“Não temos grandes meios, mas temos grandes temas” foi assim que António Carvalho, Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, à reportagem do Barlavento, se referiu à ali recentemente inaugurada exposição “Quem nos Escreve desde a Serra”, dedicada à chamada “escrita do Sudoeste” que, coincidindo cronológica e aproximadamente com a Idade do Ferro, cerca do 1º milénio antes de Cristo, era praticada no Baixo Alentejo e Algarve, constituindo um dos maiores tesouros da arqueologia europeia bem como uma imagem de marca e um símbolo privilegiado da herança histórica da região.
A exposição, que decorre naquele museu da capital, comporta dois núcleos. O mais visível está patente ao público no passeio fronteiro ao Mosteiro dos Jerónimos, assim permitindo aos estrangeiros e nacionais que passam pela certamente mais turística e visitada área de Lisboa, em que também se encontram, entre outros, os museus dos Coches e da Marinha, o Palácio e Centro Cultural de Belém, o Planetário, a Praça do Império, a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, o possam, por um lado, facilmente apreciar e, por outro, sentirem-se convidados a entrar no núcleo da exposição que se encontra no espaço interior do edifício.
Como António Carvalho referiu ao Barlavento, a ideia do núcleo exterior foi a de trazer o museu para um território mais acessível, como é o caso da rua, permitindo ainda que a visualização da exposição se possa fazer 24 horas por dia, 7 dias na semana, igualmente possibilitando, como sucede nesta mostra, a criação de património artístico contemporâneo a partir de património cultural milenar, já que conta, no relvado, com a recriação das cinco vogais da escrita do Sudoeste em instalações, de 3 metros de altura em ferro e rede de pesca, da autoria de Ângela Menezes e ainda, na calçada, de nove painéis duplos, aqui se destacando, por mais recentes e de cor diferente dos demais, comportando estes uma criativa abordagem do tema através da apresentação de pintura mural, o de Ângela Menezes e o da autoria do artista plástico El Menau, que recordamos ser o jovem que foi absolvido, em nome da liberdade de expressão artística, pelo Tribunal de Faro em julho de 2014, da acusação da prática do crime de ultraje à bandeira nacional pela forma metafórica como a apresentou na instalação “Portugal na forca”, seu trabalho final do curso de Artes Visuais da Universidade do Algarve de que era aluno.
“A escrita do Sudoeste, descoberta no Baixo Guadiana e nas serranias que dividem o Alentejo e o Algarve, bem como no barrocal, é a primeira manifestação, bem caracterizada, de escrita da Península Ibérica e uma das mais antigas da Europa, que apesar de estar, ainda hoje, por decifrar, constitui como que uma voz que, de uma forma excecional, nos aproxima dos pensamentos e modos de vida do passado”, como explicou Pedro Barros, comissário científico da exposição, à medida que por esta nos guiava.
Acrescentando , enquanto entusiasticamente nos conduzia, que na Península Ibérica, há mais de 2500 anos, após a Idade do Bronze e antes da época romana, num período de grandes inovações tecnológicas (início da exploração do ferro, produção cerâmica de roda e construção retangular das casas, nomeadamente) e transformações culturais e religiosas, os povos do Sul de Portugal e da Andaluzia, a partir do alfabeto fenício vindo do Mediterrâneo Oriental, criaram, com inclusão de novas letras, uma escrita própria da língua falada na região: a escrita do Sudoeste, para a qual ainda não se encontrou a sua Pedra de Roseta – chave para a sua decifração. Com efeito, apesar de conhecermos os sons do seu alfabeto e de o podermos ler, não o sabemos traduzir. O mesmo que acontece a um português que, por exemplo, não conheça uma qualquer língua escandinava, consegue ler e sonorizar um texto nelas escrito mas não perceberá nem o significado das palavras nem o conteúdo das frases.
Concentrados na serra do Algarve existem cerca de cem vestígios desta escrita sendo que a maioria se encontram em estelas: blocos de pedra (mais exatamente lajes de xisto, em regra retangulares, muitas com cerca de um metro de altura) fixados no solo, onde o texto, para nós enigmático, era gravado e escrito em arco, na direção contrária à nossa: de baixo para cima e da direita para a esquerda.
A distribuição espacial das estelas, no atual território português, tem como pontos fulcrais a serra de Mú e Caldeirão, na zona de transição montanhosa entre o Alentejo e o Algarve. Aqui, podem ser assinalados dois conjuntos, um a Sul, na transição da serra com o barrocal, entre Benafim e Salir, onde foram encontradas as estelas da Fazenda das Alagoas, Viameiro e Barradas e que com as estelas encontradas em Bensafrim (Lagos) e São Bartolomeu de Messines (Silves) traçam o limite Sul da concentração de estelas com escrita do Sudoeste. E o outro, a Norte, em torno das Ribeiras do Vascãozinho, Vascanito e do Vascão, confirmando este local com uma das três principais concentrações deste tipo de vestígios epigráficos, que engloba sítios arqueológicos hoje localizados em Loulé e em Almodôvar.
