À beira de tornar-se sexagenária, Manuela de Campos Xavier pertence à terceira geração de portugueses nascidos em Moçambique. Não chegou a conhecer o avô materno, antigo dono das minas de Muiane – Alto Ligonha, onde apareciam algumas pedras preciosas e metais ricos, embora não fossem o filão principal. Um gosto e um conhecimento que passou para a sua mãe e que agora recupera, nas voltas que a vida dá.
A descolonização e a independência de Moçambique obrigaram-na a vir para Portugal, aos 21 anos de idade. Procurou emprego e conseguiu-o no Banco de Portugal. «Nessa altura, a principal preocupação era assegurar um modo de vida e o pão de cada dia, porque chegámos a ser 18 bocas à mesa e era só o meu pai a ganhar», recorda.
Durante 35 anos, laborou naquela instituição reguladora, constituiu família, veio um filho e, mais tarde, um neto. Via as jóias como adornos para ocasiões especiais e pouco mais. Contudo, depois de se ter reformado, há dois anos, têm vindo a dedicar-se, de alma e coração, à joalharia moderna. Tomou contacto e iniciou a sua formação nesta área em 2013, quando ainda trabalhava a tempo inteiro.
«Soube que o mestre Filomeno Pereira de Sousa ia abrir uma escola em Faro e fui logo inscrever-me», confidenciou, «embora nunca pensasse ser aceite, pela idade e pela falta de prática; nem artesã tinha sido». Contudo, foi aceite e tem vindo a revelar-se uma excelente artista, tendo ganhado o primeiro prémio no concurso internacional Portojoia, em 2014.
«O mestre Filomeno é uma pessoa que não faz cedências. É muito rigoroso. Repensar a joalharia é um exercício que nos exige, a cada novo projeto. Torna-se uma aprendizagem fascinante, exigindo árduo trabalho intelectual e físico, mas que nos dá a satisfação de criar algo único».
Manuela de Campos Xavier não consegue definir qual o tipo de joalharia que faz, porque continua a frequentar o curso, que está dividido em módulos. Cada peça corresponde a um exercício de um módulo. Os concursos e as exposições coletivas são desafios que a escola lhes lança.
«O que eu quero é fazer. Ir aprendendo, devagar. É uma aprendizagem muito lenta, pelo menos para mim, que já tenho uma certa idade. Mas o dia tem de valer a pena».
A joalharia é um artesanato caro, porque usa materiais e equipamentos dispendiosos. O processo burocrático que existe, quando o artista chega à fase de venda do seu trabalho, «é assustador, por causa da lei. Desde que contenha metais preciosos, obriga a uma série de formalidades e requisitos. Eu já tenho uma certa idade e não penso viver da minha arte, mas vejo dificuldades para as colegas mais novas, que gostariam de fazer vida da joalharia. Ou então, terão de fazê-la sem recorrer a metais preciosos e o mestre Filomeno já deu provas de que se pode fazer coisas maravilhosas».
Quando o «barlavento» abordou o estado da arte no Algarve, disse-nos a nossa entrevistada que «há falta de pessoas interessadas. É mais fácil dizer ‘não percebo, não entendo’, passar ao lado. Mas quem devia abrir esses caminhos, se calhar também não o faz. Estou a falar das escolas e a referir-me a todas as artes».
Sobre a burocracia, Manuela diz que «as pessoas têm de cumprir o que há para cumprir, mas, ao mesmo tempo, lutando contra aquilo que está errado, porque também faz parte do cidadão não ser vaquinha de presépio a dizer que sim a tudo. Por vezes, não resulta em nada, tive grandes lutas na minha vida que não deram frutos, mas fiquei com a consciência tranquila, porque o fiz».
De 2 a 30 de Julho, a Exposição «Perto do Belo», de Manuela de Campos Xavier, estará na Galeria de Arte Pintor Samora Barros, em Albufeira, das 15h00 às 20h00 e das 21h00 às 23h00. Encerra domingos e feriados.