Silves precisa de uma governação que vá além da autocomplacência. Precisa de uma Câmara que reconheça que o mérito nunca é apenas seu, mas que também não fuja às responsabilidades.
O recente artigo do executivo da Câmara Municipal de Silves no jornal barlavento, publicado em tom de resposta e justificação, merece uma reflexão crítica e ponderada. É saudável que o debate público exista, e é natural que um executivo queira realçar o que considera serem os seus sucessos.
Mas o que se lê no texto do executivo não é apenas um balanço político: é, sobretudo, uma tentativa de construir uma narrativa onde o que corre bem é sempre mérito exclusivo da Câmara, enquanto o que corre mal é culpa do governo central, de fatores externos, da conjuntura ou, em última análise, de tudo menos da responsabilidade própria.
Este padrão discursivo não é novo, mas torna-se particularmente problemático quando se transforma em método de governação. Em Silves, criou-se uma espécie de dualidade política:
- As vitórias (obras inauguradas, investimentos anunciados, melhorias visíveis) são apresentadas como resultado direto da visão e da capacidade do executivo.
- As derrotas (atrasos, falhas estruturais, ausência de respostas a problemas reais) são imediatamente empurradas para o exterior, como se fossem inevitabilidades ou imposições externas.
Ora, governar um concelho implica assumir responsabilidades — tanto pelos sucessos como pelos fracassos. E é aqui que o discurso do executivo falha: ao selecionar cuidadosamente os factos, ao silenciar os apoios estruturais da União Europeia, ao omitir os limites da sua própria ação, cria-se uma imagem incompleta e até enganadora da realidade.
Um dos aspetos mais relevantes neste discurso é a quase total omissão da União Europeia. Boa parte das obras que hoje se apresentam como «conquistas» do executivo resultam diretamente de financiamento europeu, através dos programas operacionais regionais, do PRR ou de outros instrumentos semelhantes. Estas obras não surgem apenas por mérito político local.
São enquadradas em políticas nacionais e europeias, sujeitas a candidaturas competitivas, avaliadas por critérios técnicos e aprovadas em função da sua relevância para o desenvolvimento regional. São, em suma, um esforço partilhado — entre autarquia, governo central e União Europeia.
No entanto, em Silves, raramente se vê essa realidade reconhecida. Ao contrário do que determinam as regras de comunicação comunitárias, as placas de obra quase nunca mencionam explicitamente os fundos da União Europeia. Este apagamento não é apenas uma falha de transparência: pode ser considerado uma irregularidade, dado que as normas comunitárias obrigam à referência visível da origem do financiamento.
O resultado é um discurso enviesado: o executivo apresenta-se como «pai» de obras e projetos que, na realidade, só foram possíveis graças ao apoio financeiro europeu. É como se a autarquia tentasse reescrever a narrativa, apropriando-se de conquistas que são, na verdade, coletivas. Este apontamento é especialmente relevante, porque demonstra um tumulto interno e uma incapacidade de viver com opiniões distintas. Neste caso, a neoliberal União Europeia e a comunista CDU de Silves, duas realidades contraditórias, que na verdade não passam de caricaturas (na mente de pessoas menos razoáveis).
Nem tudo está mal — Importa ser claro, ninguém defende que tudo em Silves está mal. Seria falso e injusto. O concelho tem recursos humanos e naturais relevantes, tem associações e coletividades ativas, tem empresas com mérito e uma população resiliente. O papel da Câmara, como de qualquer outra, é procurar soluções para os problemas locais. E em alguns casos, isso foi feito. Mas é precisamente porque existem recursos e potencial que a crítica se torna ainda mais pertinente: Silves poderia estar muito mais longe do que está.
Outros concelhos, com menos população, menos recursos financeiros e menos centralidade territorial, conseguiram em poucos anos reinventar-se e atrair investimento, jovens e novas oportunidades. Em Silves, pelo contrário, a sensação que fica é de estagnação, de falta de visão, de ausência de um projeto claro que prepare o concelho para os desafios do século XXI. Para compreender melhor esta estagnação, basta olhar para casos de concelhos portugueses que estavam em declínio e que, através de políticas municipais consistentes e inovadoras, conseguiram inverter tendências e gerar dinâmicas positivas:
- Fundão: durante anos, o Fundão foi um concelho marcado pela desertificação e pela perda de população jovem. Através de uma estratégia clara de atração de empresas tecnológicas, criação de incubadoras de startups, parcerias com universidades e incentivos fiscais à fixação de novas empresas, conseguiu criar centenas de empregos qualificados. Hoje, o Fundão é apontado como exemplo de como um concelho do interior pode reinventar-se, atraindo jovens quadros e novas oportunidades;
- Idanha-a-Nova: considerado durante décadas um dos concelhos mais envelhecidos do país, apostou fortemente em sectores como a cultura, a agricultura biológica e o empreendedorismo ligado à sustentabilidade. Criou programas de apoio a novas empresas e hoje é internacionalmente conhecido como território de inovação rural;
- Ílhavo: município tradicionalmente ligado à pesca, percebeu cedo a necessidade de diversificação. Apostou na cultura, na regeneração urbana e em políticas de captação de jovens criadores e empreendedores. Hoje, tem uma vida cultural intensa e uma atratividade que vai muito além da sua dimensão;
- Torres Vedras: exemplo de políticas consistentes de mobilidade sustentável e inovação energética, foi reconhecido internacionalmente como European Green Leaf em 2015. A aposta em políticas ambientais e na captação de empresas ligadas às energias limpas transformou a imagem do concelho;
Estes exemplos mostram que é possível, mesmo em territórios com limitações objetivas, criar condições para atrair jovens, fixar empresas e dinamizar a vida local. O que faz a diferença não é a sorte, nem apenas os fundos disponíveis: é a visão política, a capacidade de definir um rumo e de mobilizar recursos em torno desse projeto. E é precisamente isso que falta em Silves.
