Sendo certo que nem sempre será fácil delimitar uma fronteira entre tais domínios, ou seja, o da opinião pública sobre a justiça e, em nome de tal opinião, se acabar, objetivamente, a julgar publicamente um qualquer caso, não será menos verdade que se terá vindo, preocupantemente, a assistir a um crescendo de autênticos julgamentos na praça pública, em que as pessoas visadas, mesmo que amanhã se venha a reconhecer a sua inocência, veem o seu bom nome ser posto em causa para sempre.
Perguntando-se a que se deverá tal estado de coisas e sem prejuízo de quem possa fazer uma melhor análise sociológica da matéria, ousaríamos avançar com as seguintes explicações:
Em primeiro lugar, seremos «voyeuristas», gostamos de espreitar pelo «buraco da fechadura» para a casa do vizinho, nomeadamente, se tiver algo que lhe invejamos, na expetativa de que alguma desgraça lhe aconteça e, assim, podermos exorcizar as nossas próprias frustrações;
em segundo lugar, o haver uma imprensa, sobretudo em tempo de crise, cada vez mais preocupada com os dividendos dos respetivos acionistas e assente em «candidatos a jornalistas a recibo verde», do que, propriamente, com a observação de códigos deontológicos, explorando até ao tutano o «voyeurismo» atrás referido e, assim, garantindo venda de papel e audiências;
finalmente, teremos «acusação versus defesa», face aos circunstancialismos atrás referidos, a procurar, também, o proveito possível deles, em prol dos interesses antagónicos que cada uma persegue, num «se tu revelaste publicamente, eu revelo também», ainda que nem sempre se consiga perceber quem terá, exatamente, revelado primeiro.
Entretanto, entretidos que vamos estando com tantos «casos» e «julgamentos» na praça pública, não deverá estranhar-se que o país tenha estagnado economicamente na última década. Afinal, não podemos preocupa-nos com tudo ao mesmo tempo, a não ser não quando uma «crise» nos caia em cima da cabeça. E mesmo assim…
*Advogado