A Nautiber, um dos principais estaleiros do país, líder na construção de embarcações de trabalho personalizadas em fibra de vidro, prepara-se para investir em tecnologias de ponta com vista a entrar num novo setor emergente.
O reforço da base industrial marítima e o investimento em tecnologias navais avançadas estão no centro do Pacto Europeu dos Oceanos, apresentado pela Comissão Europeia em junho de 2025.
O documento defende a modernização das forças navais, a proteção de infraestruturas críticas e o desenvolvimento de capacidades de defesa naval, incluindo sistemas não tripulados. É nesse quadro que a Nautiber, estaleiro de Vila Real de Santo António, prepara um passo estratégico: criar uma unidade dedicada à construção de embarcações para o setor da Defesa.
«Começa a haver um conjunto grande de oportunidades de trabalho. Os estaleiros estão já a adaptar-se e é isso que devemos fazer também. Nitidamente, vai ser um mercado importante, não só a nível nacional, mas também para a exportação», antecipa Rui Roque, engenheiro naval e sócio-gerente da empresa, que fervilha de atividade, com barcos a ganhar forma e outros prestes a serem lançados ao Guadiana.
A estratégia nacional que se perspectiva cruza-se com o impulso europeu para expandir capacidades de defesa naval e criar redes integradas de vigilância marítima.
«Interessa-nos, por isso, complementar o mercado das embarcações de trabalho com uma nova unidade produtiva, novas instalações e uma equipa dedicada», reforça Roque, que sublinha a vantagem competitiva da Nautiber. «Não há muita concorrência em termos de fabrico com materiais compósitos», e menos ainda com tanto know-how acumulado.
A intenção conta com a parceria de outra empresa naval, com sede em Lagos. «Uma vez que somos líderes do mercado em novas construções e a Sopromar lidera o segmento das reparações e recuperação de embarcações, estando ambas no Algarve e havendo uma antiga e muito grande colaboração, faz todo o sentido criarmos esta sinergia», justifica. E não será um tiro no escuro.
A Nautiber tem um histórico de cooperação com entidades militares. «Já fizemos um conjunto de lanchas para a Guarda Nacional Republicana (GNR) e temos, ao longo do tempo, dado assistência à Marinha Portuguesa», revela.
A empresa esteve envolvida, em conjunto com os estaleiros navais de Peniche e com a portuguesa Optimal, no último concurso para patrulhas costeiras. «Eram embarcações com uma especificação pouco convencional, do tipo trimarã. Infelizmente, a dotação financeira do concurso era baixa em relação ao valor do produto e acabou por cair. A expectativa é que o concurso abra de novo, com um caderno de encargos revisto.»
Roque diz que, neste setor, por motivos de escala e capacidade produtiva, e tendo em conta a dimensão das encomendas que se preveem, «a parceria com outras empresas é fundamental». Mais recentemente, o estaleiro algarvio, em parceria com a Optimal, entregou a estrutura de quatro drones de superfície, um segmento que o Pacto Europeu dos Oceanos identifica como peça-chave para reforçar o conhecimento situacional marítimo europeu.
«Com o posicionamento costeiro que temos e dada a dimensão da nossa zona marítima, esta é, sem dúvida, uma área em que se perspetivam grandes investimentos em meios navais», sendo que a Nautiber aponta para «o segmento de pequenas e médias embarcações», assim como para sistemas não tripulados e plataformas que envolvem o uso de tecnologias de ponta, suportadas por estruturas em materiais inovadores, leves e de alta resistência.
Comparativamente à construção das embarcações de trabalho tradicionais em que a empresa se especializou, há uma complexidade acrescentada, nomeadamente nos diferentes e novos sistemas incorporados, bem como na parte estrutural das mesmas.
«São apenas tecnologias diferentes. Utilizam-se novos materiais e muita infusão. É uma tecnologia ligeiramente diferente daquilo que fazemos, embora também apliquemos há alguns anos nas nossas embarcações de passageiros, quando há necessidade de redução de peso», explica.
A localização desta nova unidade, contudo, ainda não está decidida. «Tanto pode ser em Vila Real de Santo António como pode ser em Portimão ou em Lagos. Teremos de analisar as oportunidades», diz Rui Roque, assim como os eventuais futuros financiamentos para concretizar este objetivo.
