Vela adaptada em Loulé aproxima saúde mental, inclusão e desporto náutico no projeto «Navegar pela Mente», sediado na Marina de Vilamoura.
O projeto «Navegar pela Mente» leva crianças, jovens e adultos com doença mental ou diversidade funcional para a prática de vela adaptada na Marina de Vilamoura.
Promovida pela Associação Teia D’Impulsos, a iniciativa surgiu no concelho de Loulé há um ano e meio e tem como parceiros o Município e o Clube Internacional da Marina de Vilamoura (CIMAV).
O projeto envolve ainda quatro instituições do concelho: EXISTIR, UNIR, Associação de Saúde Mental do Algarve (ASMAL) e Agrupamento de Escolas Padre João Coelho Cabanita.
A Marina de Vilamoura recebeu um dia aberto do projeto a 8 de junho, com o objetivo de dar a conhecer à comunidade o trabalho desenvolvido através da vela adaptada.
Segundo a Teia D’Impulsos, o «Navegar pela Mente» promove igualdade de oportunidades, inclusão social, bem-estar e desenvolvimento de competências pessoais e sociais através da prática de modalidades náuticas.
O projeto nasceu em Portimão, ligado ao desporto adaptado para jovens com deficiência motora, mas passou a focar-se também na doença mental após a pandemia.
Luís Brito, presidente da Teia D’Impulsos, explicou que a ideia passou por colocar pessoas com doença mental a navegar, numa resposta a uma problemática que ganhou maior expressão com a COVID-19.
A expansão para Vilamoura surgiu através de uma candidatura ao Portugal Inovação Social, que exigia parcerias locais. Na mesma altura, o CIMAV preparava a inauguração de um novo pontão na Marina de Vilamoura.
Atualmente, a procura e a falta de respostas na região levaram o projeto a concentrar a atividade no concelho de Loulé.
O projeto funciona ao longo de todo o ano, com maior intensidade durante o calendário escolar. O clima do Algarve permite a prática da vela em todas as estações.
«O Navegar pela Mente foca-se na pessoa com doença mental, e aqui o espetro em termos etários é total. Tentamos que todos tenham a oportunidade de ter esta experiência e que esta se torne uma atividade regular, que as ajude a desenvolver competências, que são muito básicas para nós, mas que para eles são difíceis de gerir», afirmou Luís Brito.
A operação na Marina de Vilamoura conta com instalações adaptadas para a prática de vela adaptada.
Isolete Coreia, presidente do CIMAV, destacou a construção de um pontão dedicado a esta atividade, com apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e da Câmara Municipal de Loulé.
Todas as quartas-feiras, jovens e adultos integrados no projeto deslocam-se à Marina de Vilamoura para contactar com o meio náutico. «Ficamos muito satisfeitos pelo retorno positivo das associações», referiu Isolete Coreia.
O acompanhamento técnico junta competências desportivas e terapêuticas. O CIMAV disponibiliza dois treinadores qualificados em vela adaptada, que trabalham com os técnicos da Teia D’Impulsos e com uma terapeuta ocupacional.
Para as instituições do concelho que apoiam pessoas com deficiência e doença mental, a vela adaptada tornou-se uma atividade regular para os utentes.
Miguel Mendes, técnico da Associação EXISTIR, sublinhou que «o trabalho em parceria é a chave do sucesso». A associação organiza grupos rotativos de cinco utentes, provenientes de diferentes salas da instituição.
«Temos criado estas rotinas às quartas-feiras, com grupos variados, e depois eles conseguem preparar-se para vir, já têm a noção de que à quarta há a vela. Têm que ser ensinados porque muitos deles não percebem a evolução da semana», explicou.
No contexto escolar, o Agrupamento de Escolas Padre João Coelho Cabanita prepara um novo protocolo para o próximo ano letivo, com o objetivo de aumentar as saídas de campo para uma frequência mensal.
António Pedro Santos, coordenador do Departamento de Educação Especial do agrupamento, referiu que a iniciativa começou com duas sessões por período letivo e teve resposta positiva dos alunos com maiores limitações.
«Esta é uma forma de otimizar as capacidades destes miúdos e torná-los mais funcionais na sua vida. Desde logo com o facto de estarem na água, que é um meio estranho, eles ganham outra confiança e autoestima», adiantou o professor.
Segundo Luís Brito, o «Navegar pela Mente» assume-se como um projeto único no país, por se focar especificamente na doença mental.
O presidente da Teia D’Impulsos referiu ainda que existem cerca de cinco ou seis clubes em Portugal a trabalhar na área da deficiência motora, mas que a associação é a única a centrar a resposta na doença mental.
O crescimento do projeto em Vilamoura traz desafios logísticos e materiais, uma vez que a embarcação adaptada atualmente em uso foi deslocada de Portimão de forma provisória.
A associação pretende fixar uma embarcação própria em Vilamoura, com características que permitam a entrada e permanência de pessoas com limitações severas.
Telmo Pinto, presidente da Câmara Municipal de Loulé, assegurou que o apoio ao projeto vai manter-se.
«O desporto é uma das ferramentas mais poderosas de coesão, inclusão e transformação social de que dispomos. Ao trazer a prática da vela adaptada para o centro da estratégia de promoção da saúde mental e do bem-estar de cidadãos com vulnerabilidades ou deficiência, o Navegar pela Mente materializa de forma perfeita a visão estratégica desta autarquia: um desporto verdadeiramente inclusivo e acessível a todos», opinou.
Fotos: Mira / Câmara Municipal de Loulé.





