Celebrar a Revolução de 25 de Abril de 1974, mais do que um exercício de memória, deve ser um momento de exigência. Exigência política e moral.
Não porque Abril esteja em causa enquanto marco histórico, porque esse está consolidado, mas porque o seu significado continua em disputa, num tempo em que a democracia enfrenta pressões novas, mais subtis e, por isso mesmo, potencialmente mais perigosas. Abril não é um património fechado, não é uma narrativa imutável, nem um ritual anual de celebração acrítica.
É um processo em aberto, uma construção contínua, uma responsabilidade que cada geração tem de reinterpretar à luz dos seus próprios desafios. E é precisamente nesta tensão entre memória e presente que se joga hoje uma parte relevante do futuro democrático português.
A revolução que pôs fim ao Estado Novo não foi um momento perfeito, nem uma transição linear. Foi, como todas as revoluções, um processo complexo, marcado por contradições, excessos e conflitos.
O período revolucionário que se seguiu, até à aprovação da Constituição da República Portuguesa, ficou marcado por instabilidade política, radicalização ideológica e decisões que continuam a ser objeto de debate.
No entanto, reduzir Abril a esses momentos é não compreender o seu significado estrutural. A realidade essencial permanece: Portugal vivia sob uma ditadura autoritária, com censura, repressão política e ausência de liberdades fundamentais.
Abril representou a rutura com esse sistema e abriu caminho à construção de uma democracia pluralista, que, ao longo das décadas seguintes, se consolidou através de eleições livres, alternância de poder, integração europeia e progressos significativos nas condições de vida da população.
É precisamente essa realidade que hoje começa, em certos setores, a ser alvo de uma preocupante relativização. O debate público tem assistido ao crescimento de discursos que procuram colocar em equivalência a natureza repressiva da ditadura e os excessos do período revolucionário, como se ambos fossem manifestações comparáveis de um mesmo fenómeno.
O confronto entre André Ventura e José Pacheco Pereira sobre a questão dos chamados «presos políticos» no pós-25 de Abril ilustra bem essa tendência.
Ao destacar episódios específicos e descontextualizados, constrói-se uma narrativa que dilui a diferença fundamental entre um regime autoritário estruturado e um processo revolucionário transitório, inevitavelmente imperfeito, mas orientado para a construção de um sistema democrático.
Este tipo de discurso não é inocente. Insere-se numa lógica populista que procura simplificar a realidade, mobilizar emoções e criar antagonismos fáceis, frequentemente assentes na ideia de que a democracia falhou nas suas promessas fundamentais.
Este fenómeno não surge no vazio. A ascensão do populismo e dos extremismos em Portugal, à semelhança do que acontece noutras democracias europeias, está profundamente ligada a transformações económicas e sociais que têm vindo a fragilizar a confiança nas instituições.
Durante décadas, a democracia portuguesa foi acompanhada por um processo de convergência económica e melhoria generalizada das condições de vida. A integração na União Europeia, o acesso a fundos estruturais, a expansão da educação e a modernização das infraestruturas criaram um ambiente de progresso que ajudou a legitimar o sistema político. Nos últimos anos, esse ciclo tem dado sinais de esgotamento relativo.
A estagnação salarial, o aumento do custo de vida, em particular na habitação, e a crescente dificuldade de mobilidade social têm afetado não apenas as franjas mais vulneráveis da sociedade, mas também uma classe média que, durante muito tempo, foi o principal pilar da estabilidade democrática.
É neste contexto que o populismo encontra o seu espaço. Quando a percepção de progresso desaparece, cresce a tentação de procurar explicações simples para problemas complexos.
Surgem narrativas que identificam culpados claros («o sistema», as elites, as instituições, os «tachos») e prometem soluções rápidas para questões que exigem respostas estruturais e de longo prazo. Este tipo de discurso tem uma eficácia particular porque apela à emoção e à frustração acumulada, substituindo o debate racional por uma lógica de confronto permanente.
Ao mesmo tempo, alimenta uma visão distorcida da história, onde a ditadura pode ser apresentada como um período de ordem e estabilidade, e a revolução como um momento de caos e traição. Esta inversão narrativa não é apenas historicamente incorreta, é politicamente perigosa, porque mina os fundamentos simbólicos da democracia.
No entanto, limitar a resposta a este fenómeno à denúncia moral ou à correção histórica é insuficiente. O combate ao populismo e ao extremismo exige uma abordagem mais profunda, que passe pela resolução das condições que os tornam possíveis.
E é aqui que emerge uma das grandes falhas estruturais do modelo português: o centralismo excessivo do Estado. Apesar de a Constituição consagrar a regionalização como um objetivo, Portugal continua a ser um dos países mais centralizados da Europa, com uma forte concentração de poder político e administrativo em Lisboa. Esta realidade tem consequências diretas na qualidade das políticas públicas e na perceção de proximidade entre cidadãos e instituições.
