Consórcio que une empresa algarvia líder de mercado à investigação e desenvolvimento na Universidade do Algarve procura solução viável para usar água do mar nas piscinas convencionais. Projeto avança com o apoio do Programa Regional ALGARVE 2030.
A água potável é um dos recursos mais pressionados no Algarve e a tendência futura é que este cenário de escassez se agrave. Um consórcio liderado pela marca Cristal Pools está a estudar a possibilidade de se utilizar água do mar em piscinas convencionais, tendo em conta que se estima existirem cerca de 30 mil na região algarvia.
O projeto, denominado POOLWISE, pretende encontrar, no prazo de três anos, uma alternativa viável e sustentável que possa ser instalada nas piscinas de alojamentos turísticos, condomínios e moradias privadas já existentes, bem como em novos projetos, de forma a reduzir a dependência da água da rede.
«No último inverno choveu e as bacias da região recuperaram. Mas sabemos que, devido às alterações climáticas e ao aumento dos consumos, a pressão sobre este recurso vai continuar. Pode vir a ser preciso encerrar piscinas se não houver água para o consumo humano», antevê Miguel José Oliveira, professor adjunto do Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve (UAlg) e coordenador científico do projeto.
Um cenário que será sempre adverso para a economia algarvia. «Não existe turismo sem piscinas. E para isso tem de haver uma alternativa», considera Francisco do Carmo, responsável da Cristal Construções, empresa sediada em Portimão que conta com 50 anos de experiência na conceção, edificação e manutenção destes equipamentos.
Desafios técnicos em várias frentes
O POOLWISE nasce para atacar o problema pela via técnica e demonstrar que é possível manter e usufruir das piscinas convencionais sem consumir água potável, ou, pelo menos, reduzindo significativamente o seu uso, sem aumentar custos nem impactes ambientais. O desafio é sobretudo relevante no Algarve, onde além da proliferação de piscinas, o clima, o turismo sazonal e a pressão sobre os recursos hídricos criam uma combinação de difícil gestão.
Miguel José Oliveira explica o ponto de partida do projeto: «Estamos a trabalhar no pior cenário possível, de não haver água doce disponível. Ou seja, teremos de usar apenas água do mar nas nossas piscinas. Podemos admitir que a qualquer altura isto poderá vir a acontecer. Se conseguimos vencer esse desafio – e a equipa está convencida que sim – também vamos conseguir trabalhar num cenário intermédio, menos exigente, que é também, talvez, o mais provável. Imagine que colocamos 50% de água do mar na piscina e vamos injetando água doce da rede para diminuir e manter baixa a concentração de sal, conforme necessário».
Francisco do Carmo corrobora. As concentrações naturais não podem ser replicadas numa piscina: «A água do mar tem cerca de 37 a 38 gramas de sal por litro. Claro, não precisamos tirar tudo. Só queremos baixar a concentração para os parâmetros de utilização aconselhados pelo Ministério da Saúde, cerca de 3 a 4 gramas por litro», um valor mais confortável para o corpo humano e mais gentil para estruturas e respetiva maquinaria.
O problema é que a evaporação, sobretudo nos meses mais quentes do ano, complica esta equação. «As piscinas de água salgada que hoje existem têm uma salinidade altíssima devido a esse fator. Aos poucos, tornam-se salinas», acrescenta. «É a questão mais preocupante e a que tem maior impacto nos materiais e nos equipamentos», acrescenta o académico.
Uma das possibilidades será um pré-tratamento e filtragem da água do mar logo na fase de recolha, num autotanque preparado para o efeito, e o posterior armazenamento em tanques, antes de ser colocada nas piscinas. No caso de novas construções, «o ideal seria haver uma cisterna para acumular água doce, proveniente da chuva, que poderia servir para equilibrar a salinidade», sugere o professor.
«Há 50 anos, todas as casas tinham uma. Não havia água da rede. Para este projeto ser concretizável, de forma sustentável, não será muito diferente».
Por outro lado, a água de rejeição, resultante da manutenção destas piscinas, não pode ser descartada na rede de drenagem de águas residuais, devido à concentração de sal. A ideia é que nunca venha a existir essa necessidade e que as impurezas e o cloreto de sódio possam ficar retidos em filtros especiais de papel. O sal em estado sólido pode vir a ser recolhido para ser reutilizado com fins industriais, em teoria.
Ainda em relação ao tratamento da água do mar em piscinas, «as tecnologias já existem e conseguimos adaptá-las facilmente. Um dos elementos que queremos introduzir é a eletrólise, que hoje pode ser feita com graus de salinidade mais baixos», revela Francisco do Carmo.
