Temos de tomar opções claras: aumentar a nossa literacia alimentar, pois se não sabemos o que podemos e devemos comer, dificilmente faremos as melhores e mais económicas decisões.
Um sistema alimentar pode ser reduzido à sua forma mais simples, a da relação entre produção e consumo, mas na realidade engloba uma grande diversidade de atores e de relações, cuja complexidade aumentou ao longo do tempo.
Com a globalização da industrialização alimentar, a imagem bucólica dos agricultores que vendem os seus produtos no mercado local, onde as famílias e organizações se vão abastecer, deu lugar a sistemas muito complexos, (funcional e administrativamente) sempre movidos pela necessidade de fornecer qualquer produto, em qualquer local, ao mais baixo preço, ao maior número possível de pessoas e mercados.
Se por um lado esta tendência aumentou a disponibilidade de alimentos a um número crescente de pessoas, por outro lado gerou perversidades e desequilíbrios que começam agora a ser questionados por um crescente número de «consumidores» – sim, porque os membros de uma nação, os «cidadãos», foram neste processo de globalização reclassificados pela sua capacidade de consumo e rebatizados como «consumidores».
Um claro exemplo deste desequilíbrio está patente nos sistemas alimentares de abastecimento social, que englobam as cantinas das escolas, universidades, Instituições Particulares de Solidariedade Socia (IPSS), programas de ajuda alimentar e todas as outras formas de alimentação suportada pelo Orçamento de Estado.
Limitado pelo custo unitário, pelas regras da contratação pública e por hábitos de consumo «globalizados», a realidade atual é caracterizada por uma tremenda dependência externa do fornecimento de alimentos, produzidos industrialmente a baixo custo e que não cativam os consumidores, particularmente os mais jovens, que abandonam as cantinas assim que podem.
Ao lado destas cantinas, pequenos e médio produtores enfrentam crescentes dificuldades para sobreviver e prosperar e inúmeras espécies e variedades de produtos locais que não se enquadram neste modelo industrial de produção-consumo são esquecidos para sempre…
A desafiante conjuntura atual, que reforça o valor da qualidade de vida e da autodeterminação alimentar, constitui uma oportunidade única para mudar a orientação dos nossos sistemas alimentares dominantes, numa direção em que contribuam para as economias locais, para a saúde e bem-estar das comunidades, para a biodiversidade e para a sustentabilidade dos territórios.
Para que este seja um caminho longo mas que possamos trilhar, temos de tomar opções claras: aumentar a nossa literacia alimentar, pois se não sabemos o que podemos e devemos comer, dificilmente faremos as melhores e mais económicas decisões alimentares; estreitar a relação entre produção e consumo, levando os cidadãos para perto dos produtores, mas trazendo também estes para o planeamento das necessidades alimentares das escolas, por exemplo; melhorar a eficiência dos sistemas alimentares, reduzindo o desperdício, custos com os fatores de produção e privilegiando o consumo local e sazonal.
Este é um desafio em que as decisões de cada indivíduo são determinantes, mas em que o papel do coletivo e da administração são igualmente centrais, pois só assim poderemos mudar comportamentos e atitudes alimentares e produtivas.
A utopia de um sistema alimentar equilibrado e sustentável não é assim tão inverosímil: se os cidadãos (de todas as idades e condições sociais) se capacitarem para planear e gerir a sua alimentação de forma realista e baseada na evidência científica de estilos de vida indutores de qualidade de vida, tal como a Dieta Mediterrânica, realizando as opções mais adaptadas ao seu território e às suas necessidades individuais, será possível mobilizar a produção local para adotar sistemas produtivos sustentáveis e adequados às necessidades locais, assim como instituir circuitos curtos de distribuição e modelos de contratação mais eficientes e que integrem componentes fundamentais tal como a relação qualidade-preço, o impacto e a biodiversidade.
O elemento-chave para este sistema alimentar realmente funcionar passa pela vontade de participação de cada um dos seus elementos-chave e pelas relações de confiança (solidificados na comunicação) entre eles.
Exemplificando: se os «consumidores», sejam eles os jovens de uma escola e os responsáveis pelas cantinas planearem e decidirem coletivamente o que irão consumir, privilegiando os alimentos que estão disponíveis no seu território de proximidade, numa determinada estação e segundo um modo de produção sustentável, será possível prever as necessidades desses alimentos para um período concreto e enviar aos produtores a informação dessas necessidades de alimentos, para que eles possam adaptar a sua capacidade produtiva às espécies, variedades e quantidades para as quais irá existir procura.
Por outro lado, os produtores, particularmente os de menor dimensão, deverão procurar cooperar com outros na sua proximidade, para que, juntos, ou coordenados por um deles com capacidade de agregação da produção, possam responder às necessidades programadas e responder aos procedimentos de contratação a que o abastecimento público está obrigado.
Neste sentido, os organizadores da contratação pública devem capacitar-se para explorar as potencialidades legais já em vigor, privilegiando critérios de proximidade, qualidade e autenticidade que introduzam alguma diferenciação positiva à produção local e sazonal.
A disseminação e capitalização destes sistemas alimentares territoriais é muito importante, envolvendo as famílias, os decisores, os demais produtores, a comunidade em geral e a academia, demonstrando como é possível melhorar a alimentação social e como são reais e importantes os seus impactos na saúde, na economia e na resiliência do território e das suas comunidades.
Somos aquilo que comemos? Sim, se assim o quisermos!
Artur Filipe Gregório | Antropólogo, agente de desenvolvimento local na Associação In Loco desde 1996, especialista em Planeamento Regional e Urbano e dirigente associativo. Coordenador de projetos internacionais de promoção do Turismo Sustentável baseados na herança cultural e gastronómica mediterrânica. Apaixonado pelo mar, pela terra e pelas pessoas.