Madalena Telo, de Monchique, dá continuidade à arte da família e faz cerâmica em barro produzido de forma artesanal.
É nas paisagens, entre a flora da serra, e nas texturas das rochas da costa algarvia que Madalena Telo, 30 anos, formada em Belas Artes no Porto, se inspira para criar as suas peças de cerâmica feitas à mão. Desde 2016, no seu atelier no centro de Monchique, trabalha todos os dias na roda de oleiro, ou de oleira, como carinhosamente gosta de lhe chamar. Na verdade, esta arte ancestral é algo de família.
«Os meus pais são ceramistas, assim como o meu avô, e desde muito pequena que o meu brinquedo era o barro. Sempre foi esse o universo que tinha disponível para me expressar. Nunca pensei torná-lo na minha profissão, mas acabou por acontecer de forma muito natural», recorda ao barlavento.
Depois de terminar os estudos decidiu seguir as pisadas familiares e, apesar de optar por várias técnicas na elaboração das suas peças, a receita para a produção do barro é única, criada por Madalena Telo. Durante a primavera, «aproveito para colher o barro na zona do Alferce, onde há muitos vales e barrancos ricos. O barro de Monchique tem muito ferro e, para a temperatura que eu cozo as peças, a 1250 graus, a matéria-prima não aguenta. Depois de o preparar, decantar e tirar as pedras, transforma-se numa massa mais argilosa e muito suave. É nessa fase que é necessário juntá-lo a um barro mais forte. Por isso misturo-o com um grés proveniente das Caldas da Rainha. É um processo muito artesanal», explica. Apesar de ser um trabalho moroso e de haver alternativas, como adquirir o barro já pronto a ser modelado, aliás, uma escolha comum para maioria dos profissionais, a ceramista algarvia faz questão de o preparar desta forma.
«Gosto muito de usar o barro de Monchique porque tem tudo a ver com o facto de o meu trabalho estar tão ligado à natureza. Quando estou a trabalhar, para mim, é completamente diferente saber de onde vem a matéria-prima, e de a mesma estar associada ao momento de quando a fui colher ao campo para depois a preparar. É quase um ritual que quero acreditar que se sente no resultado», justifica.
Desafiada a descrever aquilo que faz, Madalena Telo responde que «acima de tudo é material utilitário, mas em todas as peças tento incorporar a parte escultórica. Gosto de criar peças que tenham alguma robustez, mesmo quando à primeira vista possam parecer delicadas e frágeis de usar. Gosto de jogar com isso e elaborar a parte funcional. Gosto de fazer peças especiais, que as pessoas sintam que são feitas à mão, num processo longo e consciente. Mas, acima de tudo, peças que são práticas, que podem ser usadas todos os dias e não apenas em cerimónias ou festividades».
O portfólio desta artesã monchiquense tem coisas que aparentam simplicidade como pratos, jarros, taças, copos e colheres, mas que ganham um caráter muito próprio. «Uso várias técnicas. Passo muito tempo na roda de oleira que é excelente para produzir a forma de base. A partir daí, com colagens e outras métodos de impressão, dá para criar outro tipo de peças mais originais, com uma forma menos cilíndrica. Também gosto de usar a modelação», afirma.
Outra das características do trabalho de Madalena Telo é a mistura de materiais, como o metal, o cobre e a madeira. «O barro, depois de cozido, dá para conjugar até com tecidos. Serve para fazer inúmeras combinações», aponta.
Além da geologia do Algarve, Telo inspira-se «nas tradições e na história das peças de cerâmica que se usavam antigamente. Há objetos que se perderam, que se usavam há mais de 100 anos e que eram muito característicos das casas de outrora. Hoje já não se usam. Gosto de voltar a criar essas formas, de modernizá-las e adaptá-las ao meu estilo. Vou beber diversas inspirações, mas sempre focada no que me rodeia. Incorporo muito este ar algarvio», confidencia.
Para produzir uma peça, é necessário, no mínimo, três semanas até estar finalizada. «Claro que depende muito do tamanho, mas mesmo um copo muito pequeno, demora tempo. Isto inclui toda a preparação do barro e não apenas a criação do objeto em si. E estamos a falar de um trabalho que tem de ser feito de forma calma», de acordo com a jovem, sobretudo no inverno. «Nesta altura, o processo é ainda mais lento porque há muita humidade no ar. As peças demoram mais a secar, mas isso é fantástico porque permite fazer trabalhos com outras características que não são possíveis no verão, uma vez que secam muito rápido», compara, o que dá uma componente sazonal à produção, tal como acontece na natureza.
Apesar de ser um trabalho lento, a verdade é que o resultado se traduz em cerâmica que «pode durar uma vida toda e manter-se igual durante décadas», o que torna a responsabilidade da artesã ainda maior.
«Há vários achados arqueológicos que contêm barro. Mesmo quando se partem, não desaparecem. Tenho essa consciência, cada vez mais, quando estou a produzir uma peça. Antes de a cozer, gosto de parar e de me certificar que estou satisfeita e de que vai ser, realmente útil, porque sei que vai perdurar durante anos», refere.
Já sobre as cores que utiliza, a artesã fala «num mundo que nunca mais acaba. O barro não é só cor terracota, tem todo um espetro cromático gigante, dependendo da sua origem. O de Monchique é terracota devido à grande quantidade de ferro presente, mas como o cozo duas vezes, fica com um tom mais achocolatado. Os vidrados que utilizo também são minerais. É feito a partir de rochas que encontro também em Monchique. Depois, desfaço-as em pó e é um longo processo de testagem de fórmulas. É como se fosse a receita de um bolo: pôr mais ou menos de caulino, selénio e todos os componentes até obter a cor que idealizo para determinada peça. No final, também dá para pintá-la de outras tonalidades. As possibilidades são infinitas», descreve.
