A exigência com que temos de encarar o futuro próximo é deveras importante. E o Ambiente, nas suas várias gavetas temáticas, está entre um dos mais difíceis e vitais.
Passados 50 anos após a Revolução dos Cravos chegamos ironicamente a um momento semelhante a uma volta de carrossel. Situamo-nos, novamente, no ponto de partida, a iniciar uma viagem, onde teremos, outra vez, de conquistar valores que dávamos por garantidos. É uma realidade com que os nossos heróis do 25 de Abril certamente não contavam.
A regressão a que temos vindo a assistir em diferentes sectores da nossa sociedade e em várias partes do mundo, leva-nos a crer que os próximos anos serão desafiantes, para não dizer decisivos. A exigência com que temos de encarar o futuro próximo é deveras importante. E o Ambiente, nas suas várias gavetas temáticas, está entre um dos mais difíceis e vitais.
As décadas que antecederam os tempos atuais, colocaram a ecologia e a sustentabilidade na ordem das preocupações e do debate planetário.
Em Portugal, podemos orgulhar-nos pelo caminho percorrido. Criámos uma rede nacional de áreas protegidas, implementámos políticas de ordenamento territorial, eliminámos milhares de lixeiras ilegais, iniciámos um caminho notável na produção de energias renováveis, estabelecemos uma legislação específica para a conservação da água, apostámos na educação ambiental, entre muitos outros aspetos.
Foram anos de progresso no que à sensibilização e proteção ambiental diz respeito.
Mas os resultados nem sempre foram os esperados, pois em simultâneo a este percurso, outros paralelos foram igualmente trilhados, nomeadamente o da massificação turística e imobiliária – especialmente no litoral – o desordenamento territorial, o abandono do espaço rural e florestal ou ainda a desertificação de solos.
E estes fenómenos ganharam, infelizmente, um tal protagonismo que hoje condicionam a boa gestão do bem comum.
Apesar das lições que fomos recebendo de dentro e de fora do país, a verdade é que hoje estamos numa encruzilhada que exige uma firme convicção e coragem política.
Numa região como o Algarve, em que quase 50 por cento da mesma se encontra classificada do ponto de vista ambiental, onde a água é um elemento cada vez mais escasso, em que a assimetria entre o interior e o litoral é gritante, a economia gira em torno de um segmento dominante – o Turismo – e onde o imobiliário dita as suas regras, é crucial a que se assista a uma mudança na forma como é exercida a gestão do território.
A começar pela simples assunção de que existem limites. Limites para a construção. Limites para a expansão da agricultura intensiva. Limites para o consumo de água. Limites para a transformação e impermeabilização do solo. Limites para a artificialização da paisagem. Limites para o acolhimento de turistas. Limites para uso desregrado dos recursos sem uma perspectiva de longo prazo.
Há que repensar essa intervenção perante aquilo que são hoje os desafios de sustentabilidade do século XXI, sem ignorar o nosso histórico acumulado de 50 anos e a pensar no que queremos nos 50 próximos.
Como vários ilustres pensadores já o referiram no passado, o Algarve é uma região particularmente especial. Orlando Ribeiro, Manuel Gomes Guerreiro, João Lúcio, Jacinto Palma Dias ou Charles Bonnet, são apenas alguns desses exemplos que, vivendo na região ou explorando-a nas suas viagens, enalteceram as suas peculiares e distintivas características.
Poucos saberão, mas esta é ainda a região mais rica em biodiversidade do país. Tanto do ponto de vista biológico como agrícola. É também uma arca de sabedoria ancestral adquirida ao longo de séculos pelas gentes da terra e do mar numa relação harmoniosa com o meio.
Daí a extensa riqueza expressa na sua arquitetura tradicional, nos conhecimentos populares ligados ao saber-fazer, na gastronomia simples e saudável, nas múltiplas expressões etnográficas ou na produção agrícola extensiva. Todos eles hoje altamente reconhecidos pela sua valia, pertinência e necessidade nos tempos atuais.
Tudo isto está, porém, sob uma intensa erosão, a esvair-se, como que uma hemorragia aberta. E os próximos anos serão verdadeiramente vitais caso queiramos salvaguardar ainda algum desse património.
As alterações climáticas vieram ditar um certo caminho a seguir. A resiliência, tanto ambiental como económica, obriga a novas abordagens de pensamento e planeamento. As comunidades locais terão de ter uma palavra no destino do seu lugar.
A prosperidade, aliada à felicidade, à saúde e ao bem-estar, requer uma nova relação com o meio, no qual a Natureza deve ser encarada como um bem vital, cada vez mais relevante e indispensável na nossa qualidade de vida. Tudo aponta numa determinada direção. A única na verdade.
Saibamos aproveitar o rico legado que nos foi transmitido e corrigir a trajetória para um futuro mais sustentável.
João Ministro | Diretor Geral do projeto TASA e da Proactivetur
Formou-se em Engenharia do Ambiente, pela Universidade do Algarve (UAlg) e trabalhou na Reserva Natural do Estuário do Sado em recuperação de salinas e conservação de aves aquáticas. Coordenou a Via Algarviana, pela Associação Almargem. Em 2010 criou a Proactivetur, agência de viagens e consultora especializada em turismo responsável e em projetos de desenvolvimento do interior algarvio.
Artigo publicado no âmbito dos 50 anos do jornal barlavento.
Foto: Luís Torres