Tyler Shields estreia exposição em Loulé e explica ao barlavento como cria cada fotografia como parte de uma história que deixa o público a imaginar
O fotógrafo e cineasta norte-americano Tyler Shields apresenta, pela primeira vez em Portugal, uma exposição a solo, na Galeria In the Pink, em Loulé. A mostra, inaugurada a 27 de fevereiro com a presença do autor, reúne cerca de uma década de trabalho e revela também imagens nunca antes apresentadas publicamente.
Em entrevista ao barlavento, Shields fala sobre o seu percurso improvável até à fotografia, o processo criativo por trás das suas obras e a forma como reage às críticas que muitas delas provocam.
Apesar de já ter visitado Portugal anteriormente, o sul era ainda território desconhecido. «Já tinha estado em Lisboa duas ou três vezes, mas é a minha primeira vez no Algarve. É incrível. Caminhei hoje até à praia para ver o nascer do sol. Foi muito bonito», descreve.
Um percurso improvável
Nascido em Jacksonville, na Florida, Shields começou a afirmar-se no início dos anos 2000 e tornou-se uma das vozes visuais mais marcantes da sua geração. É autor de vários livros e foi o primeiro fotógrafo vivo a receber uma exposição a solo na Sotheby’s de Londres
A fotografia não foi o caminho inicial que escolheu. Antes de pegar numa câmara, Shields dedicou-se ao desporto e chegou a competir nos X Games.
«Era patinador profissional quando era miúdo. Também estive no mundo das corridas de mota. Fazia patinagem e videoclipes. Não sabia nada de fotografia», recorda.
A entrada no mundo artístico aconteceu quase por acaso.
«Tinha um colega de casa que era fotógrafo. Pedi-lhe emprestada a máquina, tirei uma fotografia de um armário vazio e essa fotografia tornou-se famosa na Internet. Depois, apareceu num outdoor. Tinha 22 ou 23 anos».
Na altura, as redes sociais estavam apenas a dar os primeiros passos. «Foi estranho, mas percebi que estava a chegar a uma fase em que toda a gente ia precisar de fotografias. Na altura, praticamente não havia redes sociais e o MySpace estava a começar».
A partir daí, a fotografia tornou-se uma presença constante na sua vida. «Comecei a fotografar pessoas e adorei. Depois, foi crescendo. Cada vez mais pessoas queriam fotografias, queriam fazer coisas. E eu continuei a fazê-lo».
Fotografias que contam histórias
A exposição de Loulé, «há um pouco de tudo. Há cerca de 10 a 12 anos de trabalho. Tem desde uma mala Birkin em chamas, a série de fotografias de silhuetas, até uma fotografia que lancei há cerca de um mês. É uma boa variedade».
Duas são exibidas publicamente pela primeira vez. «Há uma nova chamada Veil, que é uma rapariga com um véu sobre o rosto. Fiz essa há uns anos e nunca a tinha mostrado». A outra é a «Nine Lips».
A forma como Shields constrói as suas imagens começa quase sempre muito antes de disparar o obturador. «Primeiro, vejo-as todas na minha cabeça. Às vezes consigo fazer isso e tiro-a cinco segundos depois. Outras vezes, demora meses», pelo que o processo pode envolver preparações demoradas.
«Por exemplo, uma fotografia pode surgir no momento: vejo algo e faço-a imediatamente. Mas há outras em que penso vamos pôr isto a arder ou vamos fazer explodir aquilo. E isso leva tempo».
Na fotografia inspirada em «Alice no País das Maravilhas», por exemplo, o detalhe foi essencial. «Construímos o cenário e depois tivemos de encontrar o coelho certo. Já tinha a modelo, mas encontrar o coelho perfeito demorou. Não podia ser o animal errado e não queria um coelho falso».
Para o artista, o objetivo é criar imagens que pareçam parte de uma narrativa maior.
«Quando era miúdo, adorava cinema. E gosto muito de freeze frames de estilo cinematográfico. A ideia é conseguir uma fotografia que pareça fazer parte de uma história. A fotografia é o meio da história e o espetador imagina o seu início e o seu fim».