Esta vertente também torna a atividade muito sustentável. «O barro é uma matéria-prima natural. Mesmo na parte da manufatura, tudo pode ser reciclado. No meu atelier, a água que utilizo para lavar os pincéis e toda a roda de oleira, é utilizada na produção. O barro, depois de cozido para o estado de cerâmica pode ser reutilizado, basta voltar a juntar água e a amassar que pode ser trabalhado uma e outra vez», refere.
Para o futuro, a ceramista monchiquense quer tornar o seu atelier ainda mais amigo do ambiente. «Por enquanto, cozinho em fornos de gás, mas como não é muito sustentável, estou na transição para os fornos a lenha, porque pretendo utilizar os restos de madeira de Monchique. Só que, como é um investimento grande, tenho de perceber quais as melhores opções e criar condições para isso. Há já alguns meses que estou a estudar como fazer essa transição», revela.
Para conhecer o trabalho da ceramista de Monchique ou realizar encomendas, basta consultar as redes sociais (@madalenatelo).
Cerâmica é uma arte com futuro?
Trabalhar o barro é uma arte ancestral, mas será uma profissão para o futuro? Madalena Telo, ceramista de 30 anos, com o seu atelier em Monchique, acredita que sim. «Hoje, temos mais objetos de plástico, mas creio que já estamos de novo a utilizar mais materiais naturais. Sinto que a cerâmica se está a reavivar e até a tornar-se numa moda. Não sei se é algo passageiro, mas para mim é estranho porque cresci numa família de ceramistas. Esse sempre foi o meu mundo, mas quando comecei profissionalmente nesta área, lembro-me que não havia novos ceramistas. Na altura, falava-se que o artesanato se estava a perder em diversas áreas e que não havia interesse. No Algarve, foram até criados alguns projetos nesse sentido. O que sinto é que desde a pandemia, devido ao facto de as pessoas terem tido tempo para parar e fazerem coisas que lhes dão prazer, está a aparecer um boom de novos ceramistas. Isso dá-me muito prazer e fico imensamente feliz. O barro permite estilos e formas infinitas e acho fantástico que haja esse interesse e valorização. Há uns anos não havia muito conhecimento sobre esta arte no geral e não se valorizava muito. O público estrangeiro sempre teve outra visão, mas desde há cinco anos que sinto que é o público português quem está mais interessado. Cada vez mais recebo contactos e pedidos de visita ao atelier por parte de portugueses, quando antes, eram sobretudo de estrangeiros. Acho também que é uma questão de prioridades, investir em cerâmica é fazer um investimento que dura a vida toda, é fixar um objeto e poder passá-lo de geração em geração».
Do alto da serra à alta gastronomia
No Algarve são já diversos os espaços onde se podem encontrar peças com a assinatura da artesã Madalena Telo, como cafetarias, restaurantes de fine dining e boutique hotéis. «São todos projetos muito interessantes relacionados com a sustentabilidade, o que é curioso porque, uma vez que também tenho essa visão, sinto que atraio pessoas que também querem criar essa realidade nos seus espaços, torná-los mais eficientes», diz a jovem ao barlavento. É o caso do Loki, em Portimão, do chef natural de Monchique, Luís Marreiros, considerado o restaurante mais sustentável de Portugal. Também no Austa, em Almancil, se podem encontrar copos e pratos da artesã. Ainda assim, um dos projetos que mais prazer lhe deu, terá sido o da cafetaria Koyo, em Aljezur. «O proprietário é húngaro e só trabalha com pequenas quintas de todo o mundo. Viaja muito para trazer os melhores cafés para o seu espaço e é ele que faz a torra. No ano passado pediu-me para criar todos os copos de café. Não tenho muito conhecimento da área, mas encontrei uma semelhança gigante entre o café, a torra e todo o ritual até podermos beber um expresso. Foi muito interessante e foram dois meses de pesquisa até encontrar a forma e o tamanho certo», recorda. Em comum, segundo a ceramista, «é um público ambientalmente mais consciente».
Encomendas que voam para o Japão e Nova Zelândia
A nível internacional, a cerâmica produzida em Monchique de forma artesanal por Madalena Terro já chegou a toda a Europa, Estados Unidos da América, Japão e até Nova Zelândia. Esta última, fruto de um projeto que a ceramista não esquece. «Depois do incêndio de 2016 em Monchique, reparei que ao retirar-se a camada preta das árvores, estevas e arbustos, a madeira continuava muito bonita. A forma que encontrei de dar uma segunda vida a essa madeira que parecia queimada e inutilizada, foi criar umas colheres com ponta de cerâmica e o cabo em madeira. Foi também uma homenagem que quis prestar ao meu avô», recorda. «Uma emigrante portuguesa escreveu-me a dizer que sentia uma ligação muito forte a esse trabalho e pediu que enviasse as colheres para a Nova Zelândia. E assim foi. A verdade é que posso viver num sítio isolado, mas sinto-me ligada ao mundo inteiro. O meu trabalho já viajou muito mais do que eu», assegura Madalena Telo.
Fotos: Bruno Filipe Pires




















