Museu Zer0, primeiro espaço de arte digital em Portugal, abre em Santa Catarina da Fonte do Bispo para ser uma «oficina renascentista contemporânea», este sábado, dia 27 de setembro, às 20h00.
O Museu Zer0, primeiro museu de arte digital em Portugal, abre este sábado em Santa Catarina da Fonte do Bispo, no barrocal algarvio, com a missão de aproximar a arte contemporânea das comunidades e dinamizar o território.
Instalado nos antigos silos da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Azeite, o espaço nasce por iniciativa do Instituto Lusíada de Cultura e da visão do empresário, colecionador de arte e antigo administrador do BCP, Paulo Teixeira Pinto.
«A luta é ter cada vez mais espaços no interior do país que aproximem as pessoas, porque temos de deixar de ser elitistas e o acesso à cultura e à arte contemporânea é importante», sublinhou hoje a programadora geral Fátima Marques Pereira, numa visita dirigida à comunicação social.
O museu terá dois momentos de abertura, um no sábado e outro no dia 18 de outubro, altura em que os visitantes já poderão apreciar as obras concebidas em residência artística, especificamente para os espaços expositivos existentes.
Segundo a programadora, esta abertura em duas datas tem a ver com a ideia permanente de work in progress [em português, trabalho em progresso], que o museu quer transmitir, no qual as pessoas «acompanham o saber fazer».
Fátima Marques Pereira enalteceu a visão do fundador, Paulo Teixeira Pinto, que pensou o espaço «inspirado no número e no infinito da criação digital», com uma «visão de plenitude, de liberdade, de democracia».
Outro aspeto diferenciador tem a ver com as residências artísticas. «O Paulo, um dia, disse-me que gostava muito que o Museu Zer0 fosse também uma oficina renascentista contemporânea, porque aqui temos criação, produção artística e conhecimento», sintetizou. Este «é um organismo vivo que se constrói com unidade, artistas, parceiros e públicos. É um museu do presente e do futuro».
Aos artistas, a programadora transmitiu linhas programáticas como «a história da memória e a identidade do lugar», além dos desafios dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Um exemplo é o trabalho da dupla Francisca Rocha Gonçalves e Christian Dimpker, que vai criar uma obra a partir da ecologia da Ria Formosa, ao combinar gravações sonoras do ruído subaquático provocado pelas embarcações e pelo impacto das atividades humanas com vídeo e narrativas locais, num cruzamento entre ciência, ambiente e cultura.
Para a sala imersiva, uma black box que tira partido das fundações dos silos, estão a ser finalizadas duas obras de arte digital: uma dedicada ao legado do arquiteto modernista Manuel Gomes da Costa e outra inspirada nas flores e plantas do barrocal algarvio.
As criações têm a assinatura do coletivo Oskar & Gaspar, formado por Guillaume de Oliveira e Francisco Leone, reconhecido pela especialização em artes multimédia.
«Foram feitas por uma equipa muito grande e a ficha técnica vai mostrá-lo. Trabalharam com dados, fotografias e material cedido pelo arquiteto Gonçalo Vargas, um dos maiores especialistas na obra de Gomes da Costa. No caso das flores, o ponto de partida foram as imagens de um professor de Tavira, que tem um acervo notável de fotografias sobre a flora desta zona», revelou o diretor João Vargues.
O edifício, projetado por Gomes da Costa nos anos 1950, per si, já é um motivo de visita. Tem sete andares e várias valências para produzir arte, criatividade e conhecimento.
No rés-do-chão, situam-se quatro salas expositivas. Para a sala grande está prevista uma instalação da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, com vídeos que narram os pioneiros e os primórdios da arte digital em Portugal, enquanto a sala do órgão deverá acolher uma peça sonora original da autoria de Luís Fernandes, artista conhecido pela composição de peças para teatro, dança, cinema, vídeo e instalações.
O segundo piso integra um pátio destinado a concertos, performances, video mapping e ciclos de cinema, e no terceiro será possível ver projetos artísticos nos antigos silos.
O primeiro andar é dedicado à criação artística, com o Espaço Magalhães, nascido de um projeto transfronteiriço entre Algarve, Alentejo e Andaluzia, a funcionar como centro de experimentação.
O espaço inclui um Fab Lab, com impressoras 3D e estúdio de som, já usado por cerca de 30 artistas em projetos de cooperação com Espanha. «É um espaço que no dia a dia queremos que atraia pessoas, nomeadamente jovens criativos», sublinhou João Vargues.
A ligação às escolas e à academia completa as valências do museu. «Muito da arte digital em Portugal começa no ensino superior. Há muitos e bons artistas, há muitos anos, a trabalhar nesta área. Interessava ligá-los. Portanto, constituímos e estabelecemos uma dinâmica de trabalho e de conversas entre eles, organizadas por eles e para eles, que chamamos o Ágora Interuniversitário», explicou João Vargues.
Já existe um protocolo com a Universidade do Algarve (UAlg) «para acolher investigadores num espaço próprio, no último andar, onde podem desenvolver projetos de investigação em doutoramentos ou pós-docs».
O museu terá ainda um espaço próprio para residências artísticas, numa configuração espacial que permite que cada espaço esteja organizado para acolher determinadas funções, sem colidirem umas com as outras, referiu o diretor.
No projeto das residências artísticas, o Museu Zer0 conta com o apoio da Fundação MEO, pretendendo desafiar artistas e investigadores a proporem projetos inovadores, capazes de dar visibilidade ao museu.

Entre os dois momentos de abertura, o museu permanecerá aberto ao público, permitindo a escolas, instituições e visitantes acompanhar bastidores e conhecer artistas.
O Museu Zer0 está aberto de quarta-feira a domingo, das 10h00 às 18h00, e a entrada será gratuita.