«O ideal, e é aquilo para que vamos batalhar, é termos algum equipamento relativamente acessível em termos de custo, que consiga manter o nível de salinidade adequado nas piscinas, utilizando a energia solar», acrescenta. O plano é que o conhecimento adquirido no final do projeto resulte num protótipo que possa chegar ao mercado em escala.
«Este é um projeto em que se procura soluções para a Cristal Pools poder comercializar. No Algarve, no país e no estrangeiro. E, portanto, para ser comercializado, tem de ser energeticamente eficiente, económico, acessível e assegurar um retorno rápido», diz o investigador.
Será também um bom exemplo de transferência de conhecimento desenvolvido na UAlg, capaz de gerar inovação exportável para um mercado com grande potencial.
Mergulho numa zona legal cinzenta
Do ponto de vista legal, a utilização de água do mar em piscinas não é proibida, mas também não é claramente permitida. A legislação que regula estas infraestruturas, baseada na Portaria n.º 135/2013 (regras sanitárias de piscinas) e na norma NP 4542:2017 (qualidade da água de piscinas), foi desenhada para piscinas abastecidas com água doce tratada. Os parâmetros técnicos, desde a condutividade elétrica à salubridade, foram definidos com esse quadro em mente. Não existe um enquadramento específico para piscinas com água do oceano.
A lei exige, contudo, que a água utilizada seja proveniente de uma fonte controlada, conceito que remete para redes públicas de abastecimento, furos licenciados ou captações previamente aprovadas pela autoridade competente. A água do mar, pela sua própria natureza, não cumpre esta definição. Não porque seja insegura, mas porque a legislação nunca previu o seu uso em ambiente recreativo balnear fechado.
A condutividade elétrica é um dos parâmetros mais relevantes deste vazio regulatório. A norma técnica estabelece limites que correspondem a água doce tratada. A água do mar apresenta níveis naturalmente muito elevados, incompatíveis com os atuais valores de referência. Contudo, a condutividade elétrica da água, por si, não tem qualquer impacte para a saúde.
No entanto, alerta Francisco do Carmo, «se a autoridade de saúde quiser fechar uma piscina porque a condutividade é superior à permitida por lei, pode fazê-lo de imediato».
Para ultrapassar este limbo legal, é necessário produzir evidência científica. Como explica o empresário, «não se pode fazer uma proposta de alteração de lei» sem se demonstrar primeiro que o uso da água do mar pode ser seguro, controlável, monitorizável e compatível com os objetivos de saúde pública.
Se os resultados do projeto provarem que é possível garantir segurança e controlo em contexto salino, poder-se-á fornecer as bases técnicas para a revisão da lei, de forma a permitir que a água do mar se torne uma alternativa legal e operacional no futuro. A equipa vai também fazer uma pesquisa de fundo sobre os regulamentos em vigor à escala mundial.
Captação e o papel da futura Central Dessalinizadora do Algarve
A utilização de água do mar nas piscinas também dependerá da origem. Segundo Miguel José Oliveira, a equipa do POOLWISE reuniu com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e com a Águas do Algarve, que apoia o projeto, para discutir pontos de captação adequados. «Já temos um conjunto de estratégias definidas», afirma Miguel José Oliveira.
Numa fase inicial, a solução mais prática é captar em zonas portuárias, onde o acesso de um camião-cisterna é mais simples. Francisco do Carmo admite que a captação a alguns quilómetros da costa garantiria melhor qualidade e menor variabilidade da água, mas está fora do alcance do projeto nesta fase.
A discussão técnica incluiu também o eventual recurso à futura Central Dessalinizadora do Algarve, como possível fonte complementar. Embora o projeto POOLWISE não dependa dela, e a mesma esteja a ser desenvolvida para produzir água potável para consumo humano, a presença dessa nova infraestrutura poderá, no futuro, facilitar processos de recolha ou até criar sinergias tecnológicas. Poderá, por exemplo, haver uma linha secundária de saída, apenas com a salinidade adequada para a utilização em piscinas.
«Uma das atividades finais do projeto é a avaliação do custo-benefício. O que já foi discutido com a APA, que ficou interessada na ideia», diz o investigador da UAlg.
A equipa admite que «faria todo o sentido que a região do Algarve tivesse postos de recolha desta água do mar pré-tratada, onde o autotanque pudesse abastecer e depois distribuir. «Seria muito mais eficiente. Se um dia houver essa necessidade, já haveria uma solução», acrescenta o professor.
Francisco do Carmo mostra-se mais prudente. «A dessalinização tem custos muitíssimo altos. E isso não nos interessa, ganhar por um lado e perder pelo outro. Queremos arranjar uma solução, não gastando muita energia, em que possamos ter água que nos dê as condições ideais e seguras de utilização em piscinas».
