25 de Abril é uma data em que celebramos com um sentimento especial. Celebramos uma conquista coletiva que transformou Portugal num país livre, plural e democrático.
Contudo, há uma falácia que importa contrariar: a ideia de que a liberdade é um ponto de chegada. Trata-se, sim, de um processo contínuo, complexo e exigente, que se constrói por todos, dia a dia.
A democracia portuguesa nasceu da coragem de quem ousou romper com o conformismo. Hoje, o maior risco que vivemos não está na ausência de liberdade, mas sim na ilusão de que ela é garantida por inércia.
A liberdade desgasta-se quando é banalizada e colocada «em segundo plano», fragiliza-se quando deixa de ser vivida e perde-se, lentamente, quando deixamos de a questionar.
Há um sinal claro de que esse risco existe quando observamos a dificuldade crescente de uma geração em viver plenamente essa liberdade.
Portugal tem a geração mais qualificada de sempre. Jovens capacitados e bem informados, mais próximos do que o mundo oferece, mas, paradoxalmente, também enfrentam grandes dificuldades em alcançar a sua autonomia. Uma geração que, apesar do seu esforço e mérito, vê adiada a possibilidade de construir uma vida independente.
Os dados apresentados no mais recente estudo do Conselho Nacional de Juventude, «ID Jovem», são claros: observamos que a maioria dos jovens não consegue ser financeiramente autónoma, uma larga percentagem continua a viver com os pais e apenas uma minoria consegue viver sozinha. Trabalhar já não é uma garantia de independência e, para muitos, é apenas garantia de sobrevivência.
Este é um dos maiores desafios da democracia contemporânea, porque a liberdade não se esgota no direito de votar, de falar ou de escolher. A liberdade também se mede na capacidade de decidir o próprio caminho de vida, de sair de casa, de constituir família, de projetar o seu futuro com estabilidade.
Hoje, essa liberdade está condicionada: o acesso à habitação tornou-se a maior barreira no caminho da emancipação, o custo de vida continua a crescer a um ritmo superior ao dos rendimentos dos portugueses, e o mercado de trabalho está marcado por atividades laborais precárias e baixos salários. São fatores que claramente não acompanham o investimento que os jovens fazem no seu percurso formativo.
O resultado é evidente: temos uma geração qualificada, mas limitada; preparada, mas muito pouco emancipada. E engane-se quem acredita que o problema é meramente económico, porque, se uma democracia não garante condições mínimas de autonomia às suas novas gerações, corre o risco de se afastar delas.
Ao mesmo tempo, importa desmontar um mito persistente: o de que os jovens estão afastados da política, porque não estão. Os jovens participam, mobilizam-se, intervêm — simplesmente fazem-no de forma diferente. Concordo que o fazem cada vez menos através de estruturas ditas tradicionais, mas, em contrapartida, fazem-no cada vez mais através de causas, de movimentos e de iniciativas concretas. O problema não é a falta de participação, mas sim a falta de correspondência entre essa participação e a capacidade de influência real na tomada de posição dos decisores políticos.
Quando os jovens sentem que não são ouvidos nem considerados com a notoriedade que merecem, participam menos. Não por desinteresse, mas por desconfiança. É aqui que recai uma responsabilidade particular sobre os partidos políticos que fundaram e continuam a ser o pilar da nossa democracia.
Estes partidos têm um legado que merece respeito; contudo, também têm o dever e a responsabilidade de se adaptar. Isto porque a sociedade mudou, as exigências são outras. A democracia não pode viver de modelos fechados, nem de lógicas que dificultam a integração de novos perfis, novas ideias e novas formas de participação. Tal como nos ensinou Charles Darwin, «não são os mais fortes que sobrevivem, mas sim os que melhor se adaptam».
A realidade dos jovens mostra-nos que os problemas não surgem isoladamente. Uma educação desajustada dificulta a entrada no mercado de trabalho. O trabalho precário limita os rendimentos. Rendimentos insuficientes impedem o acesso à habitação. A ausência de autonomia prolonga a dependência. Este ciclo tem impacto direto no bem-estar, na estabilidade emocional e na confiança que um jovem sente no seu projeto de vida.
Não estamos perante falhas pontuais; estamos perante um bloqueio estrutural à autonomia de uma geração. É por isso que o 25 de Abril, mais do que uma celebração, tem de ser um momento de exigência. Exigência de políticas públicas que respondam ao contexto atual, exigência de instituições mais abertas, mais permeáveis, mais capazes de integrar, e exigência de uma democracia que não trate os jovens como «o futuro», mas sim como parte integrante do presente. Porque uma geração que não consegue viver com autonomia dificilmente conseguirá acreditar plenamente no sistema que a governa.
Uma democracia sem confiança é uma democracia fragilizada. O 25 de Abril ensinou-nos que a liberdade se conquista; hoje, é nossa responsabilidade garantir que a liberdade democrática se perpetua. E isso começa por assegurar que a geração mais preparada de sempre não é também a geração mais limitada de sempre.
A melhor forma de honrar Abril é recordar o passado com orgulho, mas garantir, no presente, que a liberdade se vive (e não apenas se celebra).
Fábio Zacarias | Líder de bancada da Assembleia de Freguesia da Coligação Portimão 2025