Nascido no seio da Universidade de Coimbra em 2006, o Itecons tem, desde o início de janeiro, um «embrião» em Faro. Objetivo é tornar o Algarve mais sustentável, diz António Tadeu, presidente da direção e professor universitário.
barlavento: qual o contributo que o Itecons quer trazer ao Algarve com esta nova filial em Faro, no Patacão?
António Tadeu: O nosso trabalho está muito ligado à construção, energia, ambiente e sustentabilidade. Ao longo de 18 anos, já investimos 25,5 milhões de euros e temos infraestruturas únicas em Portugal, em Coimbra. Ao longo do tempo, o nosso trabalho começou a chegar a todo o país e temos vindo a cooperar com várias academias, incluindo a Universidade do Algarve (UAlg). Aqui, contamos com colaboração científica e apoio de colegas que com quem já temos uma relação que queremos enriquecer para responder àquilo que são as necessidades do mercado e da indústria na região de Faro. Este é um embrião que pretendemos que venha a crescer e a tornar-se relevante no Algarve. Somos um instituto sem fins lucrativos, isso significa que a maior parte dos associados são empresas. Temos aprendido muito com o conhecimento das indústrias para podermos responder às preocupações atuais e futuras. O Algarve tem algumas indústrias tradicionais relevantes, cujo conhecimento precisa de ser modernizado e passado às gerações atuais.
Neste momento, a água é a maior preocupação da região…
Sim e temos vários projetos nessa área. Por exemplo, o nosso instituto está envolvido na certificação Unified Water Label – a etiqueta europeia de produtos sanitários EU Ecolabel. Estamos, também, aptos a realizar auditorias hídricas, algo que pode ser muito relevante para os hotéis. Existe conhecimento consolidado que permite reduzir muito os consumos. E não só. Com as alterações climáticas, temos duas situações extremas: as secas e episódios de pluviosidade abrupta, muito concentrada no tempo, que por vezes provoca inundações porque temos muito mais áreas impermeabilizadas da superfície do solo. Apesar de não ser nada de novo em termos europeus, estamos a desenvolver um conjunto de coberturas verdes que nos permitem ajudar a atenuar aquilo que são as consequências desses picos de precipitação. Ou seja, temos vindo a desenvolver coberturas sustentáveis sem plásticos nem matérias que envolvem alguma pegada ecológica relevante, e a substituí-las por materiais naturais como o ICB, uma cortiça expandida que permite absorver água e retê-la.
Isso seria interessante, por exemplo, para autarquias e entidades com entidades com responsabilidade de intervenção no espaço público?
Sim, mas estamos a também a falar de privados. Nalguns países do norte da Europa é já obrigatório garantir um determinado espaço em termos de coberturas verdes. Ou seja, sabemos que mais cedo ou mais tarde, teremos também de o fazer. Não podemos continuar a impermeabilizar tudo. As nossas infraestruturas não estão preparadas para aquilo que acontece hoje e a solução limite é o que se faz neste momento em Lisboa, com a construção de túneis de escoamento de águas pluviais. Por outro lado, o Itecons tem um trabalho muito grande em termos de desenvolvimento de soluções para edifícios, o que pode ser útil para a hotelaria. Por exemplo, em otimizar as necessidades de conforto térmico, de aquecimento no inverno e de arrefecimento no verão. Isso passa por uma verificação muito cuidada daquilo que é a envolvente para que nos permita ter vantagens na utilização diária.
Dê-me outro exemplo…
Tal como tem sido muito falado, em breve vamos começar a retirar o sal à água do mar a uma escala industrial. Esse processo de dessalinização deixa para trás um conjunto de resíduos (salmoura) que têm de ser tratados e melhorados para que se possam triar alguns constituintes dessa matéria. Já temos trabalho científico e testes laboratoriais. E com certeza vamos envolver a indústria nas condições reais deste processo. Esta já é uma grande preocupação nossa porque parece-me evidente que as secas continuarão. Tenho ideia de que o que vai acontecer, talvez mais tarde do que estaríamos hoje a pensar, é que vamos precisar de mais uma dessalinizadora de água, não apenas para consumo humano, mas para a regra agrícola. Estou convencido que não vamos ter água das chuvas da forma mais ou menos regular, como acontecia no passado.
Como vê a questão dos transvases de água, de norte para sul do país?