O primeiro fragmento de uma estela com escrita do Sudoeste do concelho de Loulé foi encontrado em 1897. Mais de uma centena de anos depois, a identificação destes monumentos epigráficos deve-se ao precioso contributo de inúmeros louletanos, investigadores e apaixonados pela arqueologia, como o Prior de Salir, José Rosa Madeira, José Viegas Gregório, Isilda Martins e Victor Borges. A eles se juntam ainda investigadores como Ataíde de Oliveira, José Leite de Vasconcelos, Caetano de Mello Beirão e Manuel Gómez de Sosa (conhecido no Ameixial como o espanhol do papagaio amarelo), que contribuíram para a identificação de diversas estelas repartidas pelos conjuntos de Benafim/Salir e do Ameixial e para a investigação da escrita do Sudoeste.
António Carvalho sublinhou-nos também a importância do algarvio Estácio da Veiga na recolha de todo este importante acervo. O Museu Nacional de Arqueologia é atualmente a instituição com a maior coleção de estelas com escrita do Sudoeste (concentra cerca de 40% das recolhidas até agora), o que faz dele um dos locais obrigatórios para a sua investigação e divulgação, como mencionou ao Barlavento a arqueóloga Isabel Inácio.
A importância deste património arqueológico tem sido reconhecida mundo fora, tendo, em maio último, uma equipa da BBC estado a filmar as estelas com escrita do Sudoeste e a paisagem onde estas foram encontradas nos concelhos de Almodôvar e Loulé para a realização de um documentário histórico de três episódios que será apresentado até ao final do ano. O interesse dos britânicos assenta também na circunstância de novas teorias apontarem evidências linguísticas entre a escrita do Sudoeste e as línguas Celtas.
A exposição resulta de uma colaboração da Câmara Municipal de Loulé com o Projeto ESTELA. Este projeto tem a preocupação de transformar o conhecimento científico adquirido no reforço da identidade das pessoas com o seu património e de criar com esta informação uma paisagem cultural. Nascido em 2008, tem por primeiro objetivo a sistematização da informação das estelas com escrita do Sudoeste, através da caracterização dos contextos, da cultura material e do território dos sítios arqueológicos da serra do Algarve e do Alentejo, contribuindo para a revisão e produção de conhecimento sobre a sociedade que aí habitou, nos meados do 1º milénio a.C..
A exposição, que é itinerante (esteve antes em Salir, Benafim, Ameixial e Quarteira) e bilingue (português e inglês, permitindo uma compreensão dos conteúdos por visitantes além-fronteiras), foi organizada pelo Museu Nacional de Arqueologia, pela Câmara Municipal de Loulé e pelo Projeto ESTELA, com a colaboração do Projeto EUROVISION, e contou com o apoio, entre outros, da Direção Regional de Cultura do Algarve, das Juntas de Freguesia do Ameixial, Benafim e Salir e do Museu Municipal de Faro, estará patente ao público em Lisboa até ao dia 27 de setembro, permanecendo o seu núcleo interior visitável até 29 de novembro.
Como referem os seus responsáveis e no local constatámos, os conteúdos da exposição são sucintos e concentrados na transmissão das ideias principais, num discurso contemporâneo e criativo que satisfaz mais do que um tipo de visitante, sendo transversal nas faixas etárias, no nível de conhecimento e nos graus de interesse.
Durante os meses de exibição da exposição, para além de visitas guiadas e diversificadas atividades infanto-juvenis, haverá lugar a um extenso plano de atividades, de que destacamos a apresentação de um documentário sobre a evolução do tema, um concurso literário e um ciclo de debate cientifico sobre este assunto.
Arte de rua e atividades paralelas
A exposição comporta dois núcleos. O mais visível está patente ao público no passeio fronteiro ao Mosteiro dos Jerónimos, permitindo aos estrangeiros e nacionais que passam pela certamente mais turística e visitada área de Lisboa, apreciar e, por outro, sentirem-se convidados a entrar no segundo núcleo, apresentado no hall de entrada do Museu.
Segundo António Carvalho referiu «barlavento», a ideia do núcleo exterior é trazer o museu para a rua, permitindo que a criação artística contemporânea inspirada neste património cultural milenar, possa estar disponíveis 24 horas por dia, 7 dias na semana.
No relvado, está patente a recriação das cinco vogais da escrita do Sudoeste em instalações, de 3 metros de altura em ferro e rede de pesca, da autoria de Ângela Menezes. Na calçada, estão dez painéis, oito são informativos, dois são intervenções de arte contemporânea inspiradas no tema, da autoria do jovem artista plástico de Quarteira, Élsio Menau e de também de Ângela Menezes. A visita a ambos os núcleos tem entrada livre. O Museu funciona de terça-feira a domingo das 10h00 às 18h00.
Texto: A.J.Matos | Fotos: Apoema Calheiros