A fotografia como uma experiência
Uma das características do trabalho de Shields é a capacidade de provocar reações fortes e, muitas vezes, divergentes.
Uma das características do trabalho de Shields é a capacidade de provocar reações fortes e, muitas vezes, divergentes. «A parte divertida é que, apenas uma fotografia, pode fazer tudo isso simultaneamente: pode chocar uma pessoa e emocionar outra. A fotografia em si não muda, muda é a experiência do espetador». Por isso, «temos de deixar o público ter a sua própria experiência».
Entre os temas recorrentes do seu trabalho estão os lábios. «Fiz uma série em 2011 ou 2012. Ocasionalmente faço-o. A fotografia Nine Lips surgiu porque a modelo é uma grande atriz e achei que tem lábios perfeitos. Mas não são todos os lábios», diz.
Apesar de ser autodidata, Shields encontrou inspiração em alguns dos nomes mais marcantes da história da fotografia.
«Lembro-me de ver uma fotografia de Richard Avedon. Vi um detalhe e uma emoção que nunca tinha visto em nenhum dos meus trabalhos. Então fui comprar uma máquina fotográfica 8×10».
Este interesse por processos clássicos continua a marcar a forma como trabalha.
«Robert Mapplethorpe, Irving Penn, Richard Avedon, Helmut Newton, todos fizeram trabalhos incríveis e não tinham o que temos agora. Ainda uso câmaras antigas porque gosto do quão lentas são e o quão tenho de trabalhar nas fotografias. Nunca na minha vida tirei uma foto em modo automático».
Num momento em que a inteligência artificial e as redes sociais estão a transformar a forma como as imagens são produzidas e consumidas, Shields acredita que a autenticidade continuará a ser valorizada.
«A fotografia está a mudar rapidamente. Há muito medo da inteligência artificial, mas acho que quanto mais tecnologia existe, mais as pessoas valorizam fotografias reais. Todos os colecionadores com quem falo adoram o processo de como faço as coisas. Adoram a história que está por trás».
Ainda assim, deixa um conselho às gerações mais jovens. «A fotografia requer tempo e dedicação até sermos bons. A arte é uma maratona, não um sprint».
O debate como parte da arte
Ao longo da sua carreira, muitas das fotografias de Shields geraram debate público sobre os limites da arte. Para o artista, essa reação faz parte do processo. «Um elogio e um insulto são a mesma coisa, o insulto só demora mais tempo a escrever», ironiza.
Segundo explica, o sucesso dificilmente existe sem críticas. «Se alguém conseguir chegar a algum nível de sucesso sem críticas, terá de ser estudado. Isso é impossível».
Em alguns casos, as imagens que geram maior controvérsia acabam por se tornar as mais marcantes. «Quando uma foto impulsiona conversa e debate sobre um assunto, é incrível».
Futuro inclui novo filme e livro
«Vou lançar um filme e um livro este ano. Além disso, vou lançar novos trabalhos e tenho outros planeados. Acho que tenho 20 exposições em galerias», diz.
A produção editorial de Shields inclui «The Dirty Side of Glamour» (2013) e «Provocateur: Photographs» (2017), que exploram temas como o luxo, o poder e a cultura de celebridades, bem como projetos mais conceptuais como «Smartest Man» e «Richest Man», sobre o poder e o dinheiro, e «4 By 5» que privilegia o formato de grande formato com composição rigorosa. Publicou ainda a série «Pinewood Academy», registo narrativo que combina fotografia e ficção numa estética próxima do cinema.
Sobre o novo filme: «É o primeiro da história filmado em todos os formatos de película. É também o primeiro filme filmado em IMAX anamórfico. O elenco inclui ainda alguns nomeados aos Óscares. Eu escrevi, realizei e filmei».
A exposição de Tyler Shields pode ser visitada na galeria In the Pink, em Loulé, de terça a sexta-feira, entre as 10h00 e as 18h00, e aos sábados entre as 10h00 e as 14h00.
Fotografias: Cortesia da Galeria In The Pink e Tyler Shields.

