A Comissão Europeia está a preparar um sistema de comunicação por satélite que permitirá alertar todos os cidadãos da União Europeia em caso de emergência, mesmo perante um apagão total, foi hoje anunciado em Estrasburgo.
Num debate no Parlamento Europeu sobre fenómenos meteorológicos extremos, em particular em Portugal, sul de Itália, Malta e Grécia, a comissária europeia para a Preparação e a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, explicou que, «através do sistema de satélites Galileo, vai ser possível, dentro em breve, enviar mensagens a todos os cidadãos da UE em caso de emergência, mesmo que haja um apagão total».
A responsável reconheceu que as políticas atuais já não estão à altura das catástrofes. «Precisamos de prevenção, reparação e recuperação, de mais instrumentos e mais bem adaptados», afirmou, acrescentando que Bruxelas irá apresentar em breve uma estratégia integrada para o clima e uma comunicação específica sobre o combate aos incêndios florestais.
No debate, o executivo comunitário assumiu que a União Europeia «não está suficientemente preparada para os impactos» das catástrofes naturais, que colocam «desafios crescentes», defendendo ser «necessário pensar para além da resposta imediata e considerar as consequências a longo prazo».
Nesse contexto, Hadja Lahbib adiantou que, face ao risco de incêndios florestais no próximo verão, a Comissão Europeia está a preparar uma «comunicação sobre o combate aos incêndios e a gestão do risco».
«Infelizmente, sabemos que estes eventos trágicos em Espanha, Portugal, Malta e Grécia não serão os últimos desta magnitude», afirmou a comissária, sublinhando que Bruxelas está também a desenvolver uma estratégia integrada para a resiliência climática, com medidas dirigidas a pessoas e empresas, que trará mais clareza e informação sobre os riscos específicos de cada Estado-membro.
A comissária destacou ainda que a UE está pronta para ajudar os Estados-membros recentemente afetados por tempestades, referindo que a luta contra as alterações climáticas pode ser reforçada com fundos de Coesão, da política agrícola, do Fundo Social Europeu e do programa Erasmus+, nomeadamente na qualificação das forças de intervenção para a recuperação.
«A UE tem de melhorar a preparação e combinar as forças nacionais com a coordenação europeia para responder melhor às necessidades perante fenómenos meteorológicos extremos», defendeu.
No debate intervieram vários eurodeputados portugueses. Lídia Pereira, do PSD, salientou que «os eventos extremos deixaram de ser exceção» e advertiu que «se os tempos mudaram, a ação política também tem de mudar».
João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, sugeriu a criação de um plano europeu de adaptação a catástrofes naturais e o reforço do mecanismo europeu de solidariedade.
João Oliveira, do PCP, manifestou «incompreensão face à ausência de pedido de auxílio» do Governo português ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil e defendeu «medidas de fundo» e mecanismos de apoio financeiro para além do Programa de Recuperação e Resiliência.
Marta Temido, do PS, lembrou que a bacia do Mediterrâneo e a Península Ibérica se tornaram a «zona zero da crise climática da Europa», onde se vive «entre incêndios devastadores e inundações catastróficas», considerando essencial a coordenação nacional, «qualquer que seja o mecanismo europeu por detrás».
Tiago Moreira de Sá, do Chega, sublinhou que, em situações de emergência, «os apoios europeus têm de ser mais rápidos, eficazes e menos burocráticos», defendendo que a resposta «não pode ficar refém de procedimentos lentos ou calendários administrativos».
Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, criticou «uma maioria de irresponsáveis» no Parlamento Europeu que «recua em todos os compromissos climáticos», apelando a que a União Europeia «esteja à altura do enorme movimento de solidariedade», nomeadamente em Portugal.
Em Portugal, quinze pessoas morreram desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também centenas de feridos e desalojados.
Hoje de manhã, cerca de 35 mil clientes da E-Redes permaneciam sem abastecimento de energia elétrica devido ao mau tempo.
A destruição total ou parcial de habitações, empresas e equipamentos, a queda de árvores e estruturas, o encerramento de estradas, escolas e serviços de transporte, bem como cortes de energia, água e comunicações, inundações e cheias, estão entre as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas. O Governo prolongou a situação de calamidade até ao dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
