“O cancro é das doenças para a qual temos cada vez mais tratamentos e possibilidades de cura. Contudo, com a maior longevidade da população, as doenças oncológicas também têm aumentado. Segundo as recomendações da OMS, calcula-se que cerca de 80 por cento dos doentes com cancro que virão a falecer podem necessitar de cuidados paliativos diferenciados. Assim, de acordo com a mortalidade em Portugal, cerca de 18.000 doentes com cancro podem necessitar, anualmente, destes cuidados. A necessidade de cuidados paliativos na doença oncológica não diminui, pelo contrário, aumenta se quisermos melhorar a qualidade da assistência prestada a estes doentes”, explica Elga Freire, coordenadora do NEMPAL.
Segundo dados da European Association for Palliative Care, em 2013 Portugal estava na cauda dos países da União Europeia, com 5,05 serviços de cuidados paliativos por milhão de habitantes.
Elga Freire reconhece que em Portugal ainda falta cobrir grande parte das necessidades de cuidados paliativos, seja internamento ou domicílio. Segundo esta especialista em Medicina Interna, “a resposta deve passar pela mudança dos cuidados prestados aos doentes crónicos e terminais, o que implica, sobretudo, a formação e treino em cuidados paliativos de todos os profissionais de saúde que tratam estes doentes e a criação de estruturas em número suficiente para poder responder às reais necessidades da população portuguesa”.
“É urgente haver um maior empenho das políticas de saúde e sociais para que se implementem as várias estruturas já definidas, nomeadamente os cuidados paliativos domiciliários que vão ao encontro das preferências da população portuguesa, segundo um estudo de Bárbara Gomes para o Cicely Saunders Institute, King’s College London, publicado em 2010”, assevera a coordenadora do NEMPAL.
A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) calcula que cerca de 90 por cento dos portugueses que precisam de cuidados paliativos não os recebe. Para Elga Freire, isto acontece porque não há respostas adequadas. “De acordo com os estudos mais recentes, 60 por cento dos doentes falecidos necessitariam de cuidados paliativos, repartindo-se equitativamente por diferentes níveis de complexidade. No que respeita às diferentes tipologias de unidades/equipas, calcula-se que serão necessárias 133 equipas de cuidados paliativos domiciliários, 102 equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos (uma em cada instituição hospitalar), 28 unidades de internamento em hospitais de agudos e 46 unidades vocacionadas para doentes crónicos. Os recursos atuais ainda estão longe destes números”, conclui a especialista.
Sobre os Cuidados Paliativos
Os Cuidados Paliativos visam melhorar a qualidade de vida das pessoas com doenças graves e/ou incuráveis e das suas famílias, prevenindo e aliviando o sofrimento através da identificação precoce, avaliação adequada e tratamento rigoroso dos problemas físicos, psicossociais e espirituais” (OMS, 2002). Assim, através de uma abordagem multidisciplinar, que alarga o modelo tradicional de tratamento “muito virado para a cura”, os cuidados paliativos por colocarem o enfoque na melhoria da qualidade de vida, optimização da função, ajuda na tomada de decisões sobre os cuidados de fim de vida e apoio à família, devem ser introduzidos desde o momento do diagnóstico nas doenças crónicas e progressivas sejam oncológicas ou não oncológicas como por exemplo doenças respiratórias, cardíacas, renais, do fígado, neurológicas, SIDA.