Já no meu tempo de estudante se falava nisso. O professor Laginha Serafim, que estava muito ligado às barragens, falava da necessidade de fazer essa transferência de água. Na altura, seria algo muito importante. Hoje, contudo, temos também períodos de seca muito relevantes também no centro e norte. Ou seja, em zonas onde antigamente nem se punha a hipótese de não haver água. Por isso, não me parece que isto, visto de uma forma simples, seja a solução do problema. Acho que vamos acabar por fazer investimento que, na altura em que estiver concluído e concretizado, possivelmente já temos problemas também no centro e em zonas mais para norte, semelhantes aos que vivemos a sul. Não digo que não seja viável, mas são precisos estudos, até do ponto de vista económico.
E em relação à construção da barragem da Foupana?
Em determinada altura, tivemos situações em que se deixaram de construir barragens por diversas razões. Isso teve consequências para o futuro. Por isso, tudo o que tenha capacidade de armazenar, não só para reter, mas para produzir energia, com certeza que são bons investimentos.
Que mais pode o Itecons fazer para ajudar o turismo, que é a maior indústria do Algarve, a ser mais sustentável?
Acabámos agora um projeto (ECOPOOL +++) de investigação que envolveu vários parceiros do Algarve, no desenvolvimento de piscinas high tech de baixo consumo energético, mais sustentáveis e com maior conforto para quem as utiliza. Existe um protótipo pronto na UAlg que em breve terá apresentação pública. É uma piscina aquecida através de painéis solares que tem também um conjunto de equipamentos para não perder energia pela superfície, e outros que recuperam as águas utilizadas nas lavagens de filtros. As paredes foram preparadas para não perder energia para o solo. Neste caso, envolveu a UAlg, a Itelmatis, o Itecons, e a Cristal Pools, que foi o promotor líder. Sem dúvida que vai permitir transferir know-how para estas empresas para que, de alguma forma, tenham capacidade de vender as tecnologias que foram desenvolvidas no âmbito deste projeto.
Fortalecer ainda mais a relação com a Universidade do Algarve
António Tadeu, presidente da direção do Itecons e docente da Universidade de Coimbra, reafirma a vontade em aprofundar a relação com a Universidade do Algarve (UAlg). «A tecnologia e a ciência avançam hoje mais rápido e com uma progressão muito maior do que há 20 anos. Estou muito interessado que os colegas da UAlg se possam envolver connosco em parcerias como supervisores técnicos do trabalho que aqui irá ser feito».
Para já, em Faro, «vamos começar com instalações laboratoriais na área do betão e aço», mais vocacionados para a indústria da construção. «Isto é um embrião. A nossa ideia é crescer com o apoio das instituições do Algarve. Queremos ser uma entidade parceira do tecido local. Estamos abertos a parcerias que não só nos vão enriquecer a nós, mas também às instituições do Algarve».
Certificação CE para produtos inovadores
Outro serviço que poderá vir a ser interessante para a indústria algarvia é a certificação marcação CE. «Somos uma entidade de avaliação técnica perante Bruxelas. Isso permite-nos fazer desenvolver a norma para a marcação da norma CE de novos produtos», explica António Tadeu, presidente da direção do Itecons e docente da Universidade de Coimbra.
«Um produto novo para ser vendido em Portugal precisa apenas de homologação feita pelo LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que é a única instituição que o faz. Mas se passarmos a fronteira, deixa de ser válida. Vamos pensar que uma determinada indústria vem até nós com produto inovador, sobre o qual concluímos que as normas existentes não permitem a sua caracterização. Nós conseguimos, juntamente com um conjunto de organismos parceiros a nível europeu, desenvolver documentos de avaliação europeus, para o fazer» e abrir portas à exportação da inovação.
Ponte pedonal de Tarouca Arouca tem a mão do Itecons
A Ponte 516 Arouca, a uma das maiores pontes pedonal pedonais suspensas do mundo, tem a mão do Itecons – Instituto de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico para a Construção, Energia, Ambiente e Sustentabilidade, que fez a conceção do projeto. «Nunca pensámos sequer que estávamos a fazer algo com o mediatismo que tem tido. Foi um trabalho muito grande, que envolveu muito trabalho de investigação e houve vários artigos publicados em revistas internacionais», revela António Tadeu, presidente da direção.
A ponte atravessa o Rio Paiva, no Geoparque Arouca, que integra a Rede Mundial de Geoparques da UNESCO. Poderá ser uma inspiração para o aspirante Geoparque Algarvensis. «Temos cerca de 110 técnicos a trabalhar. Não temos Orçamento de Estado, ou seja, não sobrevivemos com qualquer dotação dada pelo Estado, mas com o trabalho que fazemos para o exterior em várias áreas. Não apenas de investigação teórica, mas em projetos que são únicos», conclui.