O discurso do executivo municipal assenta muitas vezes na ideia de que os sucessos são fruto exclusivo da governação local. Mas esta narrativa esquece que nenhum concelho é uma ilha (precisamente a critica que me fazem no artigo de resposta, o que é irónico).
O que corre bem em Silves também depende de fatores externos: os fundos europeus, os programas nacionais de habitação, a dinâmica turística global, o investimento privado atraído por tendências regionais. Ignorar isso é criar uma ilusão de autossuficiência que não existe.
Da mesma forma, os problemas não podem ser empurrados exclusivamente para Lisboa ou para fatores externos. Uma Câmara Municipal tem margem de manobra significativa: pode definir prioridades de investimento, pode atrair empresas através de incentivos, pode criar programas de apoio a jovens, pode apostar em mobilidade, pode liderar políticas de habitação, é livre de procurar soluções a nível internacional. Ao sacudir responsabilidades, o executivo da CDU perde credibilidade e, sobretudo, deixa escapar oportunidades, é permissiva e apenas reativa ou passiva.
O mundo de hoje coloca desafios muito concretos às cidades e concelhos. E Silves, se quiser ser competitivo e atrativo, não pode continuar a ignorá-los:
- Habitação acessível: sem políticas locais ativas de habitação, os jovens não conseguem fixar-se no concelho. A Câmara poderia, como outros municípios fizeram, criar programas de arrendamento acessível, reabilitar património devoluto ou promover parcerias com cooperativas de habitação ou mesmo privados regionais ou locais;
- Mobilidade: Silves continua a ter problemas sérios de transporte público, tanto interno como de ligação a outros centros urbanos do Algarve e do país. Investir em mobilidade sustentável não é luxo, é condição essencial para atrair trabalhadores e empresas;
- Diversificação económica: depender excessivamente do turismo sazonal é um risco. Silves tem potencial agrícola e agroindustrial, mas falta estratégia para valorizar esses sectores com inovação e tecnologia;
- Transição digital: em pleno século XXI, ainda há falhas de conectividade em zonas do concelho. Um programa municipal claro de apoio à digitalização de empresas e serviços seria essencial;
- Qualidade de vida: os jovens não procuram apenas emprego, procuram cidades vivas, com cultura, espaços verdes, lazer e dinâmica social. Outros concelhos perceberam isso e apostaram em eventos, equipamentos culturais e atividades regulares que revitalizaram a vida urbana. Silves continua tímido nesta dimensão.
Recursos não faltam, falta visão. Silves dispõe de património histórico de valor inestimável, de um território rural fértil, de potencial turístico e ambiental, de uma população dinâmica.
O que falta não são recursos: falta liderança estratégica. É necessário um executivo que reconheça os limites da sua ação, que assuma responsabilidades e que saiba mobilizar todos os instrumentos, locais, nacionais e europeus, para um projeto de desenvolvimento coerente. Um executivo que não viva apenas de propaganda, mas que coloque Silves na rota da inovação, da sustentabilidade e da qualidade de vida.
Em conclusão, pedimos mais responsabilidade, menos propaganda. Silves precisa de uma governação que vá além da autocomplacência. Precisa de uma Câmara que reconheça que o mérito nunca é apenas seu, mas que também não fuja às responsabilidades.
Precisa de transparência no reconhecimento dos fundos comunitários, de coragem para enfrentar problemas estruturais e de visão para transformar recursos em oportunidades. Porque o concelho não pode viver apenas de um discurso de vitimização perante os problemas e de apropriação exclusiva dos sucessos. Precisa de um projeto para o futuro — para atrair jovens, empresas, inovação e qualidade de vida. Silves merece mais do que propaganda. Merece uma liderança que esteja à altura dos desafios do século XXI.
Miguel Braz | Consultor internacional de negócios