A experiência recente, nomeadamente durante as tempestades que afetaram várias regiões do país neste inverno, demonstrou de forma clara a importância da proximidade na resposta aos problemas. Foram os autarcas, e não as estruturas centrais, que conseguiram agir com maior rapidez e eficácia, precisamente porque conhecem o território, estão próximos das populações e têm uma capacidade de decisão mais imediata.
Este exemplo reforça a ideia de que a descentralização não é apenas uma questão administrativa, mas uma condição essencial para o funcionamento eficaz da democracia. Aproximar o poder das pessoas não só melhora a qualidade das decisões, como reduz o espaço para o discurso populista, que se alimenta da distância entre quem decide e quem é afetado pelas decisões.
Ainda assim, seria redutor assumir que a resposta a estes desafios passa exclusivamente por mais descentralização ou por processos de regionalização. A proximidade melhora a capacidade de resposta, mas não substitui a necessidade de visão estratégica, competência política e definição clara de prioridades.
Sem isso, o risco é apenas transferir ineficiências para um nível diferente de decisão. Esta realidade torna-se evidente quando se observa o caso da região do Algarve ou, em particular, do concelho de Silves. O Algarve continua excessivamente dependente do turismo, o que o torna vulnerável a choques externos e limita a diversificação económica e a criação de emprego qualificado.
Em paralelo, a pressão sobre a habitação, a sazonalidade do emprego e o envelhecimento da população agravam desequilíbrios sociais e dificultam a fixação de residentes permanentes.
Em Silves, o concelho tem registado um crescimento económico muito modesto, mesmo comparado com concelhos vizinhos, em grande parte devido à ausência de uma estratégia consistente de desenvolvimento.
A questão da habitação é particularmente reveladora. Num contexto de crise nacional, os níveis reduzidos de construção dificultam a fixação de população jovem e ativa, agravando um ciclo de estagnação.
Ao mesmo tempo, a dependência do turismo, traço dominante do Algarve, evidencia a falta de diversificação económica e limita a criação de emprego qualificado. A estes fatores juntam-se desafios estruturais, como o envelhecimento demográfico e a dificuldade em gerar dinâmicas locais mais exigentes e participativas.
Problemas desta natureza não decorrem da falta de proximidade institucional, mas sim da ausência de políticas locais eficazes e de ambição na condução dos territórios, onde as câmaras municipais deixaram de ser meros atores administrativos locais para serem entidades proativas que competem com outros municípios à escala global, na captação de pessoas, empresas e recursos.
Estes fatores estão interligados e contribuem para um problema mais amplo: a erosão da confiança nas instituições. E é precisamente essa erosão que alimenta o populismo e o extremismo. Quando as pessoas deixam de acreditar que o sistema funciona, tornam-se mais recetivas a discursos que prometem ruturas radicais ou soluções simplistas. Combater este fenómeno exige, por isso, uma resposta que vá além da retórica e que se traduza em políticas concretas capazes de melhorar efetivamente a vida das pessoas.
Aqui, o crescimento económico assume um papel central. Não como um objetivo abstrato, mas como condição para garantir oportunidades, mobilidade social e estabilidade. Uma economia dinâmica e inclusiva reduz o espaço para a frustração e para a procura de soluções extremas. Pelo contrário, a estagnação prolongada cria um ambiente propício à radicalização. Portugal tem, apesar de tudo, uma base sólida sobre a qual pode construir esse crescimento, mas isso exige reformas, investimento e uma visão estratégica clara.
Celebrar o 25 de Abril, hoje, implica reconhecer estas fragilidades e assumir a necessidade de mudança. Implica também rejeitar a tentação de instrumentalizar a história para fins políticos imediatos, defendendo uma leitura rigorosa e equilibrada do passado. E, sobretudo, implica recuperar a ambição transformadora que esteve na origem da revolução. Abril não foi apenas um momento de rutura, foi o início de um projeto de construção coletiva que continua por concluir.
A democracia portuguesa não está em colapso, mas também não está imune a riscos. A sua vitalidade depende da capacidade de responder aos desafios do presente sem perder de vista os princípios fundamentais que a sustentam. Isso passa por reforçar a descentralização, combater o populismo com políticas eficazes e garantir que o crescimento económico se traduz em melhoria real das condições de vida. Só assim será possível evitar que a frustração se transforme em radicalização e que a memória de Abril seja substituída por narrativas distorcidas.
No fundo, a maior homenagem que se pode fazer ao 25 de Abril não é repeti-lo simbolicamente, mas concretizá-lo diariamente. Não através de discursos, mas através de ação. Não como memória, mas como exigência. Porque Abril não pertence ao passado — nunca pertenceu.
Miguel Braz | Consultor internacional de negócios