campo da monarquia», onde é mais fácil seguir as linhagens.
Pode parecer ironia, mas são os tempos modernos que mais problemas causam ao investigador.
«Por causa da lei da proteção de dados, só podemos ver registos com mais de 100 anos. Isto faz com que o projeto pare a partir de 1910».
Uma solução «é convidar as populações a fornecer voluntariamente dados contemporâneos». Por outro lado, parte mais recente dos levantamentos – de 1850 a 1910 – apenas está disponível no Arquivo Distrital de Faro.
Cada caso é um caso e cada freguesia não tem nada a ver com outra “No caso da Guia, fiz o índice onomástico. Isto é algo que se faz para ver a evolução dos nomes, desde o século XVI, em intervalos de 50 anos. É engraçado porque percebemos que os nomes deste período não têm nada a ver com os atuais. Também dá para fazer este estudo pelos apelidos para se perceber quais as famílias mais antigas e numerosas», explica.
Ainda em relação aos nomes, tal como os entendemos hoje, são uma formalidade recente.
«Temos de ter consciência de uma coisa. Até 1910, toda a gente só tinha um único nome próprio. Depois, compunham o resto do nome noutras alturas da vida. Quando faziam o crisma, ou quando casavam, ou quando atingiam a maturidade». Então, tinham várias opções à escolha. Podiam adotar o apelido do pai, da mãe, ou então o nome próprio destes como seu próprio apelido. Ou então, o apelido do padrinho.
«Isto fazia com que houvesse cinco ou seis irmãos, cada um com o seu apelido. Só com a implantação da República é que as pessoas recebem o nome completo ao nascimento».
Da Inquisição à igreja dos Mórmons
Outra fonte de informação são os processos do tribunal do santo ofício (Inquisição), do início do Século XVI e com os quais Inácio diz ser possível recuar mais, até meados do século XV.
Também são dignos de nota as chancelarias régias e processos de habilitação às ordens religiosas – documentos estes que serviam para as pessoas «provarem a pureza do sangue» e o seu «estatuto» social, por exemplo, para poderem ser armados cavaleiros.
Mas há mais. «Outra fonte de informação importante tem a ver com os morgados, que eram propriedades de grandes dimensões que não podiam ser divididas entre herdeiros. Passavam sempre para o filho varão mais velho, que a recebia, e ficava com o encargo de sustentar os irmãos. Percorrendo a passagem dessas grandes terras, ficamos a conhecer a genealogia dessas pessoas».
Todos estes documentos estão em português arcaico, escritos à mão. Decifrá-los «é uma questão de hábito». Em média, «perde-se ali uma hora até se entrar na caligrafia», contabiliza.
A base do trabalho deste investigador é uma máquina de ler microfilmes, os quais adquire à Torre do Tombo, em Lisboa. Uma curiosidade é que todo o trabalho de digitalização deste material histórico tem sido feito pelos mórmons por questões que têm a ver com os credos desta religião, e «que não me cabem a mim discutir», diz Nuno Campos Inácio.
«Os mórmons têm o maior acervo mundial de documentos. Têm acordos com vários Estados para fazerem esse tipo de tratamento, a troco de uma cópia do trabalho realizado. E ainda bem que o fazem, porque senão hoje teríamos de ir a Lisboa» fazer as pesquisas.
«Aliás, basta ir a qualquer templo mórmon» como o que existe em Faro, «e pedir para consultar os documentos. Todos os genealogistas fazem isso».
Ilustres algarvios e seus descendentes
No próximo ano, o mentor do projeto vai ter que abrandar o ritmo, dado que o município de Monchique cancelou o levantamento. Fica limitado à freguesia do Alferce. A novidade é que em breve serão disponibilizados os dados sobre o município da Vila do Bispo.
Nuno Campos Inácio tem recuperado assim para a memória coletiva centenas de milhar de pessoas cuja existência só se conhece através da consulta de documentos antigos, principalmente desde o séc. XV ao início do séc. XX, organizando-os no tempo, no espaço, na família e na sociedade correspondente, como um puzzle gigantesco.
A esses anónimos, liga figuras históricas da região algarvia ou ilustres descendentes de algarvios, surgindo no portal nomes como Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Eça de Queirós, Mouzinho de Albuquerque, Alexandre O’Neill, Ramalho Ortigão, Chico Buarque e José Mourinho.
Além dos 200 mil nomes, há mais de 2 milhões e 500 mil dados registados, divididos entre nome, apelido, filiação, data de nascimento, data de casamento, data de óbito, local de nascimento, local de óbito, residência, freguesia, profissão, título, estatuto social, causa da morte, notas biográficas e fotografias.
O projeto pode ser consultado em http://www.genealogiadoalgarve.com/