Piscina-laboratório da UAlg, onde a teoria passa à prática
O POOLWISE resulta da continuidade de um projeto anterior entre a Cristal Pools e a UAlg dedicado à eficiência energética. Para isso, foi construída uma piscina-laboratório junto à Casa do Reitor, no campus da Penha, em Faro, única no país.
Na investigação anterior, foram estudadas formas de aquecer a água apenas com recurso a circuitos com painéis solares térmicos, de forma automatizada, sem necessidade de bombas de calor, grandes consumidoras de energia e presentes, por exemplo, em várias unidades hoteleiras da região.
Foram também testadas formas inovadoras de acumular o calor em tanques de parafina, de modo a manter a temperatura estável na ausência de sol. Os investigadores pretenderam estudar como «aumentar o período de utilização das piscinas», com a água a temperaturas agradáveis e convidativas (entre 22ºC e 23ºC) ao longo de todo o ano, evitando também a degradação da água durante o inverno. Foram também desenvolvidos pré-registos de patentes para uma nova geração de coberturas.
Agora, a piscina-laboratório da UAlg servirá para avaliar, em condições reais, se as soluções propostas ao longo do projeto são robustas quando aplicadas à escala de uma piscina funcional.
Para isso, o espaço dispõe de tanques auxiliares, circuitos hidráulicos independentes, sistemas de filtragem adaptáveis e pontos de monitorização distribuídos.

Os quatro tanques vão permitir comparar várias soluções em simultâneo, com diferentes níveis de salinidade. Serão postos à prova revestimentos e colas resistentes ao ambiente salino, sistemas de controlo de salinidade, equipamentos de bombeamento e, fruto do projeto anterior, soluções de aquecimento baseadas em energia solar e estratégias de circulação interna.
As equipas vão medir oscilações de salinidade ao longo do dia, avaliar a degradação de componentes, o comportamento de materiais e a eficiência dos sistemas.
Francisco do Carmo destaca ainda a dimensão e importância comunitária desta instalação inovadora: «Está aberta a todas as empresas que trabalham na área das piscinas no Algarve, e que são muitas. A academia quer também abrir as portas a quem queira vir desenvolver tecnologia e disponibiliza valências nas áreas da química, da construção civil, da mecânica, da eletrónica e da informática».
A piscina-laboratório da UAlg tem tudo para se afirmar como polo regional de experimentação neste nicho, permitindo que startups, construtores, instaladores e fabricantes testem produtos e metodologias em ambiente controlado, antes de chegarem ao mercado.
É também daqui que sairá um protótipo, bem como dados que poderão sustentar futuras alterações regulamentares, definindo um novo paradigma para o uso da água do mar nas piscinas do Algarve.
Neste projeto, a UAlg participa com seis investigadores doutorados e conta com o envolvimento do Itecons, um instituto tecnológico da construção associado à Universidade de Coimbra. Tem também a parceria tecnológica da Saint-Gobain Portugal, fabricante de materiais, para testar os efeitos da agressividade salina, assim como o apoio da Águas do Algarve.
«Vamos ter campanhas em laboratório, em bancada, e também já numa escala real neste protótipo», avança o professor. Miguel José Oliveira destaca ainda uma outra compatibilidade com o futuro projeto da antiga Casa do Reitor (UAlg TEC MED), mesmo ali ao lado.
«A Dieta Mediterrânica não é só um conceito. É também um estilo de vida. Tem a ver com o bem-estar, e as piscinas podem ter muito a contribuir», sobretudo se forem sustentáveis. Voluntários para testar o conforto também não deverão faltar, já que estará na envolvente da nova residência universitária, virada para a Avenida Cidade Hayward.
«Este projeto foi muito bem avaliado pela Agência Nacional de Inovação, pelo impacte que se espera que tenha na região e pelos desafios que são colocados», conclui.
Financiamento do Programa Regional ALGARVE 2030
O projeto POOLWISE está alinhado com os objetivos do Pacto Ecológico Europeu (EU Green Deal), ao reduzir consumos de água e energia, promover o uso sustentável de água do mar e estimular inovação em materiais adaptados ao meio salino. Prevê ainda uma redução indireta das emissões de gases com efeito de estufa, ao diminuir consumos energéticos e reduzir a necessidade de captação e tratamento de água potável. É financiado pelo programa regional ALGARVE 2030, com um custo total e elegível de 579.262,40 euros e um incentivo europeu de 434.305,88 euros. Teve início a 1 de abril do corrente ano e decorre até 31 de março de 2028.



