O casal de gémeos foi encontrado, na madrugada de quinta-feira, dia 22, já depois das duas horas, descalços, de pijama, e a brincar num parque infantil a 500 metros de casa. Aproveitaram o facto da mãe estar a dormir e a ausência do pai que trabalha por turnos num salão de jogos, para saírem de casa. Foram encontradas por um homem, o qual acabou por alertar as autoridades. Os pais já estavam sinalizados pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) devido ao estado de saúde de dois dos gémeos, que precisavam de cuidados especiais.
Ainda assim, desta vez, a CPCJ de Faro considerou que as crianças estavam em risco, e avançou com a medida cautelar de colocar as quatro crianças à guarda do Refúgio Aboim Ascensão, pelo período de seis meses. O casal tem quatro filhos: dois pares de gémeos, com três anos e 18 meses.
O pai, Samuel Garcia, de 39 anos, e a mãe Mónica Figueiredo, de 35, estão devastados com a situação. Posteriormente, a família deverá ser reavaliada para apurar se está em condições de garantir a segurança dos filhos.
Samuel Garcia confessa que esta situação já tinha acontecido antes, porém, referiu também que o casal foi «vítima de cansaço e stress acumulado» por cuidarem sozinhos e sem quaisquer apoios dos quatro filhos. Em declarações ao «barlavento» sublinharam que «nunca conseguimos vagas em infantários». Além disso, dois dos filhos nasceram prematuros e um deles necessita há 18 meses de cuidados médicos.
Na passada segunda-feira, dia 26 de outubro, o casal deslocou-se pela primeira vez ao Refúgio Aboim Ascensão para visitar os filhos. Garcia sublinha que foi «muito duro. Viemos os dois totalmente de rastos. É revoltante. Não nos acomodamos com esta situação. Somos postos numa sala com todos os outros pais e crianças e sob constante vigilância. É muito triste. Os meus filhos saíram do pé de mim a chorar». Conta que compraram prendas para as crianças mas «não nos deixaram entregá-las. Só nos deixam ver os nossos filhos às segundas e terças e durante uma hora», lamenta, revoltado.
No que toca à sociedade e ao impacto mediático deste incidente, Garcia sente-se grato, pois «as pessoas têm apoiado e dado muita força. Compreendem o que se passou».
Nas redes sociais são muitos os cidadãos que têm manifestado o seu apoio ao casal. No facebook foi criado o grupo «Quero os meus gémeos de volta», o qual conta já com mais de quatro mil membros e muitas manifestações de solidariedade. Existe também a circular uma petição pela «Entrega da custódia dos filhos, aos pais dos dois gémeos encontrados no parque, em Faro», dirigida à Comissão de Proteção a Crianças e Jovens e ao Tribunal de Menores.
Foi criada uma conta para ajudar a família com donativos e, em dois dias, foram assegurados cerca de 400 euros. Também algumas empresas disponibilizaram os seus serviços de forma gratuita. De acordo com Garcia, os fundos têm como objetivo alugar uma casa em Portimão, cidade onde já tem trabalho garantido, e onde residem as tias das crianças as quais poderão dar assistência à família. «No início, a mãe ficará com os filhos, mas assim que encontrarmos uma creche que acolha as crianças, também ela irá procurar um emprego», explica.
Em declarações ao «barlavento» Nídia Cavaco, presidente do CPCJ de Faro, afirmou que «a medida cautelar afasta-os temporariamente, mas não são retirados permanentemente, pelo que a qualquer momento podem regressar ao seio familiar, assim que os pais reorganizarem a vida dentro dos parâmetros normais para o exercício das suas responsabilidades» parentais.
Nídia Cavaco sublinhou que «a intenção será sempre que as crianças voltem para a família assim que as condições sejam reunidas». Isto é, «deverão estar integrados num equipamento socioeducativo e no mercado de trabalho com horários adequados, entre outros» requisitos, justificando que «dada a natureza sensível do caso não podemos especular e temos de manter algum sigilo para não continuar a alimentar esta situação. Está na altura de colocar um ponto final neste caso», conclui.
Contactado pelo «barlavento», Luis Villas Boas, diretor do refúgio Aboim Ascensão, referiu que «as crianças estão bem, embora uma esteja no hospital». Realça que as visitas «não têm corrido mal, mas aqui não temos estrelas. As regras da casa têm 30 anos e não há exceções, os pais têm de se adaptar. Em três décadas de trabalho e duas mil crianças, nunca tinha ouvido que as nossas técnicas pareciam guardas prisionais, como o pai dos gémeos referiu. É insultuoso para o Refúgio. Os tratos e cuidados que temos aqui mais ninguém oferece no país. Nem este carinho e segurança», criticou. «O meu desejo é que as crianças se reencontrem com a sua família o mais depressa possível, porque esse é o destino que todos aqui merecem», concluiu.
Donativos Se quiser contribuir com donativos para ajudar o Samuel e a Alexandra poderá fazê-lo através da seguinte conta:
IBAN: PT50003800004034076777163
NIB: 003800004034076777163