Na Praia Alegre, em Quarteira, as espreguiçadeiras continuam empilhadas e estão colocadas várias placas com o alerta «Aviso – Perigo de afogamento – Praia sem vigilância». No interior do apoio de praia, as bandeiras estão penduradas, os meios de salvamento arrumados, e o grande quadro onde se anota a ocupação das sombrinhas, continua em branco, à espera de melhores dias.
As praias vizinhas ostentam bandeiras amarelas devido à agitação marítima, mas na «Praia Alegre» o posto de socorro que deveria estar montado com boias de salvamento, cinto, carretel, prancha e outros meios de salvamento, está vazio.
Rogério Alegre, proprietário da concessão não esconde a sua frustração. Até agora, não conseguiu contratar os nadadores-salvadores necessários para esta época balnear. «Em 44 anos, isto nunca me aconteceu», lamenta.
«Todos os anos começo a procurar colaboradores em abril, com dois meses de antecedência. Agora sem nadadores salvadores, sou obrigado a manter a concessão fechada, o que representa um grande prejuízo», evidencia. O concessionário proporciona a quem quiser trabalhar este verão, 800 euros por mês com direita a um dia de folga por semana. «Já contactei as associações de nadadores salvadores de Quarteira e Faro, mas não há ninguém disponível».
A polémica sobre a falta destes profissionais instalou-se quando, em vésperas de arrancar a época balnear, o comandante Nuno Leitão do Instituto de Socorro a Náufragos (ISN), em declarações à agência Lusa, afirmou existirem «7400 nadadores salvadores certificados para o exercício da atividade, quando a necessidade é de 4100 profissionais para trabalhar nas 1250 unidades balneares» a nível nacional. No entanto, para a época balnear que arrancou oficialmente a 1 de junho na maior parte das praias algarvias, os concessionários continuam a ter problemas com a contratação destes profissionais.
Francisco Barbosa, presidente da Associação de Concessionários do Algarve, critica as declarações de Leitão. «Diz que eles existem, mas não diz onde estão».
Na sua opinião, uma solução possível seria as capitanias criarem uma base de dados com todos os nadadores-salvadores afetos a cada zona, uma ponte útil e eficiente entre concessionários e quem presta este serviço sazonal. Contudo, dada a falta de pessoal, «porque é que não põem os marinheiros a vigiarem as praias?», interroga.
Para Francisco Barbosa, são vários os fatores que potenciaram esta situação. «Os nadadores salvadores são jovens estudantes ainda em período de aulas, preferem trabalhar em piscinas do que em praias, e os cursos passaram a ser explorados escolas privadas que cobram o dobro do preço» anterior desta formação.
«Na Praia da Rocha, a Polícia Marítima mandou encerrar uma concessão onde só existia um nadador salvador. O mesmo aconteceu na Praia da Coelha em Albufeira. Tenho ainda conhecimento de um outro caso na Praia da Arrifana, Aljezur. Questiono: sabendo que as pessoas vão à praia de qualquer forma, é melhor estarem fechadas sem profissionais ou abertas com pelo menos um nadador salvador?», a vigiar os banhistas.
Paulo Matos, presidente da associação «ANS 7 Mares» de Quarteira e ainda formador do ISN denuncia irregularidades no sistema. «Tenho conhecimento de casos em que as autoridades fecham os olhos e permitem que concessões operem com apenas um nadador salvador e outras, na mesma zona, em que a autoridade marítima as obriga a fechar pelo mesmo motivo».
Alexandre Tadeia, presidente da Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (FEPONS), refere que «a falta de condições que são dadas aos jovens nadadores salvadores no seu primeiro ano de trabalho – como longas horas de trabalho, sob difíceis condições meteorológicas e baixos salários – fazem com que raramente regressem. Apenas 20 por cento volta a exercer esta atividade».
«Desde 1959 que se estabeleceu que quem explora a praia é que tem de pagar o salário. Porém, hoje em dia, existem muitas pessoas a explorar as praias, além dos concessionários. A responsabilidade da contratação destes profissionais devia passar para o Estado, as autarquias ou a capitania. Deveria ser cobrada uma taxa municipal com critérios justos. Há mais de seis anos que propomos esta solução. Enquanto não mudarmos o sistema, isto vai continuar a acontecer. E este ano foi ainda mais complicado por causa da privatização da formação.
Anteriormente quem dava a formação era a escola da autoridade marítima, enquanto o ISN fazia os exames. Este ano os cursos passaram a ser coordenados por empresas de formação privada. O problema foi criado com a posição da escola da Autoridade Marítima ao dizer que não dá mais formação e entregarem essa função aos privados que duplicaram o custo do curso».
A única empresa formadora a sul do Tejo é a «4 EMES» que chega a cobrar 325 euros, quando anteriormente se cobrava cerca de 150 euros pelo curso.
Autoridade Marítima reforça alerta de precaução nas praias
Um jovem, de 16 anos, morreu esta sexta-feira, 10 de junho, depois de ter sido levado pelo mar, na praia dos Três Pauzinhos, em Vila Real de Santo António. Uma rapariga, da mesma idade, também foi arrastada, mas acabou por conseguir sair da água pelos próprios meios. A praia é concessionada mas, por falta de nadador-salvador, a concessão ainda não está a funcionar. O alerta surgiu pelas 18h30. Os dois jovens, residentes na cidade, tinham sido apanhados por uma corrente. A jovem conseguiu sair da água pelo molhe, que separa a praia do estuário do rio Guadiana, mas o rapaz só foi encontrado uma hora e meia mais tarde, por um nadador-salvador da Autoridade Marítima, que foi mobilizado para o local – numa das duas motos de água que participaram nas buscas, além de duas embarcações (uma da Polícia Marítima e outra do Instituto de Socorros a Náufragos), duas viaturas da «Praia Segura» e dois mergulhadores dos Bombeiros de Vila Real de Santo António. Ainda foram feitas manobras de reanimação, mas o óbito acabou por ser declarado já no centro de saúde local.
No âmbito deste acidente, a Autoridade Marítima Nacional reforça o alerta para todos aqueles que frequentem as praias, que o façam, adotando uma postura de segurança ativa, redobrando os cuidados junto à linha de água, privilegiando sempre as praias com vigilância de nadadores-salvadores.
Assim, a Autoridade Marítima, através do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN), aconselha-o a cumprir sempre as seguintes regras elementares:
• Vigie as suas crianças permanentemente e a uma distância próxima, não as deixando brincar junto da linha de água;
• Em caso de dúvida relativamente ao estado do mar, não arrisque e não vá a banhos;
• Respeite um intervalo de três horas após uma refeição normal, antes de ir a banhos;
• Nunca vire as costas ao mar, bem como não caminhe na areia molhada, pois se está molhada é sinal que um golpe de mar o pode arrastar para situações complicadas;
• Não deixe as crianças brincarem na zona de areia molhada, pois um golpe de mar as pode arrastar para situações complicadas;
• Nesta altura do ano, os perfis de gradiente de praia estão ainda alterados e com condições muito favoráveis de existirem agueiros, pelo que deve ter em atenção quando entrar na água;
• A temperatura do mar é ainda muito baixa, pelo que deve ter atenção aos choques térmicos.