Com as alterações climáticas a intensificarem a pressão sobre os recursos hídricos, é urgente adotar uma visão estratégica e proativa na gestão da água e do ambiente.
O futuro do sector da água apresenta desafios sem precedentes, mas também oportunidades para transformar a forma como gerimos os recursos hídricos.
o Algarve, uma região particularmente vulnerável às alterações climáticas, a necessidade de antecipação e planeamento estratégico torna-se imperativa. De nada serve reagir apenas quando a crise já se instalou; é fundamental agir antes, preparar, prevenir e adotar soluções sustentáveis que assegurem a resiliência hídrica e ambiental da região.
Nos últimos anos, temos assistido a fenómenos extremos cada vez mais frequentes e intensos. A alternância entre períodos de seca severa e chuvas torrenciais desafia os sistemas naturais e humanos.
Os solos, muitas vezes impermeabilizados pela urbanização descontrolada, são incapazes de reter grandes volumes de água, resultando em escoamentos rápidos e descontrolados que causam cheias, erosão e perda de recursos hídricos.
Enquanto isso, noutras partes do mundo, a seca extrema dizima culturas, compromete o abastecimento de água e ameaça vidas. O desafio da adaptação é global, mas as soluções precisam de ser pensadas à escala local, com estratégias ajustadas às especificidades de cada região.
Diante deste cenário, torna-se essencial diversificar as fontes de água disponíveis.
Uma das soluções passa por captar e armazenar melhor a água da chuva, garantindo que não se perca no mar. O armazenamento para usos não potáveis, como a rega de espaços verdes urbanos e industriais, pode contribuir significativamente para a gestão sustentável do recurso.
Outra aposta fundamental é uma maior utilização de Água para Reutilização (ApR) provenientes das Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), uma estratégia que já está a ser aplicada em diversas partes do mundo com grande sucesso. Em sectores como o golfe, e em especial a agricultura, a utilização de água residual tratada pode reduzir a pressão sobre as reservas hídricas convencionais e promover a eficiência hídrica.
No Algarve, onde o turismo e a agricultura desempenham um papel crucial na economia, esta abordagem pode representar um avanço significativo. A dessalinização da água do mar surge também como uma solução inevitável para garantir o abastecimento em períodos de escassez. O investimento nesta tecnologia, já em curso na região, representa um passo importante para assegurar a disponibilidade de água para o consumo humano.
Não podemos esquecer que as águas subterrâneas são um recurso estratégico que deve ser protegido. Em Portugal, existem cerca de 62 aquíferos, sendo o de Querença-Silves um dos mais importantes do Algarve.
No entanto, a pressão sobre estas reservas tem levado à sua sobre-exploração e, em alguns casos, à intrusão salina – um fenómeno em que a água salgada invade os aquíferos devido à extração excessiva de água doce. Esta é uma ameaça real, sobretudo para aquíferos próximos do litoral, tornando ainda mais urgente a implementação de medidas para preservar estas reservas como último recurso e não como fonte primária de abastecimento.
A urbanização descontrolada e a impermeabilização excessiva dos solos têm dificultado a recarga natural dos aquíferos. Durante décadas, construímos sobre terrenos que deveriam ser reservados para a infiltração da água da chuva, impedindo que os aquíferos se reabasteçam naturalmente. Uma solução passa pela implementação de pavimentos permeáveis nas cidades e pela criação de infraestruturas que favoreçam a infiltração da água no solo.
Repensar as cidades para um futuro sustentável é essencial. A relação entre o crescimento urbano e a sustentabilidade hídrica não pode ser ignorada.
A expansão das cidades tem sido feita, muitas vezes, sem considerar a importância dos espaços verdes e das zonas de infiltração de água. No entanto, áreas arborizadas desempenham um papel crucial na absorção da água da chuva, reduzindo o risco de cheias e contribuindo para o equilíbrio hídrico.
É essencial que o planeamento urbano inclua mais parques e corredores verdes, capazes de reter e filtrar a água da chuva, além de promoverem a biodiversidade e melhorarem a qualidade de vida da população.
Soluções baseadas na natureza, como a renaturalização de cursos de água e a recuperação de zonas húmidas, devem ser integradas nas estratégias urbanísticas para tornar as cidades mais resilientes às alterações climáticas.
No âmbito da economia circular e gestão eficiente da água, o futuro da gestão da água passa também por uma mudança de mentalidades relativamente ao seu consumo.
A adoção de soluções inovadoras de economia circular é essencial para garantir um uso mais eficiente do recurso. Tecnologias que permitam a redução do desperdício, como sistemas inteligentes de monitorização do consumo e detecção de fugas, devem ser implementadas de forma mais abrangente.
Além disso, é fundamental continuar a investir na sensibilização da população para a importância da eficiência hídrica, e no valor real da água. Pequenas mudanças de comportamento podem ter um impacto significativo na preservação dos recursos hídricos, e a educação ambiental desempenha um papel-chave neste processo.
Com as alterações climáticas a intensificarem a pressão sobre os recursos hídricos, é urgente adotar uma visão estratégica e proativa na gestão da água e do ambiente. O futuro do sector dependerá da nossa capacidade de antecipar desafios, diversificar fontes de abastecimento, proteger os aquíferos, repensar o urbanismo e adotar soluções inovadoras de economia circular.
O Algarve, tal como muitas outras regiões vulneráveis, enfrenta um momento decisivo. O caminho para um futuro resiliente não pode ser adiado. Só com um planeamento cuidado e políticas eficazes conseguiremos garantir que a água, esse recurso essencial à vida, continue a estar disponível para as próximas gerações.
Teresa Fernandes | Porta-voz da Águas do Algarve
Especialista em Estratégia de Comunicação e Educação Ambiental.
Artigo publicado no âmbito dos 50 anos do jornal barlavento.
Foto: Luís Torres