A especificidade como trunfo no mercado
«O sucesso da Nautiber tem a ver com uma especificidade. Fazemos embarcações de trabalho por medida, de acordo com aquilo que o cliente quer», detalha. Os números falam por si: «em 2023, exportámos 93% daquilo que fizemos». Contudo, fruto do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e dos apoios à modernização da frota de pesca, hoje, «75% do trabalho que temos agora em mãos destina-se ao mercado português e 25% à exportação».
Mas esta tendência é temporária. «O nosso objetivo é, de alguma maneira, retomar os mercados de exportação, sobretudo o angolano. Temos em mãos a construção de quatro embarcações para Angola e duas para a Noruega e queremos voltar a ter uma maior incidência nestes países, tal como nos mercados francês e irlandês», aponta.
Pela sua experiência, Rui Roque sabe que, no setor da pesca e também no das empresas marítimo-turísticas, «haverá sempre um mercado» para produtos personalizados. E exemplifica: «Estamos prestes a entregar dois navios para a Noruega. E os barcos que vamos fazer para França são, em tudo, muito idênticos aos noruegueses. Os clientes querem embarcações até 12 metros, com bocas que chegam aos 6,60 metros, com um pontal muito elevado», detalha.
«São características que assustam os nossos armadores», brinca, embora estejam «bem adequadas à realidade e à legislação local» dos países onde irão operar. «Como não podem fazer barcos de maior comprimento, então maximizam a boca e o pontal. Não existem muitos estaleiros como o nosso, tanto na Noruega como em França ou na Irlanda, capazes de construir com essas especificidades, em fibra de vidro. Nós temos essa capacidade.»
Por outro lado, a dinâmica comercial da empresa «também tem muito a ver com os produtos financeiros» que suportam os investimentos em novos equipamentos. «Nesse sentido, por exemplo, no mercado português, os fundos europeus têm sido fundamentais.»
A Nautiber tem em mãos, em 2025, 16 projetos de modernização de embarcações de pesca nacionais, seis projetos de novas construções de pesca para exportação e quatro projetos de novas construções para a atividade marítimo-turística.
Recentemente, «contratámos mais duas novas construções para a atividade marítimo-turística, para Lisboa e para os Açores. Temos em carteira um novo conjunto de modernização de pequenas embarcações para a pesca que aguardam a prorrogação dos prazos do PRR para podermos avançar», acrescenta.
O desafio da relocalização
O atual estaleiro da Nautiber enfrenta limitações de espaço e também alguma pressão urbanística que começa a fazer-se sentir na Ponta da Areia, onde o Guadiana acaba e se avista Espanha na margem oposta do rio.
«Estamos numa zona nobre de Vila Real de Santo António. Há expetativa de alteração do Plano Diretor Municipal (PDM)», que tornará a área mais residencial e menos vocacionada para a indústria. «Além de que estas instalações, pela idade que têm, começam a ficar no limite.»
A empresa adquiriu terrenos contíguos ao estaleiro «exatamente para salvaguardarmos um pouco essa pressão imobiliária. Mas não faz sentido criar mais infraestruturas quando os objetivos de quem tem as responsabilidades do ordenamento do território são diferentes. Sempre achámos que, no dia em que fosse decisão do município reconverter este espaço para outras atividades, estaríamos disponíveis para nos relocalizarmos», diz.
Com este cenário em cima da mesa, Rui Roque pondera relocalizar o estaleiro para terrenos da Docapesca, junto ao porto de pesca. «Existe uma zona loteada para a qual temos a intenção, caso se reúnam as condições, de nos mudarmos», revela.
O responsável considera, contudo, que será um passo «pouco confortável» e lamenta que as verbas do PRR não tenham sido usadas na criação de áreas empresariais de utilização comum, à semelhança do que existe no Parchal.
«Os estaleiros de Portimão estavam espalhados ao longo do Arade, de uma forma mais ou menos anárquica. A criação daquele espaço permitiu concentrar as empresas, com a utilização comum de equipamentos», como o travelift para içar e colocar embarcações dentro e fora de água.
«Tínhamos a perspectiva de que fosse criada mais uma zona idêntica no Algarve, para potenciar e agregar toda a indústria» da construção e reparação naval.
