José Cid e a Orquestra Clássica do Sul (OCS) estreiam hoje em Faro versão orquestrada de «10.000 anos depois entre Vénus e Marte».
O épico álbum «10.000 anos depois entre Vénus e Marte», disco de rock progressivo de José Cid, vai ser interpretado na íntegra pelo próprio acompanhado pela Orquestra Clássica do Sul (OCS) no Festival F, em Faro.
É a primeira vez que o histórico disco será orquestrado, num concerto inédito agendado para hoje, dia 1 de setembro, às 20h45, Palco Sé By Santa Casa.
Rui Pinheiro, maestro titular da Orquestra Clássica do Sul, dirigiu o ensaio na tarde ontem, no palco do Teatro das Figuras e mostrou-se entusiasmado.
«Estamos a falar de um álbum absolutamente fantástico que conheço muito bem e que tem um lado sinfónico e orquestral que funciona muito bem. O concerto está pensado como uma sinfonia, em que há uma estrutura e uma história que é contada do princípio ao fim. Não são temas separados e efetivamente estamos a falar em música que se presta a esta produção», explicou aos jornalistas.
As pautas dos arranjos, por António Andrade Santos e Artur Guimarães, chegaram às mãos dos músicos da OCS na semana passada.
«Vai ser uma grande estreia mundial. Há elementos muito expressivos nas cordas mas também nas flautas e nos oboés. Há toques de fanfarra e algumas melodias absolutamente brilhantes», comentou.
«Volto a dizer que, independemente do estilo, esta é uma obra-prima da música portuguesa dos anos 1970. Por tocá-la agora com a orquestra e com José Cid é um grande privilégio para nós. Não tenho dúvidas que este concerto vai ser um acontecimento», rematou o maestro.
A colaboração da OCS com universos fora dos cânones clássicos tem sido variada, com colaborações recentes com músicos como Pedro Abrunhosa e Dino d’Santiago.
Por sua vez, José Cid, 80 anos, mostrou-se em grande forma e satisfeito por voltar a tocar em Faro.
«É uma maravilha. Depois de termos feitos tantos concertos, aparece-nos esta oportunidade. Foi um desafio lançado pelo Gil Silva. Disse-me que tinha uma orquestra fantástica para me acompanhar e eu aceitei. Pensei que fosse um espetáculo para o Teatro das Figuras, mas passou para o ar livre, para grandes audiências. Isto não é um álbum para grandes audiências. Não é um álbum para levar ao Campo Pequeno. É para levar ao Coliseu ou à Aula Magna», apontou.
A verdade é que «10.000 anos depois entre Vénus e Marte» ainda hoje tem grande uma legião de fãs. «Sim, vamos lá ver se eles estão cá», brincou.
«Estou com um pouco de receio, não venham as pessoas pensando que vão ouvir o rock dos bons velhos tempos» ou os hits mais conhecidos do repertório do cantor, como «A Cabana junto à praia» entre outros. «Porque se for o caso, arma-se uma confusão tremenda e têm de levar com» aquele que foi considerado pela revista Billboard como um dos 100 melhores álbuns de rock progressivo do mundo.
«Gostei muito do ensaio com a orquestra. Os instrumentos do rock sinfónico são sofisticados porque este é o rock erudito», explica o veterano que lançou este ano um disco chamado «Vozes do Além».
«Demora tempo a escrever uma obra destas. É um triplo vinil, o primeiro deste milénio da música portuguesa. Sem se saber como nem porquê entrou no TOP português em março. Foi fantástico, esgotou. Em setembro volta a ter nova edição. Poeticamente é superior ao 10.000 anos porque tem autores geniais, a opinar sobre a vida depois da morte e o regresso à vida depois da morte. Quando se está a trabalhar com grande poesia é muito mais fácil fazer grande música. Acho que é isso que Vozes do Além tem», revelou aos jornalistas.
José Cid admite que está num momento positivo de criatividade e já está a alinhavar um novo disco que se chamará «Depois logo se vê». «É bom, não é?», brincou. O primeiro single que deverá chegar às rádios chama-se «Nas noites de Lisboa».
Segundo o autor «é um rock muito british, com um grande poema de Mário Mata. Fala sobre o lado sórdido, cinzento e preto de Lisboa underground, mas com uma moralização. Temos sempre um barman a quem confessar, um DJ a quem perguntar e podes ser afável sem ser submisso ou ser implacável. Não é propriamente essas músicas de agora em que toda a chora imenso», descreveu.
Questionado sobre como vê a criação musical da atualidade, José Cid tende a olhar para um certo dramatismo.

«As novas gerações são muito choronas. Vejam bem as letras. Há excepções, como a Ana Bacalhau e a Marisa Liz. Mas as outras, apesar de serem bonitas e criativas, são choronas. Quando abri o Sol da Caparica Festival [no dia 15 de agosto], estavam milhares de raparigas à espera da Bárbara Bandeira. Eu compreendo. É geração delas. Mandei-lhes hora e meia de rock pesado, nada cor de rosa, para cima delas. É preciso que percebam que há outras músicas e outros estilos. A reação foi fantástica. Perderam os braços no ar, os telemóveis no ar e essas coisas e apanharam o rock puro e duro».
Por fim, deixou uma mensagem. «O rock está vivo e é cada vez mais preciso porque a criatividade está cada vez mais armada em velório. Está toda a apostar nas baladinhas e em coisinhas assim sofredoras e muito derrotadas pela vida».
No próximo ano será lançado um álbum chamado «TozéCid» que «são os temas que deixámos para trás no Quarteto 1111, regravados, completamente acústicos. Recuperamos temas como Todo o mundo e ninguém e Lisboa, ano 3000. Regrávamos tudo de novo. E as nossas vozes estão muito bem», garantiu.
Aos 80 anos, Cid mostra «às novas gerações que, se quiserem, fazendo desporto, que toda a vida pratiquei, não bebendo, não fumando, é possível chegar a esta idade em boa forma. É o caso de Paulo Carvalho que está a cantar fantástico. Os outros estão um pouco mais atrapalhadotes mas não deixam de ter grandes talentos. E todos os dias durmo uma sesta de hora e meia… nem que a Rainha de Inglaterra visite a minha casa».
O concerto está agendado para hoje às 20h45, no Palco Sé, no arranque da 7.ª edição do Festival F, que decorre até sábado na zona histórica de Faro, com nove palcos onde atuarão mais de 50 artistas e bandas.
A entrada no festival é gratuita para crianças até aos 12 anos, tendo a entrada para um dia o valor de 22 euros e o passe para os três dias do festival o valor de 54 euros.
O Festival F é organizado pelo município de Faro, o Teatro Municipal de Faro, a Empresa Municipal de Gestão de Equipamentos Ambifaro e a produtora Sons em Trânsito.
