Sempre ouvi, entre os mais novos, três palavras associadas: aerografia, graffiti, Ekofive.
Decidi ir à procura do último, para entender os outros termos. E conversei com Ricardo Jorge, 39 anos, nascido em Lisboa e criado em Almada.
Andou pelo mundo e usou o graffiti como expressão de protesto, desde tenra idade. Radicou-se em Portimão, há 4 anos, onde encontrou o «clima bom e sustentável» que buscava.
Possui formação académica de designer e especialização em aerografia, usando o graffiti como escape da sua atividade profissional. Tem apoio de várias marcas e é o representante de outras, incluindo a famosa e antiga Montana Colours.
RJ – A aerografia é muito pormenorizada, com linhas de cerca de zero vírgula um milímetro, exigindo um grande grau de concentração, usando camadas sucessivas. E temos de agradar a quem encomenda e paga o trabalho. No graffiti, não tenho de seguir regras, estou livre, uso a imaginação à vontade.
b – O graffiti dá liberdade total ao artista?
RJ – A partir do momento em que uma expressão de arte de rua entrou numa galeria de arte e se tornou moda, começou a haver encomendas e, nesse caso, regras a seguir. Mas, no geral, é liberdade e vem da pré-história, segundo alguns historiadores. Colocavam o sangue na boca e projetavam-no por sopro.
b – Mas, nos tempos modernos, é ilegal, porque feita sem autorização, e sinal de protesto?
RJ – Sim, é. A propaganda do 25 de Abril pode ser considerada graffiti. É uma forma de manifestação. Se é utilizado rolo ou spray, é indiferente, porque o graffiti é sempre uma mensagem para algo. Geralmente, é feito em muros degradados para chamar a atenção para o mesmo.
b – Parece que, nos dias que correm, já são as entidades oficiais que convidam os graffiters?
RJ (riso) – Como diz o velho ditado: se não os puderes vencer, junta-te a eles. Pintou-se tudo, acabaram-se os muros na cidade, toca a ir para as autoestradas, onde há pouco controlo. As Estradas de Portugal começaram a fazer concursos regionais para angariar artistas para pintar o muro. Já não há vandalismo e tornou-se mais profissional.
b – Irá acabar o graffiti underground, o verdadeiro?
RJ – Há dois caminhos. Ou vamos por esse caminho e só fazemos a parte do vandalismo e do «bombing», ou vamos pelo ramo profissional, especializamo-nos, angariamos clientes e fazemos uma vida saudável do graffiti. Saudável para alguns; para outros, saudável é fazer o bombing. Às vezes, convido alguns para irem fazer um mural comigo e não querem, porque há regras a cumprir. Conheço gente com bons empregos durante o dia e que, à noite, vai bombar. É o seu escape. A sua adrenalina só sai com aquilo, com o vandalismo. E, quer queiram, quer não queiram, todos acabam por lá ir. É um vício. É como andar de bicicleta; podemos não andar todos os dias, mas sabemos sempre andar (risos). De vez em quando, lá vai uma voltinha, devagar, para não se aleijar, e depois volta.
b – Quer dizer que você, às vezes, ainda lá vai?
RJ – Já não, porque tenho uma parede minha, aqui no atelier, para fazer o escape. Já não ando a vandalizar as paredes dos outros. Mas, se encontrar um sítio que dê para fazer uma chamada de atenção a algo, vou bombar, claro. Por exemplo, aqueles pinos em Portimão estavam a mexer comigo. Há em toda a parte e são todos iguais, a nível mundial. Têm tempo para pôr a pedra toda redondinha e, depois, fica a cor natural. Se tiver um desenho ou uma chamada de atenção, dá mais que falar. Para não fazer um bombing, pedi autorização à Câmara e pintei-os com os bonecos da Playmobil. Não estão mais bonitos? É um bombing saudável.
b – Profissionalmente, faz design e aerografia. Quem é que recorre à aerografia?
RJ – A aerografia é um mundo muito grande. Usa-se desde a decoração de bolos e outros produtos comestíveis até às chapas dos carros. Também se usam aerógrafos para retoques em retratos e decorar os famosos isqueiros Zip. Se há clientes em Portugal? Não! Há muito poucos. Melhor, não há quem queira pagar, porque o trabalho manual tem um custo! Por vezes, sai-me mais barato fazer o desenho e, depois, uma impressão do trabalho e o cliente levá-la, porque não tem dinheiro para me pagar o trabalho a nível de pintura. É como na pintura, levar uma serigrafia ou uma fotocópia em A3. E os portugueses devem ser «bandidos», porque não querem personalizar os carros – como se faz lá fora -, para que ninguém os identifique e saiba por onde andam. Devem ter algo a esconder.
b – Este trabalho existe grande minúcia, não é?
RJ – É muito minuciosa e as tintas dependem das superfícies onde são aplicadas. As tintas-base com alguma qualidade começam a cerca de 10 euros para um bidão de 60 mililitros, que é uma quantidade semelhante a uma bica. Se formos para as tintas translúcidas, metalizadas, perladas, etc, já vão dos 20 euros para cima.
b – Os materiais são caros, portanto?
RJ – Sim e não só as tintas. Um bom aerógrafo, calibrado, com agulhas de precisão, custa muitas centenas de euros. E é muito sensível. Basta bater para o descalibrar ou a agulha ficar torta.
b – E em termos de mão de obra?
RJ – Isso nunca se sabe. A superfície pode não ser nossa, mas do cliente, que a traz para ser personalizada. O material pode absorver a tinta, obrigando a usar várias camadas de tinta, o que encarece; pode ser uma superfície que leve mais tempo para a tinta secar; as condições atmosféricas também interferem com o trabalho. Se for um trabalho grande com poucos pormenores, é um trabalho rápido; se for pequeno e minucioso, obriga a um elevado número de horas. Foto realismo, por exemplo, leva muito tempo, porque obriga a um elevado número de camadas até chegar à cor pretendida.
O trabalho que se vê na foto, com 50X70 cms, levará cerca de dois dias a executar. Se fosse maior, numa parede com dois metros, usando latas de spray para enchimento, demoraria menos tempo, porque um aerógrafo consegue projetar o máximo de zero vírgula oito milímetros e a lata consegue fazer doze centímetros de bola. E tem um custo de material menor, porque a tinta de spray também é muito mais barata.