Não tendo acontecido, a eventual mudança «implica fortes investimentos, com rendas altas e, muitas vezes, a entidade concessionária dos terrenos exige uma percentagem» dos resultados.
Por outro lado, mudar toda a infraestrutura, apesar da urgência, «será um processo moroso, não é de um dia para o outro. Neste tipo de indústria, não se consegue interromper a cadeia de produção. Temos de começar, pouco a pouco, a desviar os recursos», algo que pode demorar entre dois ou três anos.
Produção reforçada com o apoio do ALGARVE 2030
Mas antes de uma possível relocalização, a Nautiber tem em curso, até setembro de 2025, uma candidatura ao Programa Regional ALGARVE 2030, que permitirá aumentar o volume de negócios em 17%, criar pelo menos quatro postos de trabalho, sendo um deles qualificado, e aumentar a capacidade produtiva em 7%.
A empresa pretende, com o apoio dos fundos europeus geridos na região, responder de forma mais eficaz à procura dos mercados nacional e internacional. O projeto inclui ainda melhorias nos processos organizacionais internos, no controlo de stocks e no acompanhamento das várias etapas da produção, através da implementação de novo software e de novos equipamentos de produção. Com um custo total elegível de 598.528 euros, o projeto conta com um apoio de 238.611 euros, o que corresponde a uma taxa de cofinanciamento de 39,8%.
«Esta candidatura é extremamente importante para modernizarmos equipamentos do estaleiro e a produção em termos de processos de gestão. Em 35 anos de trabalho, foi a primeira vez, no fundo, que tivemos acesso a uma oportunidade deste tipo», conclui Rui Roque.
Capital humano é o recurso mais valioso
Segundo explica o sócio-gerente, a Nautiber «é uma consequência da tradição que sempre aqui existiu. Acho que a cidade se identifica com este setor. Não é um trabalho só nosso, vem de trás e temos dado continuidade. No fundo, houve uma reconversão do saber tradicional das técnicas da madeira para os novos materiais. Hoje somos uma referência».
O estaleiro emprega hoje 71 colaboradores, desde laminadores, carpinteiros, pintores, canalizadores, serralheiros, eletricistas, fiel de armazém e ferramentaria, e «ainda, em média, cerca de 15 colaboradores de empresas subcontratadas».
«Valorizamos o trabalho por igual porque todos precisamos e dependemos uns dos outros. Esta empresa vale pelo trabalho que faz e pelas pessoas que tem para o fazer», sublinha Rui Roque.
No fundo, «o cliente só tem de nos dizer o que pretende para a sua nova embarcação. Do resto, tentamos tratar de tudo. Desde o projeto de financiamento, ao deferimento da nova construção ou projeto de modernização junto das entidades oficiais, projeto técnico, aprovação, licenciamento, execução da obra, acompanhamento junto da entidade financiadora e outras entidades, provas e testes, obtenção da documentação estatutária da embarcação.
Quando são embarcações para exportação, por norma tratamos ainda da tripulação, abastecimentos, agenciamento, alfândega e outros procedimentos junto de entidades oficiais. Por fim, monitorizamos a viagem até à entrega final, com conhecimento do armador.» Desta forma, «procuramos fornecer um produto integrado em que o armador pode continuar concentrado na sua atividade», conclui.
Do nuclear aos projetos especiais
A inovação tem sido uma constante na Nautiber e é por isso que, entre o portfólio da empresa, consta a produção de «placas para a montagem dos filtros de arrefecimento de centrais nucleares, nos quais a água passa a grande pressão, para eliminar todos os detritos», antes de chegar ao núcleo. Estas placas também são usadas «em centrais de osmose inversa», que produzem água doce potável a partir da dessalinização da água do mar.
Rui Roque explica que este «é um mercado de muita responsabilidade». Estas peças foram fabricadas na zona industrial de Vila Real de Santo António, reservada para projetos especiais e para o trabalho com materiais e técnicas mais avançadas, como a laminagem por infusão assistida a vácuo.
É também nestas instalações que estão a ser construídos, por uma empresa francesa, três veleiros em madeira laminada para empresas marítimo-turísticas. «Estamos a dar assistência a este segmento que está a renascer entre os mais puristas».
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», editado em outubro de 2025 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.
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