barlavento: Porquê só agora um livro com as suas memórias?
Negrão Belo: Todos nós temos uma hora de partir. E vou sentido que a minha hora está a chegar. Não vejo a passagem desta vida para outra como uma tragédia. Vejo-a paulatinamente, com tranquilidade. Como ao passarmos por esta vida, dizem os livros que devemos cumprir três obrigações – procriar, plantar uma árvore e escrever um livro – não quis deixar de cumprir o ritual. Mas este livro, ao contrário do que foi noticiado ou, pelo menos, do que eu entendi, não é um livro de ajuste de contas com o partido. É um livro de ajuste de contas com a sociedade. Sociedade essa à qual nunca me adaptei.
Que quer dizer com isso?
Quer dizer que fui sempre um rebelde contra uma sociedade ambígua que diz uma coisa e faz outra. Uma sociedade hipócrita. Hoje continuo a dizer que o que se diz é o que se faz. Não posso dizer faz o que eu digo e não faças o que eu faço. Eu cumpri o meu papel, mas sempre de forma rebelde. Insurgi-me sempre que havia prepotências, abusos de poder, injustiças, fosse com quem fosse, com brigadeiros, com generais, com filhos e familiares de governantes. Sempre que ultrapassassem o que era de educação e de bom senso, e de direito, eu opus-me sempre. E é essa faceta que a minha cidade não conhece e que a maioria dos meus colegas não conhecem. O trabalho vale como sebenta de cidadania. Nunca devemos deixar de lutar, sempre que tivermos razão, e de nos indignar com quem quer que seja. As pessoas vão ficar admiradas com quem eu colidi.
A biografia foca-se mais nos anos em que foi autarca?
Foco-me desde pequeno, desde a data em que me lembro dos aviões à noite a sobrevoarem Faro a quererem aterrar, durante a Segunda Guerra Mundial. Começam aí as minhas reminiscências e terminam nos dias de hoje, o meu estado de passagem pelo outono da vida, de reformado, o que ainda tentei fazer no campo da terceira idade. Passo por 12 estádios da minha vida, muito embora o militar e o autárquico sejam aqueles mais fortes, em que me empenhei mais.
Recentemente disse à «Folha de Domingo» que encontrou «uma herança do fascismo» na Câmara Municipal…
Sim, sim. Nesse tempo eram privilégios, havia donos e donos e donos da Câmara. Cada sector tinha o seu presidente. E os verdadeiros presidentes, os eleitos, por questões pessoais, não punham as coisas nos eixos. Lembro-me no tempo do Marciano Nobre (1979 a 1982), que foi meu presidente, ele ter-me dito: «eu é que os conheço. Sei quais é que são os que devem ter rédea curta». Portanto, isto era aqui e no país inteiro. As Câmaras eram nomeadas pelo governo, eram leais súbitos e procediam com os tiques do fascismo. Mas isso já se extinguiu, embora nos primeiros dez anos tivesse sido difícil. As pessoas iam para o cabeleireiro, iam para o café, iam para Inglaterra em serviço. Eu que tinha tirado um curso de operações especiais, em que o rigor, a exatidão, a eficácia era uma essência, levava as coisas a direito. Mas quero deixar expresso o seguinte – toda a ação mais exigente por mim praticada era sustentada por uma deliberação anterior pelo coletivo em reunião de Câmara. Portanto, eu fui sempre um democrata no cumprimento das medidas.
Que outras dificuldades encontrou?
Havia estratagemas para parar as demolições de projetos que eram feitos ilegalmente em ruas projetadas. Havia pessoas que tentavam tomar medidas dilatórias para parar a obra, mas o cumprimento das leis era escrupulosamente executado.
No seu livro faz alguma revelação que não tenha passado a público na altura?
Não dei muita importância a isso, porque fiz o livro muito naturalmente. Mas quero expressar que neste ato social, no dia 7 de setembro, que penso que vai ser o mais importante ou de maior envergadura em Faro, este ano, vamos lembrar três figuras que me marcaram. Foram os meus faróis: o arquiteto Beato de Oliveira, o engenheiro Marciano Nobre e o reitor José Ascenso, com quem muita gente teria alguns problemas de pensamento, de filosofia, porque o reitor serviu o fascismo. Penso que dos 8 milhões de habitantes que éramos, a grande maioria serviu ou foi educada no fascismo. Eu fui educado na Mocidade Portuguesa e gostei. Fiz-me atleta internacional com a Mocidade Portuguesa, portanto não posso negar os pontos positivos. Agora confundir Mocidade Portuguesa com PIDE, há uma distância muito grande. Ainda em relação ao reitor Ascenso, ele foi um homem fiel aos seus compromissos. O seu carácter foi muito importante na formação do homem público que eu fui. Estes três homens ensinaram-me a ser homem.

Sou um político regional, se é que posso ter esse título. Mas tenho olhos, leio e vejo o que se passa. A Europa não tem uma estrutura política comum. Não tem lideres políticos de nível. Eles desapareceram há 30 anos. Não tem uma política de defesa comum. A própria política social deixa muito a desejar, como se viu agora com os refugiados que fogem dos horrores da guerra.
Temo pelo que possa acontecer se houver uma emergência e um estado caótico das estruturas sociais. O que a Europa tem é dinheiro e políticas mercantilistas. Não tem soluções. Não sei o que poderá acontecer.
E como vê a atualidade política nacional?
Sou da opinião que devemos deixar a esquerda governar. Se ao fim de 40 anos tem sido a direita, com este ou aquele cariz, com este ou aquele formato, deixemos o PS governar com o apoio da esquerda. E daqui a meses, tiramos as nossas conclusões. Porque não terá a esquerda, oportunidade de mostrar o seu valor, se é que o tem? Vamos ver. Tenho a impressão que o nosso Presidente da
República é da mesma opinião.
Acompanhou sempre o trabalho dos autarcas que o sucederam?
Não muito. Não acompanhei, tanto que não me apercebi que parte dos equipamentos feitos no meu tempo que embelezavam Faro foram demolidos.
Já que fala nisso e não querendo ser deselegante, às vezes os farenses mais antigos referem-se a si como «o presidente das fontes»…
Para mim é um elogio. Há dois elogios que aceito muito bem. Ouvia-se pela boca do povo, Negrão Belo é o jardineiro, porque comecei por embelezar a cidade com plantas. Fechei certas ruas ao trânsito e pusemos floreiras. Mais tarde foram as fontes. Até falaram, na altura, que Faro viva um período de «fontismo», do Fontes Pereira de Melo. Mas isso era um elogio. Há muita gente que manda fazer fontes e não sabe qual é o objetivo delas. Por isso, quando voltei como vereador, votei contra a fonte mais bonita que Faro tem, que é a do Largo de São Francisco. É do tempo dos presidentes Botelheiro e Coelho. Expliquei porque votei contra. O primeiro objetivo de uma fonte é dar humidade à zona envolvente. Ora, essa está quase dentro da Ria Formosa. Está junto à água, não há necessidade. O outro objetivo é embelezar o ambiente e alegrar a vista.
Como é que avalia a gestão do professor Rogério Bacalhau?
Comecei a olhar para ela há um ano. E comecei a ver que tem muitas semelhanças com a minha. A repavimentação de ruas com a reabilitação e colocação das respetivas infraestruturas, foram exatamente os passos que dei, quando tive condições para tal. Está a preocupar–se com o jardim da Alameda, com coisas do dia a dia do cidadão, mas julgo, pelo que leio, que também se está a preocupar com projetos para o futuro. Estou satisfeito com ele.
Estamos melhor hoje do que há 30 anos?
Não tem comparação. Só que essa melhoria foi feita à custa de empréstimos. Foi tudo a crédito. Com respeito e amizade pelos meus amigos presidentes que passaram, sobretudo o Coelho, o Apolinário e o Macário, foi a forma como utilizaram o dinheiro. É inadmissível que, de uma só vez, se tenha pedido um empréstimo da totalidade da capacidade de endividamento e depois se tivesse começado a gastar conforme as necessidades. E daí adveio um estado caótico. Comprava-se tudo, fazia-se tudo, perto das eleições era um mundo de obras que aparecia. E depois teve as consequências que este (Rogério Bacalhau) e o Macário conseguiram atar. Deram uns nozinhos, ataram, a dívida foi revista, foi reestruturada, mas a dívida existe.
No seu tempo Faro já era uma cidade turística?
