Eduquem os vossos filhos para não termos de proteger as nossas filhas.
Um mundo pós-capitalista e tecnocrático não deixa de ser um patriarcado por causa disso. Acontece o inverso, uma vez que a esmagadora maioria dos modelos sociais existentes, ocidentais e orientais, estão construídos em redor da figura masculina, há um depurar e um aprimorar da prevalência masculina sob o véu da igualdade. Basta pensar em Trump e na sua campanha.
Mas mesmo a figura masculina é hierarquizada étnica, religiosa e socialmente, o que não elimina a luta de classes do cenário. Nem a deveria sectarizar, e esse tem sido o grande erro da esquerda moderna.
Esta construção social coloca as mulheres – e Angela Davis demonstrou-o irrepreensivelmente – como parte de uma classe própria minoritária, não no sentido numérico, mas no sentido de acesso ao poder e de oportunidades iguais – mesmo que também nesta classe haja uma hierarquização semelhante à masculina.
Muito para além de todos os dados e relatórios sobre violência doméstica, assédio e violação, que são preocupantes e assustadores para as mulheres, mas deveriam ser para qualquer ser humano, há, como no racismo, um problema institucional interligado à educação para os papéis de género. Não obrigatoriamente apenas na educação escolar, mas na social, porque também aqui, como no racismo, as mensagens são conflituosas. Se, formalmente, é advogada a igualdade das mulheres – e não necessariamente a equidade – no plano do real, é uma classe que não só continua a sofrer abusos em silêncio, mas sobre a qual esses mesmos abusos são encarados como parte natural da condição feminina, quando não, encorajados.

É verdade que tem havido uma maior consciencialização e politização das próprias mulheres e da sociedade em geral, e condutas e atitudes consideradas tradicionalmente aceitáveis, são agora muitas vezes condenadas, pelo menos aparentemente no plano social. Embora corramos o risco de retroceder rapidamente, dado o aumento da presença do discurso da extrema-direita e a sua apropriação da narrativa.
Não é apenas às outras que as histórias de abuso acontecem. No plano pessoal também acontecem. Falem com as mulheres da vossa vida, deem-lhes confiança e apoio e as histórias surgem.
São inúmeros os episódios que escutei, de amigas, familiares e conhecidas que frequentemente me obrigam a parar para pensar se não estarei eu próprio a ser abusador, ainda que inconscientemente. Episódios recorrentes em todas as idades, na rua, em locais de trabalho, nas escolas, enfim, em todo o lado. Um leve roçar, um SMS de teor sexual, uma chantagem velada, as histórias são diversas e inúmeras.
Nós não fomos e continuamos a não ser educados para sermos sensíveis a questões de género, próprio ou alheio, a não ser a partir de um plano de superioridade e protecionismo. E essa posição de poder consente uma falta de sensibilidade para com o outro, cuja raiz é milenar, mas que é potenciada pela identidade neoliberal do individualismo exacerbado, conduz a uma displicência face a situações de abuso.
Porque se são claras e óbvias as razões que levam a que mulheres abusadas em larga escala por um mesmo homem, como aconteceu recentemente no mundo académico português e esta semana no do jazz, não apresentem queixa – o serem desacreditadas, o sentimento de isolação, de culpa, de incompreensão, o estigma social, o «estavas mesmo a pedi-las» – são menos aceitáveis os motivos pelos quais os homens permanecem no silêncio: a posição confortável que fomenta a indiferença e um sentido troglodita de irmandade para com outros homens.
É óbvio que, quando uma abusada se apresenta como queixosa, surja uma rede de queixas e que isso despolete acusações em massa.
Homens e mulheres, em conjunto, precisam de chamar a si a tarefa de construir um mundo em que, nós, homens, deixemos de estar na ribalta apenas como abusadores porque a nossa posição estrutural nos permite, e passemos a tomar a dianteira no combate ao abuso, não só no dia a dia, mas também na sua denúncia pública. Porque é uma saída demasiado fácil reconhecer que se sabia haver amigos, companheiros ou colegas abusadores, uma vez que as queixosas tiveram a coragem de falar.
Nessa altura o mea culpa parece uma fraca forma de desculpabilização.
Se sabíamos, porque não agimos antes? Será preciso estar sempre à espera que alguma abusada, com tudo contra si, tenha a coragem de dar o primeiro passo? A neutralidade ainda é o partido da opressão.
Nota: Onde se lê mulheres, pode facilmente substituir-se por pessoas LBGTI+.