Não, não era. Mas para isso tivemos um papel muito importante e ainda bem que pergunta. Na altura, e acho que cidade não se apercebeu muito, nós e a Diocese demos um passo que foi a compra do Palácio de Estoi. Era para ter sido um Centro Europeu de Cultura. Não seguiu o projeto que tínhamos pensado, estudado e negociado. Mas apareceu uma outra oportunidade e é, hoje, uma Pousada de Portugal. Com esse equipamento de luxo e com o trabalho demorado, lento, mas estudado ao pormenor, que o cabido do Algarve fez na reparação dos Claustros junto à Sé Catedral, houve uma atração de turistas. Hoje não temos aquilo que eu tinha receio na altura. Tinha receio que Faro se tornasse num turismo como Quarteira. Felizmente, temos hoje um turismo de cultura. Era o que eu e a minha equipa ambicionávamos. Os executivos que me sucederam prosseguiram o mesmo trabalho. E hoje podemos dizer que Faro é um polo de turismo cultural. Hoje temos uma cidade jovem, alegre, festivaleira. Não há dia em que não se realizem grandes eventos. Há 30 anos fazíamos umas festas tradicionais com um artista fora de série que vinha. Hoje são em catadupa e a cidade enche.
Porque é que ainda hoje existem problemas no acesso à Praia de Faro?
Essa é uma pergunta politicamente incorreta, porque, se houver uma resposta científica, aquilo deveria estar sem ponte e com acesso apenas pedonal. Isto porque, a carga humana vai desgastando a ilha. Isto diziam os técnicos, os estudiosos há 40 anos. Claro que para nós, que estamos habituados a levar o carro para o café, até junto à bica, não gostamos de ouvir. Mas o tratamento deveria ser acabar-se com a ponte e ter apenas passagens pedonais. Tenho dito.
O Algarve sempre foi olhado de soslaio ou até mesmo maltratado por Lisboa. Tem essa impressão?
Tenho e isso deve-se aos algarvios, com exceção da zona de Portimão e Lagos, que teve sempre poder de influência no Poder Central. Nós não lutávamos pelos nossos interesses e o governo fazia o que queria. Portimão, não. Portimão lutou anos e anos, porque precisava de uma ponte. E depois, de seguida, teve duas pontes. Mas Portimão sempre foi um foco de oposição. Portanto, as oposições são necessárias. Havia umas coisinhas para São Brás de Alportel, que até depois o chefe da oposição teve de fugir para Marrocos, e talvez também Silves, que sempre teve um grande bloco comunista em função dos muitos operários da cortiça. Mas é como digo. Se não houver uma oposição forte, o governo relaxa.
Um «dedinho» por toda a cidade
«Sabe, há uma constante. É rara a coisa que falemos ou possamos discutir ou observar aqui em Faro em que não haja lá um dedinho meu. E é gratificante», sublinha João Negrão Belo. No entanto, se há algo que o orgulha é a obra feita na habitação social, com mais de mil
fogos. «Na ação que vou fazer no dia da cidade, referencio que esses homens das cooperativas merecem e aguardam o tributo da cidade ao gigantesco trabalho que fizeram. Nós podíamos fazer projetos, nós podíamos aprová-los, nós podíamos isentar taxas, mas eles é que fizeram o trabalho», diz, lembrando a construção dos bairros da Carreira de Tiro e de Santo António do Alto. São também do seu tempo, os primeiros lares municipais em parceria, como por exemplo o Lar das Missionárias da Caridade ou o Lar do Montinho da Santa Casa da Misericórdia.
Um Ranger na autarquia
Professor de Educação Física, Negrão Belo lecionou em vários estabelecimentos da linha do Estoril, antes de ficar efetivo na Escola Afonso III, em Faro. O livro «Um caráter saudavelmente rebelde – libelo à sociedade» revisita o ingresso no escutismo e, mais tarde, na Mocidade Portuguesa, passando pela vida estudantil, pela contratação do Sport Lisboa e Benfica, pelo cumprimento do serviço militar e pelo combate na Guerra Colonial (Ultramar), em Quiende (Angola), durante dois anos, que inviabilizou uma possível carreira no atletismo de alta competição. Aborda ainda o período do curso superior à profissão, seguindo pelos tempos da Revolução, até ao ingresso na vida político-partidária. O que muitos desconhecem, contudo, é que o ex-autarca foi tropa especial, tendo tirado o curso de Ranger, «antes ainda de
haver Comandos» nas Forças Armadas.
O caso das esculturas